|
Augusto Anacleto Farias de Carvalho , poeta velho, pobre, gago e feio, passou à memória do seu tempo com a alcunha de Faria. Isto mesmo. Farias sem s . Faria do verbo fazer, no condicional.
Era um sonhador que só vivia de planos. Tinha todas as idéias do mundo e nenhuma concretude. Jamais realizou nada do que idealizou apesar de viver permanentemente imaginando realizá-las. Todos os dias falava de um projeto que estava quase pronto e acabado. Um conto , um poema, um livro , uma mulher para comer. No dia seguinte, já não falava do que ia fazer e novamente vinha com outra história do que faria. Por isso, Faria era seu apelido.
Farias de Carvalho não era, necessariamente, um mentiroso. Para confirmar Mario Quintana, as mentiras, para ele, eram verdades que se esqueceram de acontecer.
De concreto na vida, era padre e professor de latim do Ginásio Estadual do Amazonas. Só para contrariar a alcunha, fez um único soneto. Primor de métrica, rima e irreverência.
Como Farias era Faria e não deixou nada publicado, apropriei-me do soneto e espalho que é meu. Faço sucesso, mas por pudor adoto, quando poeta, o pseudônimo de Farias de Carvalho.
Arte de amar
Thiago de Mello
Amiga Gilda, pelo Carinho com que ajuda a divulgar nosso Jornal O REBATE no www.jornalorebate.com
Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.
Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.
( saudades,a sempre amiga, Gilda.)
(Ronald de Carvalho)
FODER
Farias de Carvalho
Foder , foder em pé , foder deitado
Foder no céu , no mar , foder na esquina
Foder sobre a esmeralda do gramado
Ou sobre a tábua dura da sentina.
Foder de quatro pés , acocorado
Dentro dos templos ou pelas campinas,
Foder no torno, velhas ou meninas,
Gozar fodendo de colhões puxado.
Foder, foder com o olhar, foder com pica.
Foder com a língua rubra que se estica
Ao contato de púbis distendido.
Foder, foder que a vida é tão somente,
Um fodalhaço dado , diariamente ,
E quem não fode , irmão , está fodido. |