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O Nascimento do Teatro e Demais Artes
O clima, de relativa paz interna, proporcionou um prodigioso florescimento das artes japonesas, ensejando o chamado período Genroku, de 1688 a 1704. O renascer criativo, que lançou as bases do teatro bakufu (cuja primeira performance, ao redor do ano de 1600, deve-se à atriz-bailarina Okuni de Izumo), à proliferação do bunraku, o popularíssimo teatro de bonecos que logo seduziu as populações urbanas, e, por fim, o aparecimento de três homens-de-letras de insuperável talento: os poetas Matsuo Basho (1644-1694), famoso pelos seus haikai, curtos versos cômicos; Ihara Saikaku (1642-1693), que praticamente inaugurou a ukiyozoshi, a prosa popular que fez dele um famoso autor de best-sellers; e Chikamatsu Monzaemon 1653-1725), autor de mais de 100 peças para o teatro de bonecos e de mais de 30, para o teatro kabuki, nas quais explorou o tema do suicídio, consagrado como o primeiro escritor profissional da história do Japão moderno.
O último samurai
Os japoneses afirmam que Saigo Takamori, morto aos 50 anos, em 1877, foi o derradeiro samurai, o último grande mestre-de-armas que, com a espada na mão, lutou até o fim para preservar os fundamentos da sua casta. O código do guerreiro que ele encarnava mais do que qualquer outro, estava por desaparecer na avalanche da modernidade provocada pelas reformas ocidentalizantes radicais adotadas na Restauração Meiji (1867-1912).
Época de ruptura na qual a pólvora fez desaparecer definitivamente a importância da espada. Aos olhos do povo, porém, que lhe admirava a bravura, ele sacrificou-se como um herói na defesa da kokutai, a originalíssima cultura nacional, por isso, até hoje reverenciam a estátua dele no Parque Central de Tóquio. E tudo isso começara com uma inesperada visita.
O perigo branco
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A chegada dos barcos negros do comodoro Perry
(Baía de Tóquio, 1853) |
A primeira impressão que os japoneses tiveram dos quatro grandes barcos negros do comodoro M.C. Perry foi atordoante. A imagem do "US-Mississippi", o navio capitania seguido por três outras armações de ferro movidas à vapor, foi terrível para eles.
Expelindo fumaça, singrando pela baía de Tóquio, sem que nada as pudesse deter, pareceu-lhes a chegada dos infernais dragões dos mares. Logo que ancorara no dia 8 de julho de 1853, o comodoro enviou um ultimato ao Xogum. Ou o governo assinava um tratado com os Estados Unidos ou outras providências seriam tomadas.
Para dar-lhes um prazo, a ele e ao Rôjô, o grande conselho dos sábios anciãos que de fato conduzia os negócios do país, Perry retirou-se das águas do Japão. Seis meses depois, em fevereiro de 1854, ele estava de volta, assinando o Tratado de Kanagawa, em 8 de março daquele ano mesmo.
Os norte-americanos obtiveram o direito de ancoragem em dois portos do sul e a promessa de não mais deterem marinheiros americanos que, por infeliz acaso, naufragassem nas proximidades das costas do Japão.
O país então entrou em polvorosa. Durante mais de três séculos a política do Xogum visara o total isolamento do arquipélago para evitar qualquer contanto com os estrangeiros. Agora, com o simples desfile das belonaves de ferro de Perry com seus canhões eriçados, toda a secular sensação de segurança se fora num só instante. O tão temido hakka, o "perigo branco", definitivamente afirmara o pé nos portos japoneses.
(*) Com a integração da Califórnia aos Estados Unidos, ocorrida em 1848, abriu-se, para os norte-americanos, a rota do Pacífico em direção à Ásia. Barcos ianques começaram a atingir os portos da China, sendo, então, estratégico para eles manterem um ponto de apoio no litoral do Japão.
O colapso do Xogunato
Não demorou a que o xogum (o 15º e que viria a ser o derradeiro deles) fosse constrangido por outros estrangeiros a assinar dois tratados a mais: um com o Império britânico e o outro, com a Rússia czarista. A nação se sentiu indignada com os "tratados desiguais" que fora forçada a assinar sob a mira dos canhões.
Com o prestígio do governo no chão por ter capitulado frente às forças ocidentais, ainda que formidáveis, um grupo de reformadores composto por jovens descendentes de samurais e de alguns daimyos que representavam a aristocracia feudal, resolveram agir. Adotando o lema sonnô jôi, "reponham o imperador e expulsem os bárbaros", que obteve enorme eco pelo país inteiro, eles trataram de derrubar o xogum desmoralizado.
Desde tempos imemoriais, o Japão tinha um imperador cujo poder foi em larga parte puramente simbólico. O Mandato Divino dele, na verdade, servia mais para dar um sentido de unidade religiosa às ilhas do arquipélago. Ele era o Chefe Sagrado, enquanto que o xogum fazia às vezes do Chefe Secular.
Os barões reformistas acreditavam que chegara a hora de pôr um fim naquela dualidade, restituindo ao imperador o poder outra extraviado. Capitaneados por Sakamoto Ryoma, Katsu Kaishu, Saigo Takamori, Yoshida Shoin, Takechi Hanpeita, Takasugi Shinsaku, Katsuria Kogoro e Shinsengui, que representavam os interesses das províncias de Satsuma, Choshu e Tosa, após uma curta guerra civil, a Guerra de Boshin, eles levaram Tokugawa Yoshinobu à renúncia, em 9 de novembro de 1867.
Agiram como se o jovem imperador Mutsohito tivesse recuperado o poder de fato, reunindo, no Mikado, do simbólico ao concreto. Para tornar isso mais explícito, os oligarcas transferiram a corte imperial de Kyoto para Edo (rebatizada como Tóquio).
Eis a razão do período que inauguraram ter sido batizado de Restauração Meiji ("o iluminado", nome que deram ao imperador). Seguindo-se então uma série impressionante de reformas políticas e sociais referendadas pelo Gokajyo no Goseimon, o Juramento dos Cinco Artigos de abril de 1868, redigido pelo jurista imperial Kido Takayoshi, que propunha como objetivos gerais da nação nipônica:
1. Abertura política. "Criação de várias assembléias com poderes deliberativos nas quais os assuntos seriam decididos através de uma discussão pública".
2. O fim dos privilégios. "Dali em diante todas as classes, alta e baixa, participariam na administração das coisas do Estado".
3. Abolição do sistema social feudal. "Doravante os cidadãos comuns, fossem de origem civil ou militar, seriam livres para seguirem o seu próprio caminho, não sendo mais obrigados a obedecerem às imposições hereditárias".
4. Reforma dos Costumes. "Os modos perversos do passado seriam banidos e tudo seria encarado segundo as leis normais da natureza".
5. Busca do Conhecimento. "Procurar-se-iam adquirir novos saberes pelo mundo afora a fim de esclarecer o povo e fortalecer o poder imperial".
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