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Algumas perguntas a um "homem bom"
Bom, mas para que?
Sim, não és venal, mas o ralo
que sobre a casa sai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas, o que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?
Toma coragem
contra quem?
És cheio de sabedoria
Pra quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?
Escuta pois: nós sabemos
que és nosso inimigo. Por isso vamos
Encostar-te a paredão. Mas em consideração
dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo de terra boa.
Nascimento: 1898
Morte: 1956
Brecht é uma época. Uma época tumultuosa de rebeldia e de protesto. Refletem-se, em suas obras, os problemas fundamentais do mundo atual: a luta pela emancipação social da humanidade. Brecht tem plena consciência do que pretende fazer. Usa o materialismo dialético da maneira mais sábia para a revolução estética que se dispôs a promover na poesia e no teatro.
O teatro épico e didático caracteriza-se, em Brecht, pelo cunho narrativo e descritivo cujo tema é apresentar os acontecimentos sociais em seu processo dialético: Diverte e faz pensar. Não se limita a explicar o mundo, pois se dispõe a modificá-lo. É um teatro que atua, ao mesmo tempo, como ciência e como arte.
A alienação do homem, para Brecht, não se manifesta como produto da intuição artística. Brecht ocupa-se dela de maneira consciente e proposital. Mas não basta compreendê-la e focalizá-la. O essencial não é a alienação em si, mas o esforço histórico para a desalienação do homem.
O papel do autor dramático não se reduz a reproduzir, em sua obra, a sociedade de seu tempo. O principal objetivo, quer pelo conteúdo, quer pela forma, e exercer uma função transformadora, que atue revolucionariamente sobre o 'ambiente social.'
Canção do Remendo e do Casaco
Sempre que a nosso casaco se rasga
Vocês vêm correndo dizer: assim não pode ser
Isso vai acabar, custe a que custar!
Cheios de fé vão aos senhores
Enquanto nós, cheios de frio, aguardamos.
E ao voltar, sempre triunfantes
Nos mostram a que por nós conquistam:
Um pequeno remendo.
Ótimo, eis o remendo
Mas onde está
O nosso casaco?
Sempre que nós gritamos de fome
Vocês vêm correndo dizer: Isso não vai continuar
É preciso ajudá-las, custe a que custar!
E cheias de ardor vão aos senhores
Enquanto nós, com ardor no estômago, esperamos.
E ao voltar, sempre triunfantes
Exibem a grande conquista:
Um pedacinho de pão.
Que bom, este é o pedaço de pão
Mas onde está
O pão?
Não precisamos só do remendo
Precisamos o casaco inteiro.
Não precisamos de pedaços de pão
Precisamos de pão verdadeiro.
Não precisamos só do emprego
Toda a fábrica precisamos.
E mais a carvão
E mais as minas
O povo no poder.
É disso que precisamos.
Que têm vocês
A nos dar?
Elogio do Comunismo
Ele é razoável. Todos o compreendem. Ele é simples.
Você, por certo, não é nenhum explorador. Você pode entende-lo.
Ele é bom para você. Informe-se sobre ele. Os idiotas dizem-no idiota e os porcos dizem-no porco.
Ele é contra a sujeira e contra a estupidez
Os exploradores dizem-no um crime
Mas nós sabemos
Que ele é o fim dos crimes
Ele não é uma loucura e sim
O fim da loucura.
Não é o caos e sim
Uma nova ordem.
Ele é a simplicidade
O difícil de fazer.
Elogio da Aprendizagem Aprende o simples, para quem
É chegada a hora
Nunca é tarde demais!
Aprende o ABC, não basta, mas
Aprende! Não desanime
Começa! Você tem de saber tudo!
Você tem de assumir o poder.
Aprende, homem no asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenário!
Você tem de assumir o poder.
Procura a escola, desabrigado!
Procura o saber, se tens frio!
Faminto, agarra o livro: é sua arma.
Você tem de assumir o poder.
Não tema a pergunta, camarada!
Mo se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que você mesmo não vê
Você não sabe.
Verifique a conta.
Você tem de pagá-la.
Coloque o dedo em cada parcela
E pergunte: como apareceu?
Você tem de assumir o poder.
Elogio do Revolucionário
Alguns são demais.
Se estão longe é melhor
Mas se ele não está, faz falta.
Quando a repressão aumenta
Muitos se acovardam
Nele cresce a coragem.
Ele organiza-lhes a luta
Por mais um tostão, pela água do chá
E pelo poder do Estado.
Ele pergunta ao capital:
De onde você vem?
As idéias indaga:
A quem estão servindo?
Onde sempre se calam
Ali ele falará
Onde a repressão aumenta e por destino
É chamada
Ele a chamará repressão.
Onde se senta à mesa
Aí se senta a insatisfação.
A comida se torna pior
E pequeno o espaço.
Aonde o perseguem, ali
Chega a revolta e de onde o expulsam
Resta sempre a inquietação.
Canção
Eles têm códigos e decretos.
Eles têm prisões e fortalezas.
(Sem contar seus reformatórios!)
Eles têm carcereiros e juizes
Que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que e;es pensam que nós, como eles,
Seremos destruídos?
Seu fim será breve e eles hão de notar
Que nada poderá ajudá-los.
Eles têm jornais e impressoras
Para nos combater e amordaçar.
(Sem contar seus estadistas!)
Eles têm professores e sacerdotes
Que fazem o que mandam por trinta dinheiros.
Sim, e para que?
Será que precisam a verdade temer?
Seu fim será breve e eles hão de notar
Que nada poderá ajudá-los.
Eles têm tanques e canhões,
Granadas e metralhadoras
(Sem contar seus cassetetes!)
Eles têm polícia e soldados,
que por pouco dinheiro estão prontos a tudo.
Sim, e para que?
Terão inimigos tão fortes?
Eles pensam que podem parar,
A sua queda, na queda, impedir.
Um dia, e será para breve
Verão que anda poderá ajudá-los.
E de novo bem alto gritarão: Parem!
Pois nem dinheiro nem canhões
poderão mais salvá-los.
Elogio da Wlassowa
Esta é a nossa camarada Wlassowa, boa lutadora.
Dedicada, astuta e firme.
Firme na luta, astuta contra nossos inimigos e dedicada
Na agitação. Seu trabalho é miúdo
Tenaz e imprescindível.
Onde quer que lute ela não está só.
Como ela lutam tenazes, firmes e astutas
Em Twer, Glasgow, Lyon e Chicago
Shangai e Calcutá
Todas as Wlassowas de todo o mundo, boas formigas
Soldados desconhecidos da revolução
Imprescindíveis.
Elogio da Terceira Coisa
Sempre se ouve, quão depressa
As mães perdem os filhos, mas eu
Preservei o meu. Corno o preservei? Através
Da terceira coisa.
Ele e eu éramos dois, mas a terceira
Coisa comurn, a causa comurn, foi ela
Que nos uniu
Eu mesma ouvi, às vezes,
Conversas entre filhos e pais.
Mas como eram melhores as nossas conversas
Sobre a terceira coisa, que nos era comurn
Grande e comum para tantos homens!
Que perto nos encontrávamos, perto
Dessa coisa: Que bom era para nós, essa
Boa coisa perto!
Ao Camarada Dimitrov, quando lutou diante do Tribunal fascista em Leipzig
Camarada Dimitrov!
Desde o dia em que lutastes diante do tribunal fascista
a voz do comunismo, cercada pelos bandos de matadores e bandidos da SA]
através do ruído dos chicotes e cassetetes,
fala bem alto e nítido
no centro da Alemanha.
Voz que pode ser ouvida em todas as nações da Europa,
que através das fronteiras ouvem o que vem
do escuro, elas mesmas no escuro,
mas também pode ser ouvida
por todos os explorados e espancados e
incorrigíveis lutadores
na Alemanha.
Com avareza utilizas, camarada Dimitrov, cada
minuto
que te é dado, e o pequeno lugar que
ainda é público, utiliza-o
para todos nós.
Mal dominando a língua que não é a tua
sempre advertido aos gritos,
várias vezes arrastado para fora,
enfraquecido com as algemas,
fazes repetidamente as perguntas temidas.
Incriminas os criminosos e
leva-os a gritar e te arrastar e assim
confessar que não têm razão, apenas força.
Embora não tão visíveis
milhares de combatentes, mesmo os
ensangüentados em suas celas
que podem ser abatidos
mas nunca vencidos.
Assim como tu, suspeitos de combater a fome,
acusados de revolta contra os exploradores,
incriminados por lutar contra a opressão,
convictos
da causa mais justa.
George Dimitrov, revolucionário búlgaro e dirigente da Internacional Comunista, foi acusado pelos nazistas de incendiar o parlamento alemão (Reichstag) em janeiro de 1933. Assumindo a própria defesa, Dimitrov desmascarou, no julgamento do processo, a farsa montada pelos nazistas para criminalizar os comunistas e desencadear feroz repressão contra as massas populares na Alemanha. Usando uma lógica precisa e implacável, Dimitrov derrubou um a um os argumentos da acusação, provando a todos sua inocência. Esta é considerada a 1º derrota significativa dos nazistas, prenuncio de sua queda final que viria em 1945.
Algumas perguntas a um "homem bom"
Bom, mas para que?
Sim, não és venal, mas o ralo
que sobre a casa sai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas, o que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?
Toma coragem
contra quem?
És cheio de sabedoria
Pra quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?
Escuta pois: nós sabemos
que és nosso inimigo. Por isso vamos
Encostar-te a paredão. Mas em consideração
dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo de terra boa.
O comboio de serviço
1
Por ordem Expressa do Führer,
o comboio de luxo expressamente feito para o congresso
do Partido em Nuremberg
recebeu o nome simples de COMBOIO DE SERVIÇO.
Os que o tomam prestam com isso um serviço
ao povo alemão.
2
O comboio de serviço
é uma obra-prima da técnica ferroviária. Os passageiros
tem apartamentos privativos. Pelas largas janelas
vêem os camponeses alemães mourejar os campos.
Se por acaso transpirassem nesse momento
poderiam tomar banho
Em cabines cobertas de ladrilhos.
Um sutil sistema de luzes permite-lhes
Ler à noite, de pé, sentados ou deitados, os jornais
Com as grandes reportagens sobre os benefícios do regime
Os vários apartamentos
Comunicam entre si por linhas telefônicas
Tal como as mesas dos grandes dancing's cujos clientes
Podem pedir às mulheres das mesas vizinhas
O preço que cobram.
Sem sair da cama os passageiros também podem
Ligar o rádio, que transmite as grandes reportagens
Sobre os erros do regime. Jantam,
Se assim o desejarem, no respectivo apartamento, e fazem as
respectivas necessidades
Em privadas revestidas de mármore.
Cagam
na Alemanha.
Unicamente por causa de desordem crescente
Unicamente por causa da desordem crescente
Nas nossas cidades com suas lutas de classes
Alguns de nós nestes anos decidimos
Não mais falar nos grandes portos, da neve nos telhados,
das muralhas,
Do perfume das maçãs maduras na despensa, nas impressões da carne,
De tudo o que faz o homem redondo e humano, mas
Falar só da desordem
E portanto ser parciais, secos, enfronhados nos negócios
Da política, e no rádio e "indigno" vocabulário
De economia dialética,
Para que esta terrível pesada promiscuidade
Das quedas na neve (elas não são só frias, nos bem o sabemos),
Da exploração, da tentação da carne e da justiça de classes,
Não nos leve a aceitação deste mundo tão diverso
Nem ao prazer das contradições de uma vida tão sangrenta.
Vocês entendem.
Da violência
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.
Monólogo de uma atriz enquanto se maquila Vou fazer o papel de uma bêbada
que vende os filhos
em Paris, nos tempos da Comuna.
Tenho apenas cinco réplicas.
E preciso de me deslocar, de subir a rua.
Caminharei como gente livre,
gente que só o álcool
quis libertar e voltar-me-ei
para o público.
Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos
que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis
outros possíveis caracteres. Pronunciarei cada réplica
com a melhor acusação
contra mim e contra todos os que me olham.
Se eu não refletisse, maquilar-me-ia simplesmente
como uma velha beberrona
doente e decadente. Mas vou entrar em cena
como uma bela mulher que guarda a marca da distribuição
na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas
outrora atraente e agora repelida
pra que ao vê-la cada um se interrogue: quem
fez isto?
Quem é teu inimigo? O que tem fome e te rouba
o último pedaço de pão chama-o teu inimigo.
Mas não saltas ao pescoço
de teu ladrão que nunca teve fome.
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