Fundado em 16 de abril de 1932

...Ano I Nº 12 - 12 a 20 de abril de 2006

Poemas de Carlos Marighella*

Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome"

São Paulo, Presídio Especial, 1939


O país de uma nota só

Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...


Rondó da Liberdade

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.


Confraternização

Braços caídos
Não mais as mãos nervosas das tecelãs
tocando os
teares,
pondo emendas no fio
não mais o matraquear dos teares
batendo
num barulho monótono, ensurdecedor
Apenas braços caídos,
As operárias pensando nos filhos
com fome
Depois vieram os soldados,
Fuzis embalados,
Defender a propriedade do dono da
fábrica
Mas também tinham filhos,
Mães, noivas, irmãs
A fome era a mesma nos seus lares
também
E as tecelãs os saudarm chamando-os de irmãos
Agora na fábrica há braços erguidos
Aclamando
E há mãos se apertando


VOZES DA MOCIDADE ACADÊMICA

(Recordação Do XXII de Agosto)
(Paródia a "Vozes da África" de Castro Alves)

Juraci! Onde estás que não respondes?!
Em que escuso recanto tu te escondes,
Quando zombam de ti?!
Há duas noites te mandei meu brado,
Que embalde desde então corre alarmado...
Onde estás, Juraci?

Qual Zigomar, tu me encerraste um dia
Nas celas vis da infinda galeria,
Provisório galé!...
Por tóxico - me deste uma água escassa!
E imenso bolachão - foi a argamassa...
Que ligaste ao café...

O costado robusto de assassino
Sob a vergasta larga o pêlo fino
Feito chaga afinal.
Meu dorso se ensanguenta, a dor poreja
Quando eu deitado por acaso esteja
No grabato infernal.

Meus colegas têm sorte, são ditosos...
Dorme o C.P.O.R. em volutuosos
Leitos no Aclamação,
Ou em redes de couros de elefantes
Embalam-se os rapazes, bons instantes,
Num enorme salão.

Por tenda - têm os tetos do Palácio...
Não comem bóia nem pirão sebáceo
Com gosto de aguarrás
O fumo do cigarro do céu inflama...
E organizam a noite sobre a cama
Pagodes colossais.

A Legião é sempre a gloriosa!...
A unidade maldita e caprichosa,

Sabuja e cortesã.
Vagabunda - não tem pudor na cara,
Pusilânime - à noite se prepara
para fuga amanhã!...

Sempre a láurea lhe cabe no pagode...
Ora uma pinga, ora um xinxim de bode
Faz-lhe a pança feliz.
Seu protetor - estúpido tunante
Segue cativo passo delirante
Da grande meretriz.

Mas eu, tentente!... Eu, triste, abandonado,
À classe dos detentos nivelado,
Perdido clamo em vão!...
Se protesto... a cadeia é iminente!...
Talvez, pra que o protesto, ó vil tenente!
Não se mude em vulcão.

E nem mesmo um colchão tenho de festa!...
Para cobrir-me nem um pano resta
No quarto aterrador...
Quando pressinto o ressoar do apito,
Embalde a Fachinetti em prantos grito:
"Liberta-me, senhor!..."

Como o detento a quem o gorro cobre,
Levo à cabeça o mesmo gorro pobre
Do assassino feroz...
Assim que à galeria sou levado,
Dizem os presos: - "Ei-lo engaiolado
Tal e qual como nós..."

Nem vêem que o xadrez é meu sudário.
Que o horror vai lavrando solitário
Por sobre o peito meu.
Do antigo pavilhão na cela escura,
Muito rapaz "chinchado" se esconjura
Do dia em que nasceu.

Do teto e das paredes derrocadas
As aranhas espiam debruçadas
O cárcere sem fim...
Onde aparece a caravana errante,
Amordaçada pelo torpe guante
De um tenente ruim...

................................................

Não basta inda de dor, homem terrível?
É, pois, teu peito inchado inexaurível
De vingança e rancor?
E que fiz eu, senhor? que torvo crime
Eu cometi, jamais, que assim me oprime
Teu gládio vingador?...

................................................

Foi depois dos discursos... Um "secreta",
Símbolo ideal da insensatez concreta
Feriu um popular...
E eu gritei ao sicário desalmado:
- "Vou furar-te, ladrão, de lado a lado..."
E me pus a atirar...

Desde esse dia de ódio e de desgraça,
A bolachão a estudantada passa
Na reclusão cruel...
Os sambas troam pela noite a fora,
E a faxina começa de hora em hora
Pra varrer o papel.

Vi a turma render-se após as sete...
Vi meu povo seguir de "marinetti"
Caminho da prisão...
Depois vi minha gente desgraçada,
Por membros da milícia aprisionada...
Imundo Gavião!...

Bahia!... em vão exiges liberdade!
Teu sangue não lavou desta cidade
A mancha original.
Ainda hoje são por sorte vária
Burro - HANNEQUIM, FACÓ - uma alimária...
JURACI - um boçal.

Hoje em teu sangue um salteador se nutre,
Com dor de não poder ser mais que abutre,
Ave da escravidão...
Ele juntou-se os outros fementido,
E vive assim todo o país traído,
Longe da salvação.

Basta, senhor tenente! De teu bucho
Jorre através das tripas um repuxo
De judas e sandeus!
Há duas noites... eu soluço um grito...
Escuta-o conclamando do infinito
À morte os crimes teus!

Penitenciária da Bahia, 22 de agosto de 1932.


MURALHA

Muralha é você, União Soviética!
Muralha de aço e de peitos humanos,
não muralha parada, plantada na terra,
mas muralha vibrante, se movendo incansável.
Muralha que um dia o nazismo atacou
e que foi recuando sem quebrar um pedaço,
até que pôde voltar-se sobre si mesma, rugindo
e rodando
sobre milhares de esteiras de tanques,
triturando, esmagando o invasor alemão.

Foi com essa muralha resistindo três anos
que as grandes nações do Ocidente criaram
seu enorme poder,
e feriram a ilharga do monstro hitlerista.

Hoje que o mundo respira mais livre,
eu peço licença pra dizer simplesmente:
- Você, sim, que é a muralha, União Soviética!

Colônia dos 2 Rios, Ilha Grande, 1944


A PRESTES
(No dia do seu aniversário)

Ó Cavaleiro heróico da Esperança
filho exemplar do povo brasileiro,
teu vulto imenso mais e mais avança,
guia e ilumina o continente inteiro.

A glória do teu nome o mundo alcança,
audaz libertador. És o primeiro
que ao nosso povo inspira confiança,
admiração, afeto verdadeiro.

A voz não diz, tampouco a pena exprime
a tua dor num cárcere, sem crime,
longe do amor caríssimo da filha.

Mas teu martírio uma verdade encerra:
no coração do povo desta terra
somente o nome teu fulgura e brilha.

Colônia dos 2 Rios, Ilha Grande, 3-1-1945.


O URUBU

Pairando pelo espaço onde quer que pressinta
carniça, podridão, matéria decomposta
essa ave original de cor preta retinta
o cheiro da imundice alegremente arrosta.

Vem descendo depois. Jà não é uma pinta
escura na amplidão do firmamento exposta.
Vem descendo inda mais, cada vez mais distinta,
até que no terreno o corpo feio encosta.

Desde então principia a ceia horripilante
e belisca a esterqueira e grunhe a cada instante,
sacudindo-se toda, inquieta e assustadiça

Assim como o urubu há no alto muita gente
poderosa a fartar que, entanto, moralmente
só consegue viver à custa de carniça

São Paulo, Presídio Especial, 1939.


* Marighella foi dirigente do PCB e, tendo rompido com este partido, fundou a ALN em 1968.Na noite de 4 de novembro, Carlos foi assassinado pela pol í cia pol í tica, numa emboscada na Alameda Casa Branca, em S ã o Paulo, a um m ê s de completar 58 anos.

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