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Uma última visita
Leilane Castro Eu não conhecia nada mais deprimente do que ficar sozinho em casa, na época
de natal. Longe dos amigos, longe da família. Desde o acidente ninguém mais
aparecera, ninguém mais dera as caras. Nem mesmo uma árvore a piscar havia.
A casa que eu amava estava largada, empoeirada, descuidada, só me causava
tristeza. Minha filha, depois que se casou, pouco me visitara. Não gostava,
sentia frio. Dizia que já sofrera o bastante, passando aqui os anos de sua
infância. Ninguém mais tinha interesse pela casa, apenas eu.
Como que só para me desmentir, a porta subitamente se abriu. Foi algo tão
inesperado que fiquei estático por alguns segundos, mas logo reconheci o
intruso. Era Pedro, o marido de minha filha. Onde ela estaria? Ele entrou,
acendeu as luzes e, displicente, largou uma mala em cima do sofá.
Com o
impacto, rapidamente formou-se uma nuvem de poeira, flocos flutuantes
brilhando em várias cores. Pedro tossiu e começou a ofegar. Ávido, procurou
no bolso da calça a bombinha e levou-a à boca, aspirando várias vezes.
Pudera, uma casa abandonada não é exatamente um lugar apropriado para um
asmático. Mas então... O que ele estaria fazendo aqui?
Só podia ser! Tinha vindo atrás do dinheiro! Mas como descobrira?
Eu nunca
comentara sobre o cofre! Bem, se ele sabia que havia um cofre na casa, pelo
menos não sabia onde fora instalado. Assim que melhorou, Pedro dirigiu-se a
um lugar improvável, o quarto da bagunça - quase que um depósito.
Fui atrás dele sorrindo, vitorioso. Se Pedro achava que seria fácil botar
as mãos no meu dinheiro, estava completamente enganado. E por que a minha
filha não tinha vindo junto? Não podia ser assim! E se ele escondesse uma
parte, ou até mesmo tudo, e depois dissesse que nada havia? Não, não,
aquilo não estava certo!
Depois de procurar durante algum tempo em um dos armários, Pedro soltou um
suspiro aliviado. Tinha achado uma boneca. A boneca de pano que minha filha
mais gostava, aquela que não largava quando criança. Estava velha, é
evidente, mas ainda bem conservada. Minha filha fora sempre uma menina
cuidadosa. Natural, puxara ao pai.
Eufórico, Pedro foi até a sala e tirou da mala um computador.
Colocou-o em
cima da mesa, conectou alguns fios à parede e depois ligou a máquina.
Eu
sabia o que ele queria fazer. Nos últimos anos, usara a internet todos os
finais de semana para ver e falar com minha filha. Ela não me visitava, era
o melhor que eu podia arrumar.
Sentia-me envergonhado. Duvidara de Pedro sem razão e não podia sequer
pedir desculpas. Após o ruído característico, Pedro conseguiu a conexão e
logo minha filha apareceu na tela, sua voz de menina a ecoar pela sala.
Uma
onda de pura felicidade transpassou-me, arrebatadora. Eu chegara mesmo a
pensar que jamais a veria de novo! Ela estava um pouco mais gorda, rosada,
os cabelos presos num rabo de cavalo. Também achei a imagem maior e mais
definida do que a que eu estava acostumado. Seria apenas uma falsa
impressão?
Depois de falar sobre horários, viagens e saudades, Pedro mostrou a boneca.
Minha filha sorriu, docemente. Como quando ganhava um presente.
Então sumiu
da tela, para logo depois voltar. Desta vez carregava um bebê. Por um
segundo a emoção me dominou. No instante seguinte, gritei como jamais havia
gritado, surpreso, atônito, apavorado. Pobre de Pedro, se pudesse me ouvir:
o susto o teria matado.
Um espírito brilhante entrara pela janela e vinha flutuando devagar em
minha direção, envolto por uma luz difusa. Usava um hábito de monge, mas
ainda assim inspirava medo. Não era para menos, desde que eu morrera jamais
vira outro espírito! Ninguém aparecera para me receber, ninguém viera me
buscar. E em breve faria um ano! O espírito se aproximou e estremeci quando
pude olhar nos seus olhos. Cheguei mesmo a pensar em fugir, mas ele baixou
a cabeça num cumprimento, o que muito me acalmou. Depois olhou para a tela,
curioso.
- É a minha filha - expliquei, aliviado.
- Encantadora - devolveu, sereno.
- E a criança que ela está carregando é, provavelmente, minha primeira neta
- orgulhei-me.
- Exatamente por isto estou aqui.
- Como assim?
- Agora que você já viu sua neta, chegou a hora de partirmos.
Partirmos? Mas para onde? O que ele queria dizer com isto? E quem era ele,
afinal?
- Você é um anjo? - perguntei de repente, emocionado. O espírito abriu um largo e doce sorriso. Seus dentes eram perfeitos, seus
olhos negros brilhavam.
- Podemos dizer que sim - respondeu, misterioso.
- E vou ter que deixar minha casa?
- Não é mais sua casa, foi vendida. Mas não fique triste, você teve e terá
muitas outras.
Vendida? A minha casa? Vendida para quem? Pensei em perguntar, mas senti
que já não era tão importante. Eu tinha dúvidas mais urgentes.
- Vamos sair flutuando?
- Claro! Você não gostaria de planar pelas ruas? Vistas do astral, as luzes
de natal são ainda mais bonitas. Sorri para ele, pela primeira vez. Quem não gostaria, depois de quase um
ano trancado em casa? Mesmo assim, continuava inseguro.
- Você ficará comigo?
- O quanto for preciso - tranqüilizou-me. Então um pensamento me assaltou, violento. Cheguei a tremer de excitação,
ante a simples possibilidade.
- Quão longe poderei ir?
- Mais do que consegue agora imaginar.
- E estamos com pressa? Por um longo instante achei que o anjo fosse dizer que sim, que não haveria
tempo, que eu já me atrasara demais. Mas sua expressão desanuviou-se e ele
tornou a sorrir, cúmplice, complacente.
- Não, não estamos com nenhuma pressa.
Virei-me então para a tela do computador e disse, como se ela pudesse me
ouvir:
- Espere por mim, filha. Já estou chegando.
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