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Angelo Pessanha
Em 1939, isto é, no final dos anos 30 do século passado, nasceu em Macaé JOSÉ MILBS, amante de sua cidade e de sua região.
Na primeira década do século XXI, vivendo agora numa Macaé transformada, transtornada, desde os anos 80 do século XX cada vez mais uma sociedade de passagem, de trânsito, mista, plural, quase sem sua identidade original, este ser humano apaixonado pela sua terra propõe-nos resgatar esta Macaé da 1a metade e de meados do século passado. Não tão antiga como a Macaé do século XIX, mas já distante no tempo, já tendo se tornado história.
Ele, também um personagem histórico desta Macaé de passado recente quase desconhecida e esquecida, através de uma escrita elegante, direta e poética, quer resgatar, relembrar, registrar vidas, fatos, acontecimentos, personagens, figuras ilustres, personagens pitorescos, personalidades, lugares, locais, ambientes, para não serem esquecidos, para não virarem cacos e escombros da história.
Podemos afirmar que JOSÉ MILBS tomou para si o compromisso de fazer a história da vida cotidiana da Macaé anterior ao petróleo, aquela dos anos 1920 - 1940 - 1950, 1950 - 1960 - 1980. Uma Macaé ainda tão perto de nós, mas já distanciando, tão longe que está da vida atual da cidade.
E por que faz esse resgate? Para que o regional não se perca no global atual, para que raízes e identidades, referentes e referências sejam preservados.
Assim insta-nos, a nós que guardamos relações com esta Macaé que virou história, para as gerações ultra-recentes ou atuais, e mesmo para aqueles que chegaram a muito pouco nesta terra que os acolheu, na sua faina petroleira de uma sociedade de trânsito, a tomar posição numa política de não-esquecimento e num compromisso de não perder a memória e a história.
É enquanto jornalista regional e local, amante das letras e da boa escrita, leitor atento da sua realidade e da sua cidade, que JOSÉ MILBS desenvolve seu projeto de contar e resgatar Macaé, a partir de sua memória pessoal e de sua vida familiar. O específico, o local, o efêmero, o fugaz, o personagem que dava vida à cidade, o familiar, o coloquial, o fato, o evento, a cor, o cheiro e o sabor local e especial, tudo isto ele quer fazer registro, para não perder, para não ter a corrosão do tempo e a destruição da perca de memória.
História regional, história com sabor local, recriada com a textura de um jornal. Na prosa elegante e saborosa de JOSÉ MILBS, temos o desfile do que se conta, e do que se vê nas tramas da lembrança e nos fios da imaginação.
Mas este aspecto, por si só importante, é a superfície de seu projeto. Porque é como memorialista e cronista de seu lugar e da época por ele vivida, que José Milbs atua e recria informal, pessoal, com gosto, gozo e alma, mas verdadeiro na trama das lembranças e dos informes. Quem trabalha com lembranças, mantém a nostalgia e a saudade.
Esta é uma obra de memória e história. O tempo aqui não é cronológico; é o tempo da memória onde os eventos e fatos vão se concatenando ordenados pelo resgate da memória. Sua escrita é de contador de estórias, de narrador da memória, espanando a poeira e o esquecimento de eventos, casos vividos e personagens, e recriando-os vivos, coloridos, de carne e osso, no interior de suas vidas cotidianas, constituindo um memorial da história de Macaé. O que se conta a lembrança, a memória, o documento transformam-se em monumentos, em significações vivas ancoradas na história da vida privada e dos cotidianos macaenses.
Sem resgate de memória não há história. O livro de José Milbs não é, nem precisa ser uma reconstrução de um historiador profissional. É a obra de alguém que narra a sua vida e a vida de seu tempo inserida na história de seu lugar. Como tal, torna-se um documento fundamental para o historiador profissional, ao recriar a vida, a atmosfera, os personagens, o cotidiano, as informações. Além do mais, refaz como era a antiga região macaense, dos tempos em que Conceição de Macabú, Quissamã, Carapebus, Capelinha e outras localidades ainda não tinham sido separadas administrativamente do município do Macaé.
Para escrever uma obra assim é preciso estar vivo e ter vivido; faz-se necessário conversar com as pessoas que tiveram lugar nessa história cotidiana, é fundamental registrar-lhes a memória e a história.
Um complemento desejável desta obra é a fotografia, de personagens, de modos de vida, de momentos e de lugares, de pessoas centrais, do modo como os espaços da cidade e da região se constituíam, e de como o curso das vidas transcorria. A uma leitura criativa do que a memória narra, devemos acrescer uma leitura criativa do que as imagens mostram, contam, reavivam.
Mas é também enquanto cronista de sua cidade e de seu tempo que José Milbs atua tudo a partir do visto, do falado e do vivido. Não é o historiador, mas o cronista histórico de sua cidade que marca a recriação feita na obra de MILBS.
E isto tem um valor inestimável. Porque sem o cronista, que registra os tons locais, a vida cotidiana, o efêmero, o fugaz, o local, o individual, o regional - informando sem deformar, o trabalho do historiador profissional não é possível. José Milbs; enquanto cronista histórico de sua cidade, e como narrador de sua inserção no mundo e na história, a partir de sua experiência histórica de vida concreta, articula o tempo e a memória de Macaé, e fornece a matéria-prima para a história a ser escrita por profissionais do ofício.
Enquanto tal, cronista de seu tempo e de seu lugar, MILBS une-se agora a Antônio Alvarez Parada e Jorge Picanço Siqueira e entre outros, que têm se preocupado em registrar e documentar a vida e a história cotidiana de Macaé, ao modo de artesãos-cronistas da história local e regional.
Resta agradecer a JOSÉ MILBS o convite para apresentar sua obra, e pela confiança em depositar em minhas mãos os originais de sua criação. Espero ter dignificado este amigo com uma apresentação que enfatiza o valor de seu projeto e de seu trabalho, e que o destaca como fazedor / artesão da matéria-prima da história, no caso da história de Macaé que está ainda por ser escrita.
Macaé, julho de 2002.
Prof. Ângelo Mário do Prado Pessanha - Diretor da Fafima, historiador, Doutor em Educação.
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