JOGA A REDE NO MAR... DEIXE A ONDA BATER...
Jose Milbs
Eles habitavam em toda região do litoral do Estado do Rio de Janeiro. Corpos morenados pelo sol sem os protetores e nenhum deles com doenças de pele. Suas redes, tecidas a mão, por suas companheiras e filhas tinham o sabor da arte e do bom gosto. Sempre alegres e de olhos acessos e avermelhados, estes "senhores dos mares" eram figuras presente em toda historia nas cidades que habitavam.
Cabo Frio, Búzios, São Pedro de Aldeia, Rio das Ostras, Barra do Rio São João, Macaé, Farol de São Tomé, Ata fona, São João da Barra eram locais que seus barcos, com pequenos motores e bastante experiência de mar, os levavam nas noites enluaradas e de manhas amenas. Enchovas, Gordinhos, Galos, Marimbas, Serras, Espadas, Pescadas, Pescadinhas e siris do mar, era sempre o produto de suas noites onde as gaitas, o velho rádio de pilha e um violão com 4 cordas, deixavam em aberto o coração de volta e mais volta aos lares...
As beiradas das praias estavam sempre cheias de muita gente. As chegadas dos barcos, passando pelas ondas bravias, eram saudados por centenas de mãos e acenos. Mulheres e filhos se juntavam a outros na expectativa de ver o produto de mais uma noite de pesca.
Os pescadores tinham saído de suas simples e aconchegantes residências em plena madrugada. Antes tinham olhado o céu, reparado de onde vinha o vento e, antes mesmo de apagar as luzes dos candelabros de seus quintais, já estavam assoviando cânticos e cordiais acenos aos visinhos que se juntarão a outros e partiriam para o alto mar...
A pesca tinha a essência do belo artesanal. As vendas eram feitas ali mesmo nas praias e o que não era vendido, era colocada numa cesta, coberta com galhos de matos, tirados ali mesmo na restinga e levados nas bicicletas pelas ruas da cidade. Os anos arquejaram estes "senhores do mar". Suas redes apodreceram nos estendidos nos quintais em enferrujados arames. Os barcos, virados de "bunda para cima" estão totalmente danificados pelo tempo. A herança do mar que estes homens, hoje de olhos caídos e "encostados no Inss", nem de longe lembram aqueles corpos sarados e olhares brilhantes dos anos de sua juventude...
A herança do manejo dos segredos do mar, de suas artimanhas e ventos, herdados de seus pais e avós não podem ser passadas para seus filhos e netos. Apenas a história de casos ocorridos em suas longas noites pode chegar aos ouvidos dos pequenos netos e filhos.
Os braços, estendidos deixando a mostra a pele enrugada e a tez flácida, apontam para ilhas e pedras no mar. Lá eles comentam dos grandes barcos que habitam os mares. São barcos de bandeira estrangeiras ou de falsa bandeira nacional. Dentro deles, contam a seus filhos que os olham admirados: "tem um vidro que vê onde esta o cardume. Eles apertam um botão e sai uma rede de fios finos que pegam todos os peixes. Filhotes, mães com ova na barriga, tudo eles levam para longe". Acabaram com tudo, diz e seus olhos deixam cair uma lagrima que se junta as dos meninos...
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