Gustavo João Morais

4. “I know not what tomorrow will bring”

Foi com esta frase “I know not what tomorrow will bring” que, em 1935, Fernando Pessoa "abriu" o caminho da sua mensagem expressa na sua obra literária, ao longo da sua curta vida de 47 anos. O "amanhã" é tão infinitamente grande quanto universal, apocalíptico e escatológico, como muito bem ele profetizou na sua visão telescópica.

Celebrar o tomorrow de Fernando Pessoa hoje, quase 120 anos depois, em Lisboa de Pessoa é celebrar todos os dias uma língua que se potenciou à universalidade (Europa, Ásia, América, África). No momento em que se convergirem as culturas dos cinco Continentes e Oceanos, quer seja em Portugal, quer seja no Brasil ou mesmo em qualquer outra parte do mundo, nunca, mas mesmo nunca, poderá faltar um espaço e um marco, de quem edificou a Língua Portuguesa e, consequentemente, difundiu a sua essência antropológica. Na qualidade de quem ama Pessoa como quem ama a vida, sinto ser meu dever em nome dos que amam o Poeta e em nome dos que amam a cultura universal, nesta especial oportunidade que me foi dada, dar o meu contributo para que melhor se possa chegar à sua compreensão. Aproveito para agradecer a todos os que me facilitaram sonhar acordado e o poder dialogar com o maior revolucionário da literatura portuguesa de todos os tempos.

Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888, às 13 horas e 20 minutos, no Largo de S. Carlos, n: 4, 4.º-Esq., em Lisboa, filho de Nogueira Pessoa, natural de Lisboa, 38 anos de idade, e de Maria Magdalena Pinheiro Nogueira, de 26 anos de idade, natural da Ilha Terceira, Açores.

Foi nestas circunstâncias que Fernando Pessoa recebeu o baptismo na igreja dos Mártires e foi criado no meio da cultura de crentes. Seu pai, funcionário público do Ministério da Justiça, era crítico musical, e quando morreu, deixou Fernando Pessoa com apenas 5 anos de idade. Aos 6 anos de idade morre-lhe o irmão Jorge, altura em que cria o seu primeiro heterónimo, o Chevalier de Pas. Com apenas 7 anos de idade escreve a sua primeira poesia, uma quadra dedicada à mãe: "A minha Querida Mamã”. Nesta altura, parte com a mãe para a casa do padrasto, o Sr. Comandante João Miguel Rosa (Cônsul de Portugal em Durban), África do Sul. Inicia os seus primeiros estudos na escola primária de freiras irlandesas; foi nesta altura que fez a sua primeira comunhão. Em 1901, com 13 anos de idade, escreve a sua primeira poesia em inglês, ano em que regressa a Portugal, navegando os oceanos para acompanhar o corpo da irmã Magdalena Henriqueta, falecida em Durban.

Fernando Pessoa com 20 anos Os irmãos de Fernando (Madalena, Luís e João)

Em 1902, vai aos Açores (Ilha Terceira) com a mãe, para estar com a família da parte materna, depois do que regressa a Durban para frequentar a Commercial School. Faz o Intermediate Examination in Arts, na Universidade do Cabo, com distinção. Aos 17 anos parte para Lisboa definitivamente e passa a viver com a tia-avó, Maria Cunha. Em 1906, matricula-se no Curso Superior de Letras de Lisboa e passa a viver com a mãe e o padrasto, agora residentes na Calçada da Estrela, n.º 100, (Lisboa). Após a morte da avó Dionísia, deixa Lisboa e vai viver sozinho para Portalegre, depois do que volta a Lisboa para montar uma Tipografia, na Rua da Conceição da Glória, n.º 38 e 49, a empresa, de nome IBIS – Tipografia e Editora.

Desiste da Tipografia e dedica-se à poesia. Fernando Pessoa recusa empregos de cumprir horários para se dedicar à vida de escritor. Para isso, passa a viver sozinho no Largo do Carmo, n.º 18, 1.º, Lisboa. Talentoso tradutor que era, apenas com 22 anos de idade, escreve poesia em português, inglês e francês, salientando-se no meio cultural português como fecundo criador da obra literária poética e não poemática. A sua produção literária foi crescendo a todos os níveis e ao longo de toda a sua vida, chegando a reunir 306 poemas, dos quais 96 foram publicados em livros da sua autoria: 35 Sonnets, Antinous, English Poems I, English Poems II e Mensagem. Publicou 205 poemas em periódicos, nomeadamente Presença Contemporânea, Centauro, Revolução, Portugal Futurista, O Notícias Ilustrado, Athena e Orpheu. Em livros, da autoria de heterónimos que criou, aproximadamente 70, publicou obras poemáticas, assinando Álvaro de Campos (87 poemas), Ricardo Reis (28 poemas), Alberto Caeiro (41 poemas). Fernando Pessoa alcançou, muito cedo, grande versatilidade, a ponto de produzir mais de 132 escritos não poemáticos: Manifestos, Ensaios Filosóficos e Prefaciais, Críticas Literárias e de Arte, Textos sócio – psicológicos e pedagógicos, ensaios políticos, prosa de ficção, textos de estudo, biográficos e entrevistas. Fernando Pessoa revelou-se criativo e crítico ao identificar-se com os heterónimos como quem se via ao espelho real. Ele sabia separar o visível do invisível, o real do virtual, razão porque considerava a fotografia uma pseudo presença e indicação de uma ausência contemporânea.

Parte da Biblioteca e a “Arca” dos manuscritos Fernando com 30 anos

Diz que Fernando Pessoa detestava ser fotografado, por isso, afastava-se da objectiva fotográfica, afastava-se dos cães e de lugares desconhecidos. Esta sublime personalidade da cultura universal, assim convicta, representará para sempre, para todos e para mim uma descoberta e referência de pensamento e criação. É que para todos nós, e para mim também, há sempre algo para além do "I know not what tomorrow will bring".

Fernando no Café Martinho da Arcada Lacre brasonado de Pessoa

Estátua de Fernando Pessoa, no Chiado, da Autoria do escultor Lagoa Henriques
Reconhecimento Internacional na data do centenário do nascimento

Fernando Pessoa é conhecido no mundo inteiro ao lado de um Shakespeare, Baudelaire ou Cervantes. Génio revolucionário da língua portuguesa, deixa-nos uma vastíssima Obra para além de um legado que ainda está por descobrir. É reconhecido internacionalmente em Junho de 1988 (1) pela UNESCO, justamente na data do centenário do seu nascimento. Em 2002, Fernando Pessoa é universalmente consagrado ao figurar na Plêiade. Pode dizer-se que das múltiplas consagrações que Pessoa teve a nível internacional, esta inclusão das suas Obras Poéticas na «Bibliothèque de la Plêiade» é, sem qualquer dúvida, a mais importante. Figurando agora a sua poesia a par das maiores obras do património literário francês e universal, como é o caso da famosa colecção da Gallimard. Nada lhe falta já, e poderemos dizer com natural à vontade, e para que se quebrem todas as eventuais resistências que possam ainda haver, que a Obra do Génio, está hoje reconhecida como uma das mais significativas dentro da tradição literária ocidental e não só.

Roland Barthes se fosse vivo, teria tido a oportunidade de estudar a Obra do Mestre, na sua língua mãe.

Monumento funerário nos Jerónimos da autoria do escultor Lagoa Henriques

C:\Documents and Settings\Administrator\My Documents\My Pictures\Fernando Pessoa\ccaeiro[1].gif“...nem todo o homem é poeta e só a Poesia tem esse dom de exercitar-se na virtude de chegar ao mundo sempre pela primeira vez a cada instante!...”.

Almada Negreiros, in
“Ver”

“...em primeiro lugar estão precisamente os poetas, esses que têm o dom de descobrir os próprios fundamentos da vida...”

Almada Negreiros, in
“Elogio da Ingenuidade”

“A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser génio.” (2)

“Os psiquiatras sabem (às vezes) como trabalha o espírito doente, mas não como trabalha o espírito são” (3)

C:\Documents and Settings\Administrator\My Documents\My Pictures\Fernando Pessoa\Imagem.jpg


1 “Fernando Pessoa, Imagens de uma Vida” de Manuela Nogueira, Editora Assírio & Alvim, pág. 119 (Voltar)

2 “Fernando Pessoa Aforismos e Afins”, edição e prefácio de Richard Zenith, tradução de Manuela Rocha, Editora Assírio & Alvim, pág. 16

3 Idem, pág. 18

 
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