2.4 Considerações Lusófonas ou do Quinto Império à Lusofonia
Mas é a hora de quê? É o próprio Fernando Pessoa que mais uma vez o diz: a hora de se fazer cumprir Portugal. O resto é poesia.
Não me cabe aqui e agora outra coisa, senão o esclarecimento da confusão, muitas vezes estabelecida, entre Língua Periférica e País Periférico. Da periferia de Portugal, como país e também como entidade, diria que ninguém tem duvidas. Também ninguém duvida que essa periferia, geográfica em relação ao euro centralismo, tem sido uma das razões (mas não só) da dificuldade em atingir a carruagem da frente, deste enorme comboio que é a Europa da Cidadania. Pertencemos geograficamente a uma zona onde ainda não chegaram as máquinas a vapor de um Campos. Todavia somos, mas largamente, mais de 200 milhões de almas a falar a Língua Portuguesa, pelos quatro cantos do globo. Como eu digo, “vão-se os anéis ficam os dedos”. Perdeu-se o império físico mas ficou o império da língua e da cultura.
Não se pode portanto dizer, à semelhança do que fez Paulo Leminski, que o idioma de Fernando Pessoa continua sendo o túmulo do pensamento, nem tão pouco dizer, usando de uma fina mas descabida ironia, que, em termos planetários, escrever em português e ficar calado é mais ou menos a mesma coisa.
Não se pode pois dizer que a Língua Portuguesa é um desterro, um exílio, um “confinamento”, mesmo que Erza Pound, Erasmo, ou Barthes tenham tido que aprender a Língua Portuguesa, para que pudessem ler Camões, Gil Vicente ou Fernando Pessoa. Muito menos dizer que isto nada muda. (1)
Não se pode dizer, tal como o fez Paulo Leminski (2) que, “Esta língua não é minha/ qualquer um percebe… (…)” (3)
Fernando Pessoa, esse génio sem par, que fez da Língua Portuguesa a sua Pátria, rompeu fronteiras, de Oriente a Ocidente. O Quinto Império foi, na minha óptica, a sua antevisão do Mundo da Lusofonia. Ele é a substância da alma de todos os Países que têm o Português como língua oficial.
Recordo aqui as palavras escritas em tempos por Eliane Zagury. (4) «É comum que algumas pessoas afirmem, para se queixarem do fardo de serem usuárias da língua portuguesa, que: filosofar, só se pode mesmo em alemão; cantar de verdade, só em italiano; fazer ciência hoje, só é possível em inglês etc. etc. E a língua portuguesa vira bode expiatório da situação económica e cultural periférica dos países que a têm como instrumento de expressão. Da mesma forma, quantos de nós, ávidos intelectuais, nos temos perguntado com angústia: afinal, a língua expressa o pensamento ou o aprisiona no formato que lhe permite? Tentando ver a questão com um pouco mais de humildade, podemos afirmar que esta é uma falsa questão, sem solução. O facto é que as duas assertivas estão correctas e muito poucas vezes são mutuamente excludentes». E continua: «É preciso que o grau de originalidade de um pensamento seja altíssimo, para que só possa ser expresso violentando a língua. E é verdade, também, que somos ensinados a pensar de acordo com ela, pois, com o seu domínio, desenvolve-se a capacidade de raciocínio verbal, um dos grandes mecanismos do pensamento». E continua ainda: «Isto me vem à cabeça a propósito do ensino da língua portuguesa e de suas literaturas. Em trabalho anterior aqui publicado, chamava a atenção para a importância do conhecimento da expressão poética em língua portuguesa, como forma do exercício da liberdade de pensamento. A expressão poética como violentadora das sequências usuais da lógica discursiva, oferece novos instrumentos de observação e dissecação do imaginário, a partir da realidade».
Este bocadinho do discurso de Eliane chega para perceber que falar português não é estar calado, antes pelo contrário, é hoje a expressão formal do exercício da liberdade de pensamento. Não há pois, que confundir Língua Periférica com País Periférico. Não é a Língua que está na periferia do sistema, é o Pais com todos os problemas de origem política, social, económica e porque não, até cultural.
Recordo com prazer o que disse, faz já tempo é certo, mas vale a pena recordar, Mari Alkatiri, primeiro-ministro do mais recente pais do Mundo Lusófono, Timor Lorosae, o oitavo país de língua oficial portuguesa. “Neste mundo global deve haver um esforço em definir novas fronteiras globais, fronteiras da língua e da cultura. Como meia ilha que é, Timor-Leste ganha com a língua portuguesa essa fronteira global e ampla, que atravessa oceanos e une continentes. Com a língua portuguesa deixamos de nos sentir apenas como esta ilha para nos sentirmos parte deste mundo global.”
Fontenla, linguista e grande estudioso da língua portuguesa afirma que: “A língua é, para além do veículo da expressão de ideias, sentimentos nobres, desejos, uma questão estratégica geopolítica, pelo que, fazemos votos para que todas as Pátrias de Língua Portuguesa possam neste milénio avançar por caminhos do progresso e do humanismo, a partir da segunda língua românica do mundo, nascida na velha Gallaecia romana.”
1 “En carta a Regis Bonviciano (1977), Leminsky refiere…La lengua portuguesa es un destierro, un exílio, un confinamento, …”. (Voltar)
2 Paulo Leminski, um dos maiores poetas de língua portuguesa, foi um estudioso de culturas; marcou, também, presença na língua japonesa, publicando em 1983 uma biografia de Bashô. A sua obra tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. (Voltar)
3 In “Invernáculo” . (Voltar)
4 Eliane Zagury, investigadora, escritora, professora do Departamento de Letras Neolatinas da UERJ e também coordenadora do DATAUerj. Escreveu “A Escrita do Eu”, “A Palavra e os Ecos”, “Cecília Meireles”, “Castro Alves, tempo, vida e obra”. Traduziu obras de Gabriel Garcia Marques, Juan Rulfo, Octávio Paz, Alejo Carpentier e outros. (Voltar)