Gustavo João Morais

2.3 Ainda o Quinto Império

2.3.1 Onde se vê que o Quinto Império é o da Língua Portuguesa (1)

« Quem não vê bem uma palavra
Não pode ver bem uma alma.
»
[123ª-11v]

Sob a classificação – Linguística –, no espólio pessoano da Biblioteca Nacional de Lisboa, encontram-se arrumadas em três «envelopes», as várias considerações, notas e, mesmo alguns planos referentes à organização, estrutura, regras gramaticais e futuro da Língua Portuguesa. Nesses mesmos «envelopes», encontramos, ainda, alguns estudos comparativos entre a língua portuguesa e outras línguas, particularmente a inglesa, que era a que Fernando Pessoa melhor conhecia e dominava. Dispersos pelos diferentes «envelopes» do espólio, foram recolhidos, também, algumas folhas manuscritas que parecem ser exercícios de aprendizagem de latim e grego clássicos e de alemão, língua que desconhecia, mas de que tanto admirava o espírito e a cultura.

A opção de Fernando Pessoa de ser cidadão de uma língua, leva-o a eleger por Pátria a Língua Portuguesa. O verbo português será, então, o seu espaço criador e o meio porque irá afirmar a sua nacionalidade e identidade cultural.

Dominar e defender a palavra em todos os seus aspectos (fonético, morfológico, sintáctico e semântico) é, para o Poeta, a melhor forma de preservar e engrandecer a Nação Portuguesa. Decide assim, assumir um papel activo e interventor em defesa da língua pátria.

Nos seus «papéis» foi encontrado o plano para «Defesa e Illustração da Lingua Portuguesa». Este tratado seria formado por duas partes distintas:

« 1. A Orthographia e a Prosodia
2. A Syntaxe dos Verbos»
[123-9]

A par deste plano, Fernando Pessoa elaborou um outro, que parece ser mais completo e que terá, provavelmente, sido um desenvolvimento do anterior:

«Diccionario Ortographico, Prosodico, e Etymologico da Lingua Portugueza, servindo de fundamento para um diccionario completo». Este dicionário seria, também, por sua vez, constituído por duas partes:

« 1. Definição da Lingua Portuguesa
Orthografia e Prosódia
2. Definição da Lingua Portuguesa
Certeza e propriedade da Linguagem
[123-33]

Porém, este seu projecto de publicação de dicionários não se circunscreve, exclusivamente, ao espaço da língua portuguesa, mas alarga-se a várias línguas estrangeiras, no intuito de, através da tradução, dar a conhecer a cultura portuguesa e divulgá-la para além-fronteiras.

Existe, no espólio, um grande número de folhas manuscritas e dactilografadas que iria dar corpo à edição de um «diccionario» ou vocabulário em várias línguas. Para este volume, Fernando Pessoa redigiu uma pequena nota à laia de introdução, onde explica o critério que presidiu à sua organização, facilitando, deste modo, a consulta por parte do leitor: «O diccionario divide-se em tantas partes quantas são as línguas a que se reporta. A primeira parte é feita na língua que se considera principal. […] Na parte da lingua-base cada palavra e o numero que a precede é seguida de vários números, tantos quantos as outras linguas que figuram no diccionario, sendo cada numero d'esses a referencia à palavra de cada um d'essas línguas, que corresponde à palavra da lingua-base, a que elles seguem. […]» [123-34].

O inglês é a língua-base e as outras línguas a que Pessoa se refere, neste seu texto, são, respeitando a ordem dada pelo autor, a alemã, a francesa, a italiana a espanhola e a portuguesa. Esta selecção, por parte do poeta, não é aleatória, mas recai sobre as línguas das nações que considera criadoras de civilização.

Damos à estampa, neste trabalho, alguns dos textos que iriam dar forma ao planeado Diccionario Orthographico, Prosodico e Etymologico da Lingua Portugueza, que mostram, por um lado, a sua permanente luta em prol de uma ortografia etimológica e, por outro, justificam a razão desta sua atitude.

«Devemos preparar a graphia da nossa lingua para ella poder ser pronunciada pelos futuros, se quizerem, com certeza quantitativa.» [123-46], diz-nos o Poeta. Preservar uma grafia de raiz etimológica é o meio material de que nos devemos servir para salvaguardar a nossa identidade nacional e garantir a sua sobrevivência e natural expansão: «A orthographia etymologica é a expressão graphica da continuidade da nossa cultura.» [123-82]. A língua e a sua ortografia são, para Pessoa, o garante do futuro Império Português – O Quinto Império –: «Para fixação dos meios materiais do Imperio, ha que adoptar a fixação da linguagem, e, antes de mais nada, a orthographia etymologica, excluindo as extravagancias simplificadoras creadas pela influencia da politica extrangeira.» (T. 110)

Purismo linguístico e nacionalismo são dois conceitos indissociáveis pois «O nacionalismo é um patriotismo activo. Pretende defender a patria das influencias que possam perverter a sua indole própria.» (T. 111). Segundo Fernando Pessoa, essas influências tanto podem vir de dentro como de fora, sendo, no entanto, necessário combatê-las sempre que não sejam proveitosas à nação. Neste caso encontram-se certos regionalismos, cuja existência só cria confusão dentro da lingua; o calão que, devido à sua efemeridade, poderá levar a lingua à sua destruição, dado que «quem se entendia pelo calão do equinocio da primavera já se não entende pelo do outomno,» (T. 115) e, ainda, os estrangeirismos que, não só, desfeiam o discurso, como contrariam e índole da pronuncia portuguesa. A abertura à infiltração de um poder – outro (estrangeirismos) consumirá, lenta e sub-repticiamente, a identidade e cultura nacionais, acabando por a aniquilar: «Dá bem conta da estupidez verbal em que cahimos que achamos natural a expressão wagon-lit, ao passo que ririamos de carrão-dormitorio, carro-dormitorio, carro-camas ou da expressão preferível lectifero (porta-leitos).» [123-29] Ingenuamente, rimos, portanto, do que é nacional, sem tomarmos consciência do que esta atitude pode trazer de nefasto ao futuro da pátria língua portuguesa.

Como acabámos de ver as considerações de Fernando Pessoa respeitantes à língua portuguesa não se confinam a preocupações unicamente de ordem gramatical ou estilo, mas, sobretudo, às suas hipóteses de sobrevivência e projecção no futuro como baluarte do Quinto Império .

Dois outros pontos, que merecem a atenção de Fernando Pessoa, dizem respeito, respectivamente, às diferenças fundamentais entre a palavra falada e a palavra escrita, e às vantagens de uma língua internacional.

No primeiro caso, não se limitou a tecer vagas considerações sobre a linguagem oral e a escrita, mas redigiu, mesmo, um pequeno ensaio de 62 páginas manuscritas que, pela sua extensão não vai ser possível transcrever aqui [123B-40 a 123B-101]. Neste ensaio defende a primazia da palavra escrita sobre a palavra falada, por aquela ser atemporal e poder influir, devido à sua intemporalidade, a qualquer momento e em qualquer lugar, no espírito do homem, tornando-o «outro» para assim criar uma nova civilização.

Neste sentido, desenvolve as seguintes permissas, na sua «Theoria da Orthographia»:

«A linguagem fallada é natural , a scripta civilizacional .

A linguagem fallada é momentanea , a scripta duradoura.

A linguagem fallada é democrática (e constante) , a scripta aristocratica (e episódica) .» [123ª-14]

O problema de uma linguagem universal foi, para Pessoa, motivo de grande reflexão e várias são as soluções por ele propostas para a sua resolução. Estas propostas vão desde a criação de uma língua artificial (que não o Esperanto) até à escolha e difusão de uma das línguas vivas europeias.

A língua artificial deveria ter por fundamento o Latim, porque: «Como a Lingua latina é o fundamento, diversamente tal, das linguas modernas nelle se deve fundamentar qualquer lingua artificial que porventura se procure inventar.» [123-34]

Quanto às línguas naturais, as únicas que poderão disputar o seu lugar e supremacia no futuro são: a língua inglesa por ser a mais falada no mundo, e a menos complexa; o espanhol por ser, também, uma das línguas mais faladas e o português cuja «missão imperial» está na «fundação da civilização universal moderna». (T. 110). Contudo, como nos diz, «Temos de pactuar com a realidade. Não podemos fazer da lingua portugueza o privilegio da humanidade.», porque a nossa língua, além de ser demasiado complexa para ser facilmente assimilada e aprendida por povos de outras nações, não é, presentemente, a mais difundida pelo mundo. Assim, o Quinto Império será o império do espírito e da cultura portuguesa ou, como melhor explicita, construiremos «O Quinto Imperio todo pelo espírito – metade pelo verbo.» [T. 43].

2.3.2 Da Periferia Geográfica ao Império da Língua Portuguesa

«Quantas coisas, que temos por certas ou justas,
não são mais que os vestígios dos nossos sonhos,
o sonambulismo da nossa incompreensão! (…)
» (2)
Barão de Teive (3)

Não resta qualquer dúvida sobre a situação geografia de Portugal. Na cabeça da Europa, na periferia do mapa, mas com uma base Atlântica. Portugal está na Europa sem estar nela. Quero com isto dizer que há mais de quatro séculos que estamos na Europa física, mas sem estarmos na Europa política. Ainda hoje tal como no passado, não conseguimos melhor do que estar na cauda da enorme lista que constitui a Comunidade Europeia.

“…desde que perdemos numa tarde a dianteira do mundo, desde então, nunca mais nós os portugueses estivemos à la page! Há mais de quatro séculos que estamos na Europa física e sem autoridade na Europa política. Há mais de quatro séculos que somos uma potência, apenas na troca da diplomacia com outras nações…”. “Há mais de quatro séculos, depois das Descobertas, deixou de haver correspondência entre os nossos antepassados e os seus descendentes. E durante mais de quatro séculos, as Descobertas, mais do que a Portugal, pertencem ao século XV; a esse século genuinamente português. Em vez de segurarmos o admirável exemplo dos nossos antepassados que inventaram os dias do século XV, …e acordaram o mundo inteiro, e lhes ensinaram novas coisas e novos caminhos…acabámos afinal por ser o primeiro povo da Europa a esquecer a política ocidental magistralmente iniciada pelos nossos avós. Será em verdade o Destino tão irónico como parece? Portugal que foi quem iniciou o mundo moderno é o único País do Ocidente que não está à la page!” (4)

Vale a pena citar Almada neste excerto de conferencia sobre o Modernismo, para perceber o quão perto já estávamos da ideia do “desfazer” do Império.

Já Camões, no episódio do “Velho do Restelo”, antevia de uma forma simbólica mas preocupante, um futuro sombrio para a Pátria Portuguesa. O “Velho” chamou de vaidosos, todos aqueles que, por simples cobiça ou forma de glória, se lançaram «Por mares nunca de antes navegados, em perigos e guerras esforçados,» e que «entre gente remota edificaram, Novo Reino que tanto sublimaram;»

O país está eufórico e rico com os Descobrimentos, mas aquele “Velho do Restelo” surge representando uma oposição entre o passado e o futuro, aquele que há-de vir, entre o antigo e o novo.

Sem querer sair demasiado fora do texto proposto, acresce-me somente dizer, que a periferia geográfica de um Portugal com base Atlântica, esteve, para além de outras, na origem dos descobrimentos. Mas e Fernando Pessoa?

Benedictus Dominus Deus
Noster Qui Dedit Nobis
Signum. (5)

Possessio Maris (6)

Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendado a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Poema épico sem dúvida, como lembra Eduardo Lourenço, Jacinto do Prado Coelho, António Quadros e Amélia Pais; (7) mas, “Senhor, falta cumprir-se Portugal!”. E isto em 1918/1920. Passados foram quase 100 anos (já não falta muito) e o povo português pode continuar a dizer que falta cumprir-se Portugal. É, para Fernando Pessoa, naquele ano de 1918, um momento de reflexão sintética, para quem elegeu a Língua Portuguesa como sendo a sua Pátria. Cumpriu-se o mar como resultado do sonho do Infante e da vontade divina, mas o Império desfez-se. É já a tristeza, o “nevoeiro” a ensombrar os nossos dias. Falta por isso e para o futuro cumprir-se Portugal como Pátria e como entidade nacional. E falta mesmo.

E é por isso que eu sou um Sebastianista, não no sentido do tradicionalismo podre, fraco, defeituoso, deficiente, ignorante e decadente. “Ensinados a crer pelo espirito catholico, esperavam de fora o Encoberto, aguardando inertes a salvação externa”. Não! Eu sou um Sebastianista no bom sentido Português, que é aquele sentido, que nos traz o sonho de quem espera por alguma coisa. Esta coisa é o Mundo da Língua Portuguesa. O Mundo da Lusofonia. O “Quinto Império” de Fernando Pessoa. O Império da Língua Portuguesa.

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é este Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como que o fogo – fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a hora!

Valete, Fratres (8)

O poema caracteriza toda uma situação de crise, quer a nível político, “Nem Rei nem lei, nem paz nem guerra” , quer ao nível da identidade nacional, “Este fulgor baço de terra, que é este Portugal a entristecer” , quer ainda ao nível dos valores morais, “Ninguém sabe que coisa quer, ninguém conhece que alma tem, nem o que é mal nem o que é bem.”

A situação é portanto de incerteza, de indefinição: “Tudo é incerto e derradeiro. /Tudo é disperso, nada é inteiro. /Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”

Mas porque algo ficou, consubstanciado na “ânsia distante” que “perto chora”, e justamente porque Portugal hoje é nevoeiro, “É (também) a hora!” (9)


1 Retirado do texto de Luísa Medeiros in Pessoa Inédito de Teresa Rita Lopes (Voltar)

2 In Bernardo Soares, “Livro do Desassossego”, edição Richard Zenith, da Assírio &Alvim, 5ª. edição, pág. 212. (Voltar)

3 Heterónimo «ainda por aparecer», conforme mencionou numa carta a João Gaspar Simões, datada de 28/7/1932. Foi Maria Aliete Galhoz quem tornou o Barão público, com a inclusão de alguns excertos por ele assinados, no prefácio da sua edição da Obra Poética de Pessoa (Rio de Janeiro, 1960). Teresa Rita Lopes revelou outros inéditos no seu Pessoa por Conhecer (Lisboa, 1990). A Educação do Estóico , de Richard Zenith, apresenta a primeira edição da obra atribuída a Teive, com numerosos textos contidos num pequeno caderno preto, e jamais transcritos. (Voltar)

4 Almada Negreiros (1926) In “Obra Completa”, Manifestos, Ensaios, Crónicas e Prosa Doutrinária [pág. 736]. (Voltar)

5 Bendito Deus, Nosso Senhor, que nos deu o sinal. (Voltar)

6 A posse do mar (Voltar)

7 “Camões e Pessoa – Poetas da Utopia”, de Jacinto do Prado Coelho, Editora Europa América, Lisboa 1983; “Poesia e Metafísica – Camões, Antero, Pessoa, Sá da Costa” de Eduardo Lourenço, Lisboa 1983;
“Obra Poética de Fernando Pessoa – MENSAGEM, de António Quadros, Livros de Bolso Europa América; “Introdução” a Os Lusíadas, edição escolar de Amélia Pinto Pais, Areal Editores, Porto, 1987. (Voltar)

8 Adeus irmãos. (Voltar)

9 In “Para Compreender Fernando Pessoa” de Amélia Pinto Pais [pág. 146]

 
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