2.1 O Quinto Império
[«A FRAQUEZA DO SEBASTIANISMO TRADICIONAL»] (s/d)
Doc.125B 19
O defeito, a fraqueza, do sebastianismo tradicional reside, não em elle, senão em a deficiência e a fraqueza de seus interpretes. Ignorantes, decadentes, ensinados a crer pelo espírito catholico, esperavam de fora o Encoberto, aguardavam inertes a salvação externa. O Encoberto, porém, é um conceito nosso; para que venha, é preciso que o façamos apparecer, que o creemos em nós atravez de nós. É com ansia quotidiana, com uma vontade de hora a hora, que em nossa alma o devemos erguer, de alli o projectando para o mundo chamado externo (também outra nossa creação).
O Encoberto é o representante maximo do Quinto Império ; é o emissário maximo das forças espirituaes que hão de crear tal Império. Como podemos esperar que ele venha se não creamos primeiro as forças que, por sua vez, a elle o hão de crear?
E essas forças são a ansia de domínio, e a tensão de todas as potencias da alma em torno d'essa ansia. Deve cada um de nós fazer por si realizar o maximo que pode de similhante ao Desejado. A somma, a confluencia, a syntese por assim dizer carnal d'essas ansias será a pessoa do Encoberto.
Não há homens salvadores. Não há Messias. O maximo que um grande homem pode ser é um stimulador de almas, um dispertador de energias alheias. Salvar um homem a um povo inteiro como o poderá fazer, se esse povo inteiro não fizer por salvar-se isto é, se esse povo inteiro não quizer ser salvo? «Obra tu a tua salvação» diz S. Paulo; e o grande homem é aquelle que mais profundamente compellir cada alma a, de facto, operar a sua propria salvação. (1)
[«O VELHO ANSEIO SEBASTIANISTA»] (s/d)
Doc.125B 63
Manifesto.
Não só rei novo, como tambem monarchia nova.
Nem a monarchia de caceteiros, que os miguelistas representam; nem a monarchia de conselheiros, que é pertença de manuelistas. Nada brigantino.
Rei que fugiu, deixou de ser Rei.
Como tudo quanto é alma portugueza anseia pelo Rei, esse Rei é o Desejado.
Como não sabemos quem há de ser o Rei, elle é, para nós, o Encoberto. Assim se cria em nós o velho anseio sebastianista, único relegiosismo verdadeiramente portuguez. Na madrugada da era que para nós começa, atravez da nevoa das nossas duvidas e das nossas incomprehensões, voltará, do fundo da alma da raça, o Rei da raça dos navegadores, D. Sebastião.
[«A ERA DO DESEJADO»] (s/d)
Doc.125A 94
D. Sebastião, no seu triplo carácter de Rei (isto é, Rei Nacional), de Desejado e de Encoberto.
Estamos na Era do Desejado.
Finalmente vem o Encoberto. É este o nome de Osíris, cujos membros dispersos as differentes religiões serão então reunidas, extincta a Egreja de Roma, na verdadeira Egreja Catholica, na religião, por fim, universal.
E então se poderá ver o que o iniciado de Patmos chamou «um céu novo e uma terra nova.»
[«A EQUIVALENCIA DAS DESCOBERTAS»] (s/d)
Doc.125A 95
O nosso espírito, naquelle tempo, tomou naturalmente o caminho das Descobertas marítimas. Em nosso tempo, em que não há nada que descobrir, pelo menos pela navegação, que caminho deverá tomar? Qual é, em relação às circunstancias do nosso tempo, a equivalencia das Descobertas? Para ahi, em alimento do nosso espírito e cumprimento da nossa tradição, nos deveremos orientar. Que ahi , porém é esse? (2)
[«UM PAIZ ATLANTICO»] (s/d)
Doc.125A 43
Em primeiro logar, e como já o notou João de Castro Osório, Portugal não é propriamente um paiz europeu: mais rigorosamente se lhe poderá chamar um paiz atlântico o paiz atlântico por excellencia. (
) Além d'isso, Portugal, neste caso, quere dizer o Brasil tambem. Como o imperio , neste schema, é espiritual, não ha mister que seja imposto ou construido por uma só nação: pode se-lo por mais que uma, desde que espiritualmente sejam a mesma, que o são se fallarem a mesma lingua.
Acresce que, tanto quanto hoje podemos ver, ha, de origem europeia, (3) só duas nações fora da Europa com alma para poder ter imperio os Estados Unidos e o Brasil. Os Estados Unidos, porém, e como já foi dito, estão já no seu imperio, que é material, e que é o Quinto Imperio de Inglaterra.
[«LÍNGUA IMPERIAL»] (s/d)
Doc.125A 15
A circunstancia curiosa de o dos maiores crentes, se não o maior, no Bandarra ser o Pe. António Vieira, o maior representante cultural da lingua portugueza.
O portuguez é a mais rica e mais complexa das linguas romanicas, uma das cinco linguas imperiais, é fallado, se não por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrario de todas as línguas menos o inglez, e, até certo ponto, o francez, é fácil de aprender a quem saiba já hispanhol (castelhano) e, em certo modo italiano isto é, não é uma língua isolada é a língua fallada num grande pais crescente o Brasil (podia ser fallada de Oriente a Ocidente e não ser assim fallada por uma grande nação).
Estes argumentos não pesarão se outras circumstancias os não apoiarem. (4)
[«AO PORTUGAL NOVO CHAMADO DO PORTUGAL INTEIRO»]
( Posterior a 1928 )
Doc.125A 26 a 29
Vai partir para o Brasil, em uma alta e symbolica missão da Pátria, o poeta Affonso Lopes Vieira. Vae levar ao chefe do Portugal Novo, em nome do chefe do Portugal Antigo, o sinal da esperança commum a tudo quanto é Portugal.
O livro para cuja offerta se afasta de nós, é o de Luiz de Camões, cantor de El-Rei D. Sebastião. (5) O fim, para que olham todos os destinos do Povo, a que pertenceu esse cantor, fechou-os o sapateiro Bandarra na evocação ante posthuma do mesmo D. Sebastião. Affonso Lopes Vieira, partindo-se, leva consigo, involuntariamente, o designio obscuro transcrito pelo Bandarra.
O poeta Affonso Lopes Vieira, sebastianista quer o queira, quer não, vae levar ao Brasil um poema claro que é uma carta escura uma carta cifrada cuja decifração não haverá muitos que façam nem o que a envia, nem o que a recebe, nem porventura o que a transmitte.
A hora da designação da mensagem, na conferencia publica com que a esclareceu, foi a de 29 de Maio de 1928, (6) designada na prophecia menor da Pyramide como do Aviso Liminar, que uns entenderam mal e outros peor.
É que não era com elles
O interprete inglez das pollegadas da Pyramide registra, sem que a explique, a data de 1557 como Aviso Central da Historia. De este anno nada reza a historia, senão nelle começou a reinar El Rei D. Sebastião.
O poeta Affonso Lopes Vieira apresentou, na data antecipadamente designada, o sinal antecipadamente designado. Vae levar ao Portugal Novo, não a mensagem, mas a Chamada, do Portugal Inteiro.
O resto é com Deus
[«O IMPÉRIO PELA PALAVRA»] (s/d)
Doc.123 95
O Problema das Línguas
Se ter uma grande literatura fosse, por si só, suficiente para impor, não a mera sobrevivência, mas a vasta e duradoura sobrevivência de uma lingua, o Grego seria hoje a segunda lingua da civilização. Mas nem sequer o Latim, que também chegou a ser a segunda língua da civilização, conseguiu manter a sua supremacia. Para assegurar a sua permanência no futuro, a lingua tem de ter algo mais do que uma grande literatura: ser dona de uma grande literatura é uma vantagem positiva, mas não efectiva, pois salvará a lingua da morte mas não garantirá a sua promoção na vida.
A primeira condição para uma ampla permanência de uma lingua no futuro é a sua difusão natural, o que depende do simples factor físico do número de pessoas que a fala naturalmente. A segunda condição é a facilidade com que poderá ser aprendida; se o Grego fosse fácil de aprender, todos nós teríamos, hoje, o Grego como segunda lingua. A terceira condição é que a lingua terá de ser o mais flexível possível, de modo a poder responder, na íntegra, a todas as formas de expressão possíveis, e de consequentemente, ser capaz de espelhar com fidelidade, através da tradução, a expressão de outras linguas e assim dispensar, do ponto de vista literário, a sua aprendizagem.
Ora, falando não só do presente mas também do futuro imediato, na medida em que este possa ser considerado factor de desenvolvimento das condições embrionárias do nosso tempo, só há três linguas com futuro popular o Inglês (que já tem uma larga difusão), o Espanhol e o Português. São línguas faladas na América, e como Europa significa civilização europeia, a Europa têm-se radicado cada vez mais no continente ocidental. Assim linguas como o Francês, o Alemão e o Italiano só poderão ser europeias: não têm poder imperial. Enquanto a Europa foi o mundo, estas dominaram, e triunfaram mesmo sobre as outras três, pois o Inglês era insular e o Espanhol e o Português encontravam-se num dos seus extremos. Mas quando o Mundo passou a ser o globo terrestre este cenário alterou-se.
Será portanto numa destas três línguas que o futuro do futuro assentará. (7)
[«O IMPÉRIO PORTUGUEZ» e «FIXAÇÃO DA LINGUAGEM»] (s/d)
Doc. 123-43
O GREMIO DA CULTURA PORTUGUEZA assenta os seus intuitos nos seguintes fundamentos:
Não ha separação essencial entre os povos que fallam a língua portugueza. Embora Portugal e o Brasil sejam politicamente nações differentes, não são nações differentes, conteem por systema [?] uma direcção imperial comum, a que é mister que obdeçam.
A missão imperial a que teem de obedecer as duas nações que formam o Império Portuguez encontra-se estabelecida nas seguintes origens: (a) como memória e tradição, a fundação da civilização universal moderna pelo Infante D. Henrique, (b) como proposito e utopia, a creação, pelos Sebastianistas, da idéa de um Império Portuguez, designado como o Quinto Império , e formado em bases diversas da de todos os imperios passados, (c) como typo de acção, a concentração em uma unidade espiritual, a crear progressivamente, da tradição em que assenta a razão histórica do Quinto Império , e da esperança em que reside a razão religiosa d'elle.
Acima da idéa do Império Portuguez, subordinado ao espírito definido pela lingua portugueza, não ha formula politica nem idéa religiosa.
Para fixação dos meios materiais do Império, ha que adoptar a fixação da linguagem, e, antes de mais nada, a orthographia etymologica, excluindo as extravagancias simplificadoras creadas pela influencia da politica estrangeira. (8)
1 Este texto é encimado pela indicação Bandarra . (Voltar)
2 De notar que a respeito desse destino nacional ainda por definir, diz Fernando Pessoa o seguinte, num manuscrito em que procura aplicar uma das trovas do Bandarra a D. Manuel I: «Ainda a razão de ser (tronco) está por apparecer, já vos vejo erguido cedro, porque estando no passado já está erguido; mas não é ainda esclarecida a razão de ser (tronco), que é a natureza imperial do povo portuguez. E não é ainda esclarecida porque não appareceu ainda o verdadeiro imperio portuguez, do qual o imperio dos descobrimentos e das conquistas não foi senão a antevisão, ou sombra projectada adiante.» (Voltar)
3 De notar que João de Castro Osório, escritor de tendência nacionalista, foi contemporâneo de Fernando Pessoa, tendo publicado fragmentos do Livro do Desassossego e poemas assinados por Fernando Pessoa e por Álvaro de Campos, na revista Descobrimento , que se publicou entre 1931 e 1932, sob sua direcção. (Voltar)
4 O texto é encimado pela indicação «Bandarra». O primeiro parágrafo está separado dos seguintes por um traço horizontal, parecendo indicar que se trata de apontamentos a que, mais tarde, dará conveniente desenvolvimento. (Voltar)
5 Trata-se, neste texto, da entrega à Academia Brasileira de Letras de um exemplar da edição «Nacional» de Os Lusíadas, promovida pelo próprio Afonso Lopes Vieira, e reproduzindo o texto da edição fac similada de 1921, mas com ortografia e pontuação actualizadas. (Voltar)
6 Esta data é também referida noutros documentos, nomeadamente em Esp. 125-1 e 125ª-41, ambos já publicados em Sobre Portugal , Lisboa, Ática, 1987, pág. 139 e 182 respectivamente. (Voltar)
7 Pelo seu teor, este texto parece fazer parte de um conjunto de considerações sobre a língua portuguesa, em particular, e as línguas, em geral, atribuído à personalidade literária de feição épico-ocultista que tinha a seu cargo a divulgação em Inglês, da cultura portuguesa, Thomas Crosse.
Do período do sensacionismo e do interseccionismo, Teresa Rita Lopes, em Pessoa Por Conhecer, dá-nos conta de personalidades como António Seabra, Frederico Reis (provavelmente um irmão do heterónimo Ricardo Reis), Diniz da Silva, Thomas Crosse e I.I. Crosse, sendo estes últimos os divulgadores, em língua inglesa, do sensacionismo. Parece ter existido um outro irmão Crosse, A.A. Crosse, aquele que respondia, em jornais ingleses, a concursos de charadas e do qual Fernando Pessoa fala a Ophélia (a resposta a concurso de charadas não é novidade no Fernando Pessoa de 1919, já que, em Durban também disputava destes concursos através do nome de Tagus). (Voltar)
8 DE NOTAR QUE uma nota manuscrita, na parte inferior da folha, de muito difícil leitura, enumera, aparentemente com figuras emblemáticas deste «Grémio da Cultura Portugueza»: «O senhor D. Henrique, Infante de Portugal», Affonso de Albuquerque, «O imperador», «O sapat[eiro]Bandarra», «El-Rei [
] D. Sebastião», O Santo Ant[onio] Vieira». (Voltar)