1. Introdução
Já por diversas vezes me tem sido colocada a dolorosa tarefa de ter que escrever. Não tanto enquanto palavra escrita ou simples expressão de ideias, mas muito mais como valor estético do pensamento. Aqui chegado, tenho-me como certo o terrível confronto (não é este o tema do texto) com assertivas nietzcheanas, seja pelo prazer de provocar debates, dando origens a verdadeiras reciprocidades, seja pelo encontro e aceitação de um outro legítimo na sua diferença e autonomia. Nenhum mistério ou enigma existe em pensar diferente e se digo o que penso, é porque julgo que também se pode pensar o contrário mesmo que em contraponto com aquilo “que julgo que penso”.
«Toda a opinião é uma tese, e o mundo, à falta de verdades, está cheio de opiniões. Mas a cada opinião compete uma contra – opinião, seja crítica da primeira, seja complemento dela. Na realidade do pensamento humano, essencialmente flutuante e incerto, tanto a opinião primária, como a que se lhe é oposta, são em si mesmo instáveis; não há síntese, pois, nas coisas da certeza, senão tese e antítese apenas. Só os Deuses, talvez, poderão sintetizar». (1)
Aquele que vive e encontra a razão de viver no presente, ou seja na acção, o que o move é a possibilidade de ser feliz no instante que lhe é reservado. Mas para que consiga agir, o homem tem de saber esquecer, visto que é a capacidade de sentir, através de “um processo” que a história define como “aprender a desaprender para aprender novamente”, que condiciona a possibilidade em grande à felicidade do momento. Desta forma, ao instalar-se no limiar do momento presente, o ser humano é capaz de esquecer o passado e ir ao encontro do por vir, ou seja: «aquele que não possui a força para esquecer, e que esteja condenado a ver por toda a parte um vir a ser; aquele que não acredita mais no seu próprio ser, que não acredita mais em si, vê tudo desmanchar-se em pontos móveis e perde-se nesse rio do vir-a-ser. Seria como o bom discípulo de Heraclito, que mal ousaria levantar o dedo. Um homem que queira sentir, apenas historicamente, é semelhante àquele que se força a abster-se de dormir, ou então, ao animal que tem de sobreviver apenas de ruminação em ruminação, sempre repetida. É por isso e portanto possível viver quase sem lembrança, e mesmo viver feliz, como mostra o animal; mas é inteiramente impossível, sem esquecimento, simplesmente viver . Ou, simplificando o tema, diria que há um grau de insónia, de ruminação, de sentido histórico, no qual o vivente chega a sofrer dano e por fim se arruína, seja ele um homem ou um povo ou uma civilização» . (2) Além disto, o apego ao passado pode, por hipótese, implantar a crença na caducidade da espécie humana, com base na ideia de que somos “seres tardios”, e desenvolver “um estado de espírito perigoso, o cepticismo” e consequentemente “um estado mais perigoso ainda, o cinismo”, que levariam à paralisação e, mais tarde, à aniquilação da força vital que move o ser humano.
Assim sendo a apreciação dos acontecimentos do passado, tal como é feita entre nós, é um mero preconceito ocidental, que faz da história algo de estéril. Ao congelar os acontecimentos e, nesse sentido, proibir outras interpretações que não as oficiais, a história acaba por se fechar sobre si mesmo. “A história pensada como ciência pura e tornada soberana seria uma espécie de encerramento e balanço da vida humana”. O fenómeno histórico é morto para aquele que o torna como algo resolvido, ou seja, como um fenómeno do conhecimento. Já para aqueles que o viveram, o fenómeno histórico é algo de vivo, infinito e potente, pois não se condiciona à priori a objectivos.
Aqui surge a dolorida impossibilidade para quem pretende criar a tarefa de ter que escrever ou ditar. Surgiu então a necessidade de ter de me “reinventar” discretíssimo, através dos séculos, para poder escapar à “mecânica das actualidades”.
Numa óptica mais pessoal, posso afirmar que nos dias de hoje a análise histórica é algo em perfeito movimento permanente. Vou ainda mas longe quando afirmo que factos ou eventos que no passado eram supostamente e historicamente preconceituosos, a sua análise hoje demonstra que as suas conclusões são outras. As interpretações do poder vigente eram antes intocáveis. Aos acervos de histeria nacionalista (no sentido patriótico do termo ou não) sucedem-se hoje novos horizontes no pensamento político-social, cujas resultantes nada têm a ver com as análises de ontem. Hoje faz-se história ao ensinar-se nas escolas o que se sabe dela e também o que se não sabe, mas se advinha. Acredito que daqui a muitos anos, a análise histórica dos processos será bem diferente, e por isso mais verdadeira. O fenómeno histórico nada tem de morto. Ele é já hoje bem vivo, deslocando-se de um jeito permanente e constante, mas também independente de qualquer forma de poder.
O preconceito histórico/passadista, encerrando um absolutismo estapafurdicamente inútil, serviu ou serve ainda os governos e as instituições para alimentar a ilusão do que nunca foi. As glórias de um passado morto, são hoje vistas pelos conceitos de uma história viva. Dizer que o Quinto Império era a visão sonhada ou profética de um país imperialista, dominador, dono do mundo (como se tal fosse possível) é tão errado como “O Erro de Descartes”, (3) de António Damásio. (4) Sabe-se hoje, graças à investigação e ao movimento que lhe dá a história, que o Quinto Império, era o Império da Língua Portuguesa. Aquilo a que hoje se chama, penso que bem, de Lusofonia. Esta é a história da minha verdade, quantas vezes escamoteada das escolas por, aí sim, preconceitos nacionalistas de quem tem que dar o conhecimento, desenhando os contornos, ensinam jovens alunos, que a Língua Portuguesa é uma Língua periférica, incutindo no espírito da juventude, ressentimentos e mágoas de um legado histórico, o qual ainda hoje faz sofrer o povo. E já lá vão mais de 500 anos.
Por isso e repito, só posso aplaudir todos aqueles que dizem que o fenómeno histórico é morto para aqueles que o tomam como algo resolvido. Enquanto morto, não passa de mais uma visão paralítica do conhecimento, visão pessimista da natureza humana e, enquanto isso, escrúpulo de toda a acção. O escrúpulo é a morte. E a morte é o fim de tudo o que se conforma ou se conserva.
Heraclito, talvez o maior pensador pré – socrático, afirma que «tudo flúi, nada persiste, nem permanece o mesmo». Platão diz de Heraclito: «ele compara as coisas com a corrente de um rio». Por isso eu digo também que o fenómeno histórico é vivo enquanto movimento, na busca do verdadeiro conhecimento. O conhecimento histórico é um resultado, não uma soma. «É possível mostrar que se conhece os gregos num poema onde nem se fala deles nem se é influenciado por eles. A experiência é uma forma de cultura. Hegel, ao criticar Goethe, disse, numa das suas grandes frases, que ele tinha «toda a pobreza da juventude»». (5) Eu diria que a juventude precisa de bons mestres.
1 Obra em Prosa de Fernando Pessoa, À Procura da Verdade Oculta. Textos Filosóficos e Esotéricos, com Prefácio, Organização e Notas de ANTÒNIO QUADROS. (pág. 33) (Voltar)
2 Friedrich Nietzche, Da Utilidade e Desvantagem da História para a Vida. In Obras Incompletas. Selecção de textos de Gérard Lebrun e tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo, Editora Victor Civita, 1974, p. 66-69. (Voltar)
3 É este o erro de Descartes: a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substancia corporal, infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, por um lado, e a substancia mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo. Em concreto: a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro. In “O Erro de Descartes, Emoção, Razão e Cérebro Humano”, Publicações Europa América. (pág. 255) (Voltar)
4 António Damásio, cientista português, é professor e chefe do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa e também professor no Salk Institute, na Califórnia. Recentemente foi galardoado, em conjunto com sua mulher, Hanna Damásio, com o Prémio Pessoa e recebeu o Prémio Beaumont da Associação Médica Americana, pelo seu trabalho em neurologia, área em que é um dos mais prestigiados investigadores a nível mundial. (Voltar)
5 Fernando Pessoa, Aforismos e Afins, edição e prefácio de Richard Zenitt, da Assírio & Alvim. (pág. 62) (Voltar)