"Carcará/Pega, mata e come
Carcará/Num vai morrer de fome"
(Carcará - João do Vale e José Cândido)
Cabo Anselmo:
o anjo da morte da esquerda brasileira
A história da ditadura militar e da luta armada no Brasil tem facetas surpreendentes e pouco conhecidas. Num período em que confiar uma informação a alguém significava confiar a própria vida, uma simples delação tinha efeitos devastadores.
É fato que o movimento de luta armada contra a ditadura nasceu abortado, mas poderia ter sobrevivido ou deixado menos mortos se a repressão não tivesse a seu favor um traidor: cabo José Anselmo dos Santos.
Herói por acaso
Por um daqueles acidentes da história, um simples cabo da Marinha tornou-se herói. Pode-se dizer que Cabo Anselmo estava no local e hora certos para escrever uma parte da história do país. Acabou sendo protagonista de um dos momentos mais críticos do pré-Golpe de 1964: a revolta dos marinheiros, em 04 de junho de 1964.
Perseguido, após o golpe, asilou-se na Embaixada do México. Foi preso ao deixar a embaixada. Fugiu da prisão no dia 31 de março de 1966, escondendo-se em São Paulo, partindo em seguida para o Uruguai, onde ingressou no Movimento Nacional Revolucionário (MNR). Na seqüência, transferiu-se para Cuba para realizar o treinamento de guerrilha.
Em 1967, representou o MNR na Conferência da OLAS (Organização de Solidariedade aos Povos da América Latina), em Havana. Anselmo ficou em Cuba por quase 3 anos, pois perdera o vínculo com o MNR, dissolvido após a fracassada tentativa de instalação de um foco guerrilheiro na Serra do Caparaó.

No final de 1969, fez contato com Onofre Pinto - um dos principais dirigentes da VPR - e integrou-se à organização, retonando para o Brasil. Ao chegar no Brasil, Cabo Anselmo encontrou a esquerda em situação totalmente diversa da que imaginava no exterior: a VPR estava parcialmente desestruturada e seu principal líder - o capitão Carlos Lamarca - dependia do apoio de outras organizações para sobreviver na clandestinidade. O cerco aparentemente se fechava em torno da organização e para o Cabo Anselmo se encerrava ali a aventura guerrilheira.
Tragédia anunciada

Desde os últimos meses de 1971, Ângelo Pezzuti - um dos dirigentes da VPR no exílio - havia recebido informações de que Cabo Anselmo bandeara-se para o lado da ditadura. Para a surpresa de Pezzuti e dos outros exilados, pouco após essas denúncias o próprio Cabo Anselmo apareceu no Chile e solicitou um encontro para discutir os rumos da luta armada no Brasil.
Hoje sabe-se de que os órgãos de repressão captaram informações sobre as desconfianças a respeito de seu novo agente e o ajudaram a articular o encontro com a direção da organização no exterior com o objetivo de limpar sua barra e despistar qualquer dúvida sobre sua fidelidade à luta armada.
Anselmo havia partido de Cuba há pouco mais de um ano para a luta clandestina no Brasil. Cerca de dois meses depois de sua volta, teve um encontro com Lamarca, num sítio próximo do Rio de Janeiro, onde ficou na companhia do homem mais procurado do país. Desde essa época, membros do Partido Comunista Brasileiro apontavam Cabo Anselmo como agente infiltrado desde 1964, mas as desconfianças sobre ele foram desfeitas quando Joaquim Câmara Ferreira, dirigente da ALN, foi morto enquanto o cabo estava reunido com Lamarca.

O fato é que a história de traição do Cabo Anselmo, embora pareça intrincada, ocorreu de forma muito simples: Anselmo foi preso pelo DOPS no início de maio de 1971 e negociou sua vida em troca da colaboração com a ditadura. De cara, forneceu todas as informações que possuía e, na posição de dirigente da VPR em São Paulo, não só entregou companheiros de sua organização, como também militantes das outras com quem tinha contato. No final de 1971, dois importantes dirigentes da VPR foram mortos: Yoshitane Fugimore e Édson Quaresma - ambos mantinham contato com Anselmo na época. Pouco depois, foi a vez de Aluísio Palhano desaparecer para sempre após ser preso pelo DOI-CODI, em São Paulo, em decorrência da delação do cabo.
O certo é que Anselmo não poupou esforços ao colaborar com a repressão: passou por cima de laços políticos, afetivos e de amizade para tornar-se o cachorro* mais confiável da ditadura.
Com muitos mortos nas costas - entre pessoas que entregou e a repressão prendeu e matou - Anselmo não só comprovou ser um colaborador confiável, como deu à repressão a certeza de que não tinha mais caminho de volta, pois para garantir sua sobrevivência teria que continuar colaborando. Para isso, foi solto para continuar o trabalho sujo de traidor. Como agente infiltrado teve a cobertura necessária para agir tão sorrateiramente como a sombra da morte.

Enganam-se os que acreditam que Anselmo foi o único traidor infiltrado nas fileiras da luta armada. Pouco antes, outro militante coaptado pela repressão causara estragos enormes à esquerda: José Tavares, ex-ALN, entregara nada menos que Joaquim Câmara Ferreira, causando uma série de quedas e mortes, iniciando a derrocada da maior organização de esquerda armada do Brasil. Em janeiro de 1972, chegaram ao Chile informações mais consistentes sobre o bandeamento de Cabo Anselmo para a repressão e não dava para duvidar da fonte: a militante da VPR, Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da Casa da Morte de Petrópolis (centro clandestino de tortura), que reconhecera a voz do Cabo no local. Além disso, dirigentes da ALN também estavam convencidos da traição do ex-marinheiro desde a prisão de Paulo de Tarso Celestino da Silva e Heleni Teles Guariba, ocorrida no mesmo dia em que tinham um ponto** com o cabo.

Em setembro de 1972, Diógenes de Arruda Câmara (dirigente do PC do B), também informou à direção da VPR no Chile que vira o cabo Anselmo no Dops de São Paulo "rastejando aos pés do delegado Fleury". A explicação para a permanência de alguém tão suspeito nas fileiras da VPR está no fato de que a direção da Organização pressionada pelos constantes confrontos com a repressão e envolvida em intensas lutas internas dividiu-se em relação às informações sobre a traição de Anselmo. No entanto, sua permanência na VPR deu-se principalmente por causa de Onofre Pinto, que recrutara o cabo e garantia a integridade de seu comportamento. Mal sabia que seria mais uma de suas vítimas.
A FOICE DE ANSELMO ANIQUILA A ESQUERDA ARMADA

Ao retomar contato com a VPR e com dirigentes de outras organizações no Chile, Cabo Anselmo retornou ao Brasil com a tarefa de implantar bases guerrilheiras em Pernambuco e preparar as condições para a volta de outros militantes do exterior. No regresso, o delegado Fleury já o esperava em Uruguaiana para receber um relatório minucioso de seu agente mais fiel. Pronto. Estavam criadas as condições para a polícia política controlar passo a passo as ações da VPR no Nordeste.
Anselmo ainda precisava neutralizar as suspeitas a seu respeito. Para isso, precisava aproximar-se de alguém respeitável e com um histórico de militância impecável. A vítima já havia sido escolhida: Soledad Barret Viedma. O cabo aproximou-se da militante e passou a viver como seu companheiro. Soledad engravidou sem desconfiar de que era apenas um objeto para a manutenção da fachada de Anselmo.
A VPR e outras organizações sofriam com as constantes quedas. Todos os mortos e desaparecidos tinham alguma ligação com o Cabo Anselmo. Percebendo que a infiltração logo seria descoberta, a polícia política decidiu desencadear a ofensiva final contra a VPR em janeiro de 1973.

No dia 08 de janeiro de 1973, Anselmo reuniu no apartamento em que morava com Soledad o grupo de militantes atuantes em Pernambuco. Missão cumprida, da janela do apartamento fez um sinal para a equipe do DOPS de São Paulo, chefiada pelo Delegado Fleury, que espreitava da rua. Anselmo abandonou o local e deixou os companheiros à própria sorte.
Eudaldo Gomes da Silva, Evaldo Luiz Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva, Pauline Phillippe Reichstul e Soledad Barret Viedma foram brutalmente assassinados no episódio que ficou conhecido como "Massacre da Chácara São Bento". Os corpos dos seis foram totalmente dilacerados pela selvageria com que foram torturados e mortos.

Para se ter uma idéia, o corpo de Soledad foi encontrado nu e de pé, dentro de um barril, com os braços caídos para fora. Os olhos estavam esbugalhados, a boca entreaberta numa expressão de terror. Tinha muito sangue entre suas coxas e pernas. No fundo do barril havia um feto de cerca de quatro meses perdido em uma poça de sangue coagulado.
Para salvar sua vida, Anselmo entregou a de outros de bandeja para a ditadura. Nem a mulher e o filho foram poupados.
Anselmo sumiu nas sombras da morte. Apareceu algumas vezes - rosto modificado por cirurgias plásticas - e concedeu depoimentos contando sua versão da história. E o mais incrível é que não demonstra um pingo de arrependimento por cada uma das mortes que carrega nas costas. Como um anjo da morte acredita ter cumprido seu papel, mas por um preço tão alto que, até hoje, ainda tem medo de enfrentar de frente todos aqueles a quem prejudicou. Vive nas sombras, escondido, como há mais de 40 anos atrás, quando ainda era aliado da esquerda. Será que valeu a pena ter sido responsável por tantas mortes para viver assim? Só ele pode responder.

* cachorro: termo usado para nomear os militantes de esquerda que passaram a colaborar com a ditadura.
** ponto: termo usado para designar os encontros entre militantes.
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