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...Macaé, ano I, Nº 30 - 18 a 25 de agosto de 2006
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O inferno na Terra: a saga de Frei Tito

"Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada para a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa".
(Cálice - Chico Buaque de Hollanda e Gilberto Gil)

"Agora você vai conhecer a sucursal do inferno".

Jamais um torturador disse uma frase tão profética, mas, certamente, o capitão Maurício Lopes Lima sabia o dizia. Pena que muitas pessoas, como o frade dominicano Tito de Alencar Lima tiveram a oportunidade de conhecer, com todos os requintes de maldade, a sucursal do inferno que se instalara no prédio do DOPS/SP.

Tito de Alencar Lima nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 14 de setembro de 1945 e, desde sempre esteve ligado ao mundo clerical. Iniciou os estudos ainda em Fortaleza com os padres jesuítas.

Imbuído de ideais de justiça, envolveu-se com a militância estudantil, tornando-se dirigente regional e nacional da JEC (Juventude Estudantil Católica).

Em 1965, ingressou na Ordem dos Dominicanos, ordenando-se sacerdote em 1967. Nesse período também foi aluno do curso de Filosofia na Universidade de Sao Paulo (USP).

Nessa época, dividia-se entre o sacerdócio e a militância política, uma vez que era militante da Ação Estudantil Católica, ocupando o cargo de coordenador para o Nordeste.

Frei Tito não imaginava que a militância política pudesse lhe causar tantos problemas em tão pouco tempo.

Um dominicano atrás das grades

Em 1968, Frei Tito conheceu pela primeira vez a angústia de ser um preso político durante um regime ditatorial.

Acusado de ter alugado o sítio que sediou o Congresso clandestino da UNE, em Ibiúna - aquele mesmo em que cerca de 800 estudantes foram presos - caiu nas mãos da polícia política. Não foi torturado, mas fichado, tornou-se alvo da repressão política.

Não se sabe ao certo quando os frades dominicanos passaram a ajudar a Ação Libertadora Nacional (ALN) e outras organizações a levar para fora do país os militantes perseguidos pela ditadura, mas a verdade é que Frei Tito era um desses colaboradores.

Não demorou muito para a repressão descobrir esse esquema e colocar as mãos naqueles que poderiam levá-los ao encontro do inimigo nº 1 da ditadura: Carlos Marighella, principal dirigente da ALN, a maior organização clandestina de oposição armada à ditadura.

Frei Tito foi preso novamente a 4 de novembro de 1969, em companhia de outros dominicanos acusados de ter ligações com a ALN e Carlos Marighella.

A prisão e tortura dos dominicanos resultou na morte de Marighella em um cerco armado pelo temido delegado Sérgio Paranhos Fleury, chefe da tortura no DOPS, na Alameda Casa Branca, num bairro nobre de São Paulo, causando, assim, uma grande desestruturação na ALN.

A sucursal do inferno

Frei Tito foi torturado durante 40 dias pela equipe do delegado Fleury. Imaginando que seu sofrimento havia terminado foi transferido para o Presídio Tiradentes, onde permaneceu até o dia 17 de dezembro de 1969, quando foi levado para a sede da Operação Bandeirantes onde ouviu de seu algoz uma profecia que o perseguiria até o fim de seus dias: "Agora você vai conhecer a sucursal do inferno" . E foi o que aconteceu.

O frade dominicano experimentou os maiores sofrimentos possíveis. Durante 2 dias, Frei Tito foi pendurado no pau-de-arara recebendo choques elétricos na cabeça, nos órgãos genitais, pés, mãos e ouvidos. Os choques eram alternados com socos, pauladas, "telefones", palmatórias, "corredor polonês", "cadeira do dragão" e queimaduras de cigarro, tudo isso, ao som de ameaças e insultos. Se já não bastasse todo esse sofrimento, a certa altura o capitão Albernaz ordenou que Frei Tito abrisse a boca para receber a hóstia sagrada e introduziu um fio elétrico que lhe queimou a boca a ponto de impedí-lo de falar.

Após ser deixado durante toda uma noite pendurado no pau-de-arara, Frei Tito decidiu que seu sofrimento deveria terminar e, com uma lâmina de barbear, cortou os pulsos, na tentativa de dar fim a seu sofrimento e à sua vida.

Conduzido às pressas para o Hospital do Exército do Cambuci, Frei Tito ficou internado cerca de uma semana sob tratamento médico, mas nem assim foi poupado das constantes torturas psicológicas por parte de seus algozes.

Pouco tempo depois, Frei Tito foi libertado. Ao sair da prisão proferiu uma frase que expressava bem seu martírio: "Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre".

Um pesadelo sem fim

Além das marcas físicas, a tortura marcou profundamente a mente de Frei Tito, atormentado diariamente por um pesadelo sem fim.

Por conta do seqüestro do embaixador alemão, Frei Tito foi banido do Brasil no dia 13 de janeiro de 1971, viajando para o Chile. Posteriormente mudou-se para a Itália, mas logo erradicou-se na França.

Lutando desesperadamente contra os constantes tormentos de sua mente, instalou-se na comunidade dominicana de Arbresle, onde iniciou tratamento psicológico. Em seus delírios, acreditava estar sendo perseguido pelo delegado Fleury.

Infelizmente, Frei Tito não resistiu ao pesadelo causado pela tortura. No dia 7 de agosto de 1974, aos 29 anos, enforcou-se pendurando-se em uma árvore. Seus companheiros de batina encontraram um bilhete que dizia: "melhor morrer do que perder a vida". Uma frase simples, mas que representava em poucas palavras as cicatrizes deixadas pelo ódio em sua alma.

Frei Tito foi enterrado no Cemitério Dominicano de Sainte Marie de la Tourette, próximo a Lyon, na França.

No dia 25 de março de 1983 seus restos foram trasladados para o Brasil e acolhidos na Catedral da Sé, em São Paulo, com uma missa rezada por dom Paulo Evaristo Arns. No dia seguinte, encontrou a paz final ao seu sepultado, em Fortaleza, no jazigo da família.

O papel da Igreja na luta contra a ditadura

Em 1964, a Igreja foi uma das instituições que apoiou o golpe militar. Durante grande parte da duração do regime de exceção, foi aliada incondicional da ditadura. No entanto, alguns de seus setores foram solidários aos estudantes e militantes políticos, tanto é que um grupo de dominicanos aliou-se à ALN e passou a colaborar com a luta contra o regime vigente.

O rompimento definitivo da Igreja com o Estado ditatorial ocorreu quando não se pôde mais esconder a prática de tortura nos órgãos de repressão, especialmente logo após à prisão dos dominicanos e da Madre Maurina Borges, de Ribeirão Preto, torturada e violentada.

Durante muito tempo a Igreja fechou os olhos para os excessos cometidos pelo governo militar, somente quando foi tocada pelo ódio da tortura é que conseguiu enxergar o monstro que ajudou a criar.

Como Maomé, a Igreja só acreditou na existêncisa da tortura quando pôde conferir com seus próprios olhos do que ela era capaz. Pena que, enquanto isso, Frei Tito e tantos outros tenham que ter sofrido para que isso acontecesse.

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).

Contato: vangoncalves@gmail.com

ERRATA:

No artigo anterior erramos o nome do Gal. Castelo Branco, seu nome completo é Humberto de Alencar Castelo Branco.


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