Fundado em 16 de abril de 1932

...Macaé, ano I, Nº 28 - 4 a 11 de agosto de 2006
Não perca o Caderno R. Cultura, Educação e Entretenimento. Exclusivo para O Rebate on Line
Colunistas
Adriano Benayon
Almir da Silva Lima
Ana Cristina Gama
Andrei Bastos
Angela Maria
Antonio R. Nóbrega
Carolina Oliveira
Ceci Juruá
Ciro Campelo
Cristina Vieira
Daniel Felipe Matos
David Hugo Peczenik
Denise Barreto
Denise Calixto
Edson Monteiro
Farduim
Fabiana Madruga
Giulianna Medeiros
José Milbs
Langstain Almeida
Letízia Borges
Luanda Cozetti
Lúcio Aguiar
Manoel Barbosa Filho
Mariana Gama Soares
Marly Santiago
Milton Nunes Filho
Moctezuma Pinto
Monique Cruz
Patrick Francisco
Rodrigo Costa
Roque Weschenfelder
Rosana Campos
Rui Nogueira
Vanessa Gonçalves
Vera Lúcia Gama
 

Amor até as últimas conseqüências:
a luta de Zuzu Angel

Vanessa Gonçalves

"Srs. passageiros, dentro de poucos minutos passaremos no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, país onde se torturam e matam jovens estudantes (...)" . Uma declaração dessas, em plena ditadura seria uma audácia, se não fosse uma denúncia indignada de uma mãe que perdeu a vida para espalhar para todo o mundo o assassinato de seu filho na tortura.

Muito mais que um exemplo de coragem, a estilista Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, foi uma mãe determinada a dizer ao mundo como é cruel ter um filho assassinado sob torturas e não ter o direito de sepultá-lo com dignidade.

Longe de ser uma ativista política, Zuzu Angel era apenas uma estilista reconhecida do Brasil e no exterior preocupada em fazer o seu trabalho. Mas sua vida se transformou completamente em junho de 1971 quando teve conhecimento do desaparecimento de seu filho, o militante político Stuart Edgar Angel Jones, um dos principais dirigentes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

O início do fim

Stuart estudava Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro quando abraçou a causa da luta armada. Tornou-se um dos mais importantes dirigentes do MR-8 e foi personagem-chave nas articulações que levaram o Capitão Carlos Lamarca a deixar a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e entrar em sua Organização.

Era casado com Sônia Maria de Moraes Angel Jones que, posteriormente, teria uma morte tão violenta quanto a sua.

Aos 25 anos, Stuart foi preso no dia 14 de junho de 1971, no bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro, por volta das 9 horas, próximo da Av. 29 de setembro, por agentes do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica ( Cisa), para onde foi levado e torturado.

Ao cair a noite do mesmo dia, após inúmeras sessões de tortura e com o corpo maculado pelas agressões sofridas, Stuart foi amarrado à traseira de um jipe da Aeronáutica e arrastado pelo pátio com a boca colada ao cano de descarga do veículo, o que ocasionou sua morte por asfixia e intoxicação por monóxido de carbono.

O que a ditadura não contava é que tal cena grotesca teria uma testemunha: o também preso político do MR-8, Alex Polari de Alverga.

A revolta de uma mãe

Desde que soube da prisão, tortura e morte de Stuart, Zuzu Angel tornou-se uma áspera opositora do regime militar.

Aproveitando-se de seu prestígio como estilista, passou a denunciar a personalidades do mundo político, diplomático, cultural e das comunicações de vários países o desaparecimento de seu filho.

Os órgãos de segurança não sabiam como calar essa mulher, que possuída de tamanha indignação, se lançou em uma campanha de difamação do governo sem tréguas e utilizando formas de denúncia diferentes das usadas por familiares de militantes políticos.

Em 1975, Zuzu Angel recebeu uma carta-denúncia de Alex Polari em que soube com detalhes sobre o calvário de Stuart. Indignada e machucada pela dor de perder um filho em tais circunstâncias, conseguiu que o historiador Hélio Silva publicasse a carta de Alex no último volume da História da República e, logo, as denúncias de Zuzu Angel tiveram grande repercussão internacional.

Constantemente Zuzu Angel clamava pelo direito de receber o corpo do filho para sepultá-lo. Entretanto, seus apelos foram em vão.

Disposta a tudo, teve a oportunidade de furar a segurança do secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger e entregar-lhe o "Dossiê Stuart". A estilista acreditava que o governo dos Estados Unidos poderia pressionar a ditadura brasileira a dar-lhe maiores esclarecimentos pelo fato de Stuart ter dupla cidadania, uma vez que seu pai era norte-americano.

A repercussão das denúncias de Zuzu Angel incomodaram muito a repressão a ponto de a estilista ser alertada por militares descontentes com o governo de que os órgãos de repressão poderiam usar contra ela o "Código Doze", ou seja, em outras palavras: atentado simulando acidente ou assalto.

Sem medo de buscar a verdade

As ameaças de morte não abalaram as forças de Zuzu Angel. Embora temesse por sua vida, continuou a incessante busca pelo filho e a divulgação das denúncias contra a ditadura.

Sabendo que o fim de sua história poderia estar próximo, escreveu ao amigo e compositor Chico Buarque de Hollanda uma carta em que dizia ter recebido ameaças de morte por parte dos militares e, que, se algum acidente acontecesse com sua pessoa, certamente teria sido provocado pela repressão.

No início da madrugada do dia 14 de abril de 1976, Zuzu Angel saiu de uma festa guiando seu Karman Guia rumo sua casa. À saída do Túnel 2 Irmãos seu carro perdeu a direção e chegava ao fim sua vida. A ditadura acabava de calar mais um opositor.

Obviamente, o inquérito policial alegou que o acidente ocorrera porque Zuzu Angel dormiu ao volante. Para seus familiares e amigos havia a certeza de que o acidente teria sido provocado pela repressão.

Passaram-se muitos anos, até que em 1996, durante a análise dos casos da Lei 9.140 (Lei dos Desaparecidos) ficou provado que o acidente que culminou na morte de Zuzu Angel foi provocado pelo choque com dois carros que a jogaram fora da pista. A Comissão Especial da lei encontrou testemunhas do acidente na época. Enfim, mais uma das mentiras da ditadura caiu por terra.

Até os dias de hoje, o corpo de Stuart não foi entregue à família, o que sabem sobre sua morte está apenas no relato de Alex Polari.

Zuzu Angel morreu buscando mostrar ao mundo a dor de perder um filho na tortura.

Sua história acaba de virar filme (estréia dia 04/08 "Zuzu Angel"), mas sua saga foi contada e cantada por Chico Buaque na música em que fez em homenagem à amiga:

"Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar

Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez meu filho suspirar

Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele não pode mais cantar"

(Angélica - Composição: Miltinho/Chico Buarque)

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).
Contato: vangoncalves@gmail.com


Veja outros artigos de Vanessa Gonçalves

Configuração mínima: 800x600. Recomendamos o Mozilla Firefox. Clique aqui para baixar a versão 1.5
Criação e manutenção Artimanha