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O cadáver que faltava

Vanessa Gonçalves

"Pode-se dizer que tudo começou ali - se é que se pode determinar o começo ou o fim de algum processo histórico. De qualquer maneira, foi o primeiro incidente que sensibilizou a opinião pública para a luta estudantil. Como cinicamente lembrava a direita, era o cadáver que faltava".
(trecho do livro 1968 - O ano que não terminou, de Zuenir Ventura)

1968 é até hoje um mistério para todos que o estudam. Nunca um ano foi capaz de reunir em apenas 365 dias tantos acontecimentos importantes. Aparentemente, os jovens de todo o mundo estavam impregnados de sentimentos libertários, igualitários e revolucionários, que transformaram, definitivamente, os rumos da história. E, no Brasil, 1968 não foi diferente.

Até meados de 1968, estudantes, intelectuais, artistas e profissionais liberais ainda conseguiram sair às ruas e demonstrar sua insatisfação com a nova ordem política e com o cerceamento da liberdade de expressão.

No dia 28 de março, no Rio de Janeiro, alguns estudantes estavam organizando uma passeata-relâmpago que deveria sair do restaurante Calabouço a fim de protestar contra o preço e a comida do local. O Calabouço era um restaurante estudantil que oferecia refeição com um menor custo para os estudantes de baixa renda que dependiam dessa parca economia para sobreviver.

Por volta das 18 horas a tropa da Polícia Militar chegou ao local brandindo os cassetetes. Imediatamente os estudantes se dispersaram. Logo se reagruparam e partiram para cima dos soldados com paus e pedras, o que fez com que os soldados recuassem e a área em frente ao restaurante ficasse deserta.

Quando os soldados voltaram, iniciou-se um tiroteio, vindo da galeria do Edifício da Legião Brasileira de Assistência. Com os tiros, os estudantes fugiram em pânico, menos um: Édson Luís de Lima Souto.

Os policiais acreditavam que os estudantes iriam apedrejar a embaixada americana e invadiram o restaurante. O comandante da tropa da PM, o aspirante da polícia Aloísio Raposo, atirou e matou o secundarista Édson Luís: o primeiro estudante assassinado pela ditadura.

Longe de ser um líder estudantil, Édson Luís era somente um daqueles jovens que vinham do interior para tentar estudar no Rio de Janeiro. Nascido em Belém, no Pará, em 24 de fevereiro de 1950, era membro de uma família muito pobre. Começou seus estudos primários na Escola Estadual Augusto Meira, em sua cidade natal, mas mudou-se para o Rio de Janeiro e prosseguiu seus estudos secundários no Instituto Cooperativo de Ensino, que funcionava no Calabouço. Ao contrário dos líderes estudantis, Édson Luís não tinha elementos míticos para sonhar em ser o que acabou se tornando: um mártir.

Comoção Geral

Édson Luís era o cadáver que faltava para inaugurar no Brasil um novo processo histórico. Estudantes e todos aqueles que de alguma forma estavam envolvidos na luta contra a ditaduram puderam perceber isso, como relatou Alfredo Sirkis em seu livro Os Carbonários : "Desde a morte de Édson Luís, acabara o ar de brincadeira, o desprezo folclórico pelos meganhas se transformou em ódio para valer".

A morte de um estudante causou uma grande comoção social. milhares de pessoas participaram do enterro e da missa em homenagem a Édson Luís, principalmente pelo significado desse ato.

Os estudantes não cansavam de repetir: "MATARAM UM ESTUDANTE. PODIA SER SEU FILHO".

O Rio de Janeiro parou no dia do enterro do estudante. Como forma de protesto os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: A noite dos Generais , À queima-roupa e Coração de Luto . Os títulos dos filmes atraíram a atenção tanto da imprensa quanto dos agentes de segurança. Os cartazes soavam como uma alusão da realidade.

Duas horas antes do enterro a Cinelândia estava completamente tomada. Centenas de cartazes exibiam frases de protesto, como, por exemplo: "Bala mata fome?", "Os velhos no poder, os jovens no caixão" e "Mataram um estudante. E se fosse seu filho?".

E ao som do Hino Nacional cantado pela multidão, Édson Luís foi enterrado.

Embora o velório e o enterro tivessem causado grande repercussão e comoção, seria na missa de 7º dia que a ditadura realmente mostraria suas garras, provando a todos o seu poder.

Inesquecível, padres!

No dia 02 de abril, após o término da missa da manhã em homenagem ao estudante, na Candelária, as pessoas que deixavam calmamente a igreja foram surpreendidas com a cavalaria avançando sobre elas com os sabres desembainhados. Parecia uma operação diabolicamente orquestrada, pois não havia saída para as vítimas. Os que conseguiram fugir acabaram perseguidos por outros cavalos. O resultado dessa operação macabra foram dezenas de pessoas machucadas.

À noite haveria outra missa em memória de Édson Luís. E os generais tentaram impedir sua realização. Entretanto, o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, se negou a proibir a missa.

Preparados para o pior, os padres realizaram a missa para cerca de 600 pessoas. Porém, quando a missa estava no final, todos puderam ouvir inquietantes ruídos de cascos de cavalos misturados ao ranger de freios de viaturas policiais e ordens militares gritadas no lado de fora da igreja.

Todos imaginavam que o massacre da manhã se repetiria. Os padres, percebendo a movimentação dos policiais pediram para que ninguém saísse. Os que tentaram desobedecer ao pedido dos clérigos pôde constatar que a praça estava tomada: havia três fileiras de cavalarinos da PM com as espadas desembainhadas, não deixando dúvidas sobre sua disposição, e mais atrás estava o corpo de Fuzileiros Navais, enquanto os agentes do DOPS completavam o cerco mais adiante.

Num ato de coragem, os padres saíram na frente. Ao chegar à porta os clérigos deram as mãos, formando duas correntes e no meio delas iam todos participantes do ato religioso. Os padres permaneceram na rua Rio Branco até a última pessoa passar.

Emocionado, o escritor Otto Maria Carpeaux proferiu a marcante frase: "Inesquecível, padres!".

Apesar do esforço dos padres, as pessoas foram atacadas na Cinelândia pelos cavalarinos, que despejaram todo o ódio contra a multidão.

A morte de Édson Luís foi o primeiro dos inúmeros atos de violência que se encerraria com o Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968. Faltava um cadáver para iniciar o processo de destruição da oposição à ditadura. Édson Luís seria apenas o primeiro de muitos estudantes a morrer impunemente.


Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).
Contato: vangoncalves@gmail.com


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