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'...Macaé, ano I, Nº 45 - 8 a 15 de dezembro de 2006
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Torturador à beira da morte.
Justiça seja feita!

"Se você treme de indignação perante
uma injustiça no mundo,
então somos companheiros."
(Ernesto Guevara)

Abro uma exceção essa semana e, ao invés de falar sobre a ditadura militar no Brasil, o foco será o general Augusto Pinochet e o Chile. Não seria por menos. A notícia de que Pinochet está à beira da morte faz com que pensemos em sua história e na história do Chile.

O dia 11 de setembro de 1973 seria um dia normal para o povo chileno se o general Augusto Pinochet não tivesse comandado o golpe militar que feriu a democracia e fez com que o país passasse por seu pior pesadelo.

A queda de Salvador Allende significou mais do que a derrota da idéias socialistas pregadas por ele. A queda de Allende deixou os chilenos órfãos de ideais e entregues aos mandos e desmandos de um ditador sangüinário.

Como todas as ditaduras implantadas na América Latina nas décadas de 60 e 70, a ditadura chilena foi bastante violenta. Deixou como saldo 3.000 mortos/desaparecidos e cerca de 21 mil cidadãos marcados pela tortura.

Ao contrário de outras ditadoras latino-americanas que teve mais de um comandante, Pinochet foi o único comandante de todo o período de exceção no Chile. E pareceu gostar disso.

Buscando dizimar qualquer tipo de oposição a seu governo - dentro e fora do país -, criou a "Operação Condor" (com o apoio de outros países do Cone-Sul, como, por exemplo, Argentina, Uruguai e Brasil, entre outros), que perseguiu e assassinou opositores dos governos ditatoriais em vários locais do mundo.

O governo militar sob o comando de Pinochet dirigiu uma nação acuada pelo medo. A sociedade chilena, aterrorizada com a violência do Estado sequer esboçou a criação de algum movimento de protesto contra a ditadura, afinal de contas, qualquer um, por menor que fosse sua ligação com a oposição, poderia parar no campo de concentração improvisado no Estádio Nacional. O medo era tamanho que mais de 1 milhão de chilenos partiram para o exílio no período.

Um governo militar que teve como essência a repressão provocou marcas profundas na sociedade só saiu de cena no fim da década de 80, quando o cenário mundial se modificou e não houve mais jeito de Pinochet continuar no poder.

Foram 16 anos de assassinatos, perseguições, torturas e desaparecimentos e, mesmo assim, uma parcela da sociedade chilena ainda admira e reverencia a figura do ditador, tanto é que rezam e fazem vigília pela recuperação de Pinochet. E depois dizem que o povo brasileiro não tem memória. É incompreensível ver que há pessoas que possam ter piedade por tal pessoa.

Pinochet, que estava em prisão domiciliar pelo seqüestro de dois opositores na "Caravana da Morte," uma missão militar que realizou execuções nos primeiros anos de seu governo, agora recebe atendimento médico de primeira categoria, tem a prisão domiciliar revogada e sua dor atenuada. Injusto, não?!

Será que ao menos uma de suas vítimas teve esse privilégio? Óbvio que não. Após serem seqüestrados, padeceram na mão dos torturadores sem uma única chance de se defender. Mas Pinochet, chefe da tortura e dos campos de concentração recebe esse "presente" por conta de sua triste obra.

Irônico destino. Chilenos fazem vigília pelo ditador, mas não se compadecem com as famílias dos mortos e desaparecidos políticos. Será que essas pessoas viviam num país diferente à época?

Será que Pinochet, no fim de sua vida será dispensado da responsabilidade pelo sangue chileno derramado no passado só porque está velho e doente? Sinceramente espero que não.

Pinochet, como qualquer ser humano, mereceria tratamento humanitário, mas não acredito que alguém que tenha comandado tantas torturas e assassinatos tenha um mínimo de humanidade para merecer tal tratamento.

Seria justo que sofresse como tantos cidadãos chilenos que padeceram sob a dor da tortura. Seria justo que não tivesse ninguém para velar por sua pessoa como todos aqueles que morreram sozinhos e desamparados.

Enfim, resta a esperança de que o povo chileno saiba fazer a justiça, mesmo após a morte de Pinochet, afinal de contas, está na hora de escrever uma outra história.

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).

Contato: vangoncalves@gmail.com

* Leitores, quem tiver material sobre Eduardo Collen Leite (Bacuri), por favor, me envie, pois estou escrevendo um livro sobre ele. Ou quem o conheceu e estiver disposto a dar um depoimento, entre em contato. Obrigada.


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