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'...Macaé, ano I, Nº 36 - 29 de setembro a 6 de outubro de 2006
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A luta armada em questão

Vanessa Gonçalves

"Os amores na mente, as flores no chão,
A certeza na frente, a história na mão,
Caminhando e cantando e seguindo a canção,
Aprendendo e ensinando uma nova lição,
Vem, vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer"
(Pra dizer que não falei das flores
Geraldo Vandré)

Analisar a luta armada hoje e apontar seus erros estratégicos, ou até mesmo sua ingenuidade é muito fácil. O distanciamento do momento histórico sempre nos dá maior clareza para analisar friamente todos os pontos prós e contras da adoção dessa opção por parte da esquerda brasileira durante as décadas de 60 e 70.

Mas será que quem não viveu todos aqueles acontecimentos é realmente capaz de analisar a validade ou não dessa opção? Enfim, é uma questão complexa, mas não impossível de ser discutida e respondida.

Vejamos, a opção pelas armas feita por uma parte da oposição ao regime militar tem sido constantemente analisada e criticada erroneamente. Não podemos pensar nas esquerdas dos anos 60 e 70 sem fazer uma análise do contexto sócio-político-econômico da época que a produziu.

De fato, fora daquelas circunstâncias, nos parece um grande desatino a opção de armar-se para iniciar a guerrilha, hipoteticamente o primeiro passo para realizar a revolução brasileira, por isso é importante recordar as particularidades históricas daquele período.

Em termos internacionais, foram vitoriosas ou estavam em curso inúmeras revoluções de libertação nacional, como por exemplo a Revolução Cubana (1959), a independência da Argélia (1962) e a guerra antiimperialista em andamento no Vietnã. O êxito dessas revoluções é essencial para compreender as lutas e o ideário contestador de toda essa geração, inclusive a brasileira, dos anos 60 e 70: povos subdesenvolvidos rebelando-se contra as grandes potências mundiais para criar o tão sonhado mundo novo. Além disso, Revolução Cubana, tão próxima dos latino-americanos, se apresentava como uma esperança para todos os habitantes do continente, inclusive para os brasileiros.

Nesse entremeio de mudanças, questionava-se o modelo soviético de socialismo, que se mostrava incapaz de levar às transformações sociais, políticas e econômicas necessárias para se chegar ao comunismo. Em contrapartida, o processo de "revolução cultural proletária" em andamento na China, a partir de 1966, se apresentava aos jovens de todo o mundo como uma resposta ao modelo soviético.

Por toda parte surgiram movimentos de protesto e mobilização política, especialmente em 1968: desde as manifestações contra a guerra do Vietnã nos Estados Unidos, passando pela Primavera de Praga na Tchecoslováquia e o maio libertário dos estudantes e trabalhadores franceses em repúdio ao massacre de estudantes no México, até a alternativa pacifista dos hippies , o desafio existencial da contracultura e os grupos de luta armada espalhados mundo afora. Criativamente, fundiam-se os sentimentos e as práticas de rebeldia contra a ordem e a revolução por uma nova ordem.

Afora os fatores internacionais, os aspectos da política nacional marcaram profundamente as lutas das esquerdas brasileiras nos anos 60. O processo de democratização política e social, com a mobilização social pelas chamadas "reformas de base" fora interrompido pelo golpe de 1964 e deu fim às crescentes reivindicações de operários, camponeses, estudantes e militares de baixa patente, cuja politização ameaçava a nova ordem estabelecida. Gradualmente, a ditadura anulou diversos direitos adquiridos pelos movimentos sociais. Aliada a isso, a proibição de manifestações e greves e a dissipação desses movimentos através da violência policial-militar acabaram extinguindo todos os canais institucionais de atuação social e política, especialmente após o "golpe dentro do golpe" oficializado pelo AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968. Além disso, a profunda indignação com o golpe de 1964 e, principalmente, com a falta de resistência imediata a ele tornaram-se a raiz da constituição da luta armada.

Nesse panorama, a resistência armada apresentou-se como o último recurso para os que ficaram sem espaço de atuação institucional (política, sindical, profissional etc.) e, até mesmo, para os privados da atividade em que se expressavam, como o caso de diversos jornalistas calados pela censura imposta aos meios de comunicação.

A opção pela resistência armada enraizou-se no final da década de 60 e a razão para essa escolha mostra-se bastante evidente no trecho de um documento de Carlos Marighella de dezembro de 1968: "Violência contra violência. É a única saída fazer o que estamos fazendo: utilizar a violência contra os que tiveram a primazia em usa-la para prejudicar os interesses da pátria e das massas populares".

Em meio ao refluxo dos movimentos populares desmantelados pela repressão, surgiram uma série de grupos que encarnaram essa posição de Marighella, como a ALN liderada pelo próprio, o MR-8 e a VPR do capitão do Exército Carlos Lamarca, que não só procuraram combater a ditadura, como também reorganizar os movimentos populares. A principal fonte de recrutamento de militantes para essas organizações estava no meio estudantil, berço do único movimento de massas rearticulado nacionalmente nos primeiros anos pós-64, se lançando significativamente em protestos de rua, especialmente em 1968.

A luta armada no Brasil

No Brasil, o projeto da guerra de guerrilhas era anterior ao golpe de 64, ou seja, vinha desde o princípio da década de 60, estimulado pela Revolução Cubana e materializava-se, principalmente, nas Ligas Camponesas de Francisco Julião.

Os grupos armados brasileiros pós-64 não pretendiam opor-se fundamentalmente à ditadura. A esquerda em armas também tinha como projeto acabar decisivamente com a exploração de classe. Com a instalação de um regime militar, a ação dos grupos armados tomou forma de resistência à ditadura, que restituiria a ordem democrática e possibilitaria que os grupos avançassem em seu projeto de libertação nacional, como ressalta Cid Benjamim, em relato colhido pelo historiador Marcelo Ridenti para a obra "O Fantasma da Revolução Brasileira": " (...) o movimento armado tinha uma perspectiva de mudança, de se fazer uma revolução, reestruturar a sociedade, muda-la realmente, tirar os militares e também acabar com qualquer exploração".

Embora a esquerda armada brasileira tivesse como objetivo principal a instauração de uma sociedade mais justa, houve uma grande fragmentação em diversos grupos devido às divergências como:

•  o caráter da revolução - para uns a revolução seria nacional e democrática numa primeira etapa, para outros ela teria imediatamente o caráter socialista;

•  as formas de luta revolucionária mais adequadas para chegar ao poder - uns acreditavam na via guerrilheira nos moldes cubanos do foquismo, outros defendiam o cerco das cidades pelo campo nos moldes maoístas da Revolução Chinesa e, ainda havia os que achavam que a melhor forma seria a insurreição popular;

•  e, qual o tipo de organização política seria construída - discutia-se bastante sobre a necessidade ou não de um partido nos moldes leninistas da III Internacional.

Por outro lado, essas organizações apresentavam alguns aspectos incomuns como: a prioridade revolucionária de ação armada contra o imobilismo de partidos como o PCB e a interpretação do processo irreversível de estagnação da economia brasileira. Para elas, somente um governo popular, ou mesmo socialista, possibilitaria a retomada do desenvolvimento nacional. Essa análise dava as condições objetivas para a revolução, faltando apenas as subjetivas, que seriam forjadas por uma vanguarda revolucionária armada, que criaria as condições para deflagrar a guerrilha a partir do campo - considerado o local mais adequado para as atividades revolucionárias por sofrer profundamente a espoliação e a miséria, bem como apresentar maiores dificuldades para os órgãos repressivos.

Para iniciar a guerrilha rural, mostrava-se necessário conseguir armamentos e dinheiro. Por isso, vários grupos empreenderam ações urbanas, como a expropriação de bancos, carros e armas.

Com o aperfeiçoamento do aparelho repressivo, efetuando prisões e cometendo diversos arbítrios, como a tortura, o assassinato e o desaparecimento dos opositores políticos, ocorreu uma "imersão geral na luta armada", como explica Ivan Seixas: " Houve sempre uma alegação (...) de que a nossa ação violenta justificava a ação violenta deles [os militares] . Primeira coisa: eles deram um golpe violento. Segunda coisa: eles mataram sem ninguém ter dado um tiro. E o que nós fizemos foi reagir. A luta armada só vai acontecer em 67, três anos depois [do golpe] , não é no primeiro momento. A violência deles já existia".

Como se pode ver, a escolha pela luta armada ocorreu diante de todo um fenomenal e rico contexto sócio-político-econômico-cultural. Criticar essa escolha atualmente sem observar os pormenores desse período histórico mostra-se um grande equívoco, principalmente para os que nunca viveram sob o manto da ditadura.


* Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro "Através das sombras, acima do silêncio".

* Todas as fotos desse artigo são da autoria de Evandro Teixeira/Jornal do Brasil.

Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).

Contato: vangoncalves@gmail.com


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