Antônio Raymundo Lucena:
o Doutor da VPR
"Muitos me chamaram de aventureiro e o sou, só que de um tipo diferente: dos que entregam a vida para provar as suas verdades".
(Che Guevara)
Este artigo é dedicado aos vencedores: Damáris, Telma, Ariston, Adílson, Denise, Naim e Antônio Raymundo Lucena. Exemplos de vida e Amigos para todo o sempre. |
 |
Antônio Raymundo de Lucena nasceu em Colinas, no Maranhão, no dia 11 de setembro de 1922, filho de José Lucena Sobrinho e Ângela Fernandes Lima Lucena. De família humilde, sofreu bastante com as mazelas causadas pela pobreza. Começou a trabalhar ainda criança. Aos 8 anos, começou a ter problemas na visão e passou a usar óculos, porém logo largou a escola, pois tinha muita vergonha das brincadeiras maldosas dos colegas com relação à sua visão. Acabou ficando praticamente analfabeto.
Aos 12 anos perdeu a visão de um dos olhos. Sofreu uma úlcera fortíssima e o globo ocular saiu em sua mão. A partir disso, passou a usar um olho de vidro. Apesar de não ter continuado os estudos, Antônio era uma pessoa bastante inteligente e habilidosa. Por conta disso, recebeu dos conhecidos a alcunha de "Doutor". "O meu marido era um homem muito inteligente. Se tivesse estudado seria um grande engenheiro", observa Damáris de Oliveira Lucena, companheira dos momentos de dor, alegria e militância.
Quando jovem passou a trabalhar no campo. Nesse período já revelava sua preocupação com o próximo. Antônio organizava a colheita e sugeriu ao patrão doar a cada trabalhador uma cesta com um pouco do que se colhia naquela plantação. Por causa dessa atitude era muito benquisto pelos outros trabalhadores.
Aos 18 anos casou-se pela primeira vez, porém logo se separou por razões que nem a segunda esposa tem certeza. Triste com o fim do casamento, mudou-se para Caxias, também no interior do Maranhão, para trabalhar em uma fábrica. Nessa indústria conheceu Damáris e logo se casaram, meio a contragosto da família dela.
Com pouco mais de um ano de casamento nasceu o primeiro filho do casal, no dia 31 de maio de 1949. Com dificuldades para sustentar a família, Antônio Raymundo mudou-se para Fortaleza para trabalhar como servente de pedreiro na construção do banco Sul América. Como o trabalho era muito pesado, não agüentou. Logo seu padrinho o ajudou, arrumando-lhe um emprego em uma tecelagem.
Quando já fazia quase oito meses que estava em Fortaleza, Damáris foi a seu encontro com o filho pequeno. Chegando na cidade não sabia que o marido estava com viagem marcada para São Paulo, onde pretendia arrumar um emprego melhor. Antônio não contou nada a ela e pediu para que voltasse para o Maranhão, pois dentro de alguns meses mandaria buscá-la.
Em março de 1950 tomou um caminhão pau-de-arara rumo a São Paulo. Quando estava na capital paulistana há dois meses mandou buscar a mulher e o filho. Estava trabalhando na Indústria Jafet como cardista, onde logo em seguida Damáris também trabalharia.
Por conta da penosa viagem e da subnutrição, o filho do casal morreu: "nosso filho morreu praticamente de fome, porque passou muita fome no Maranhão, pois eu não tinha recursos. Ele [Antônio] veio para cá [São Paulo], coitado, e não podia mandar dinheiro porque estava juntando para mandar nos buscar. E eu, em meio a muita luta, trabalhava para poder comprar uma lata de leite em pó para o menino. Era um sacrifício muito grande. A criança praticamente morreu de fome. Quando chegamos aqui o menino estava muito magrinho, muito raquítico e logo pegou sarampo. Naquela época não tinha vacina, e a criança muito fraca, muito anêmica, não resistiu e morreu. Isso foi um abalo muito grande para nós", com tristeza Damáris relembra o fato.
Para Antônio, que gostava muito de crianças, a morte do filho tornou-se um grande trauma. Só não sofreu mais porque se apegou à sobrinha, filha de seu irmão, a quem passou a tratar como se fosse sua filha .
Para a felicidade do casal, em 1951, Damáris engravidou novamente. Trabalhou durante toda a gestação, contando agora com o auxílio das freiras que lhe indicavam a melhor maneira de se tratar durante a gravidez. No dia 06 de outubro de 1951, nasceu Ariston, como narra Damaris: "
A inserção na militância
Antônio e Damáris logo ingressaram na militância sindical. Ele no sindicato dos metalúrgicos e ela no dos têxteis. Segundo Damáris, naquele tempo filiar-se ao sindicato tinha algumas vantagens: "O sindicato naquela época compensava devido a determinados benefícios para os sócios".
Em 1952, compraram um terreno em São João Clímaco e começaram a construir uma casa. Nesse local conheceram uma família do Paraná que estava em São Paulo fugindo da repressão, porque eram comunistas. A convivência com estas pessoas despertou ainda mais o sentido de justiça em Antônio e Damáris e, logo perceberam que desejam a mesma coisa pleiteada pelos comunistas. Em 1954, ingressaram no PCB.
O casal passou a trabalhar mais ativamente como sindicalistas e também dentro do partido. No PCB passaram a ter contato direto com Pedro Pomar, João Amazonas e outros importantes líderes do partido.
Em 1955, Damaris ausentou-se do trabalho durante cinco dias para participar da Conferência Nacional das Mulheres, no Rio de Janeiro. Porém, ao regressar, foi demitida acusada de insuflar as outras operárias.
A militância do casal no Partido Comunista resumia-se à panfletagem, venda de livros e na arregimentação de novos militantes. Esse engajamento durou até o golpe de 31 de março de 1964, quando pediram afastamento de suas atividades por tempo indeterminado, pois já discordavam da postura adotada pelos comunistas diante do golpe militar, como lembra o filho Ariston Lucena, ex-militante da VPR: "(...) ele [Antônio] se afastou do partido, por causa de algumas divergências, porque achava que o partido estava numa linha política que não tinha nada a ver com o que ele pensava".
Ainda em 1964, Antônio aposentou-se por invalidez. Com a família crescida, agora eram quatro filhos (Ariston, os gêmeos Denise e Adílson e a caçula Telma), procurou outra alternativa de trabalho. Fez um dia de treinamento na Clock e passou a consertar panelas de pressão na feira. Damáris tirou habilitação e comprou uma perua para facilitar o transporte do material de trabalho. Ficaram um bom tempo afastados da militância cuidando somente da vida e da família. No entanto, em 1967, voltaram a se interessar pela política. "Em 67, começaram a sair da cadeia os sargentos que tinham sido presos na época do golpe. Os sindicatos ainda estavam em pé e foi aí que conhecemos alguns companheiros recém saídos da prisão. Além disso, através do sindicato e de alguns companheiros, conhecemos e ingressamos num grupo de resistência à ditadura, que era a VPR. Ingressamos nesse grupo que tinha vários companheiros, inclusive o capitão Lamarca", comenta Damáris.
A luta armada
Em 1967, o casal ingressou na VPR, onde militaram até 1969. Passaram a conviver com pessoas bastante importantes na luta contra a ditadura: Carlos Lamarca, Darcy Rodrigues, Pedro Lobo, Iara Iavelberg, Bacuri entre outros.
Devido à militância, moraram em diversos lugares: Praia Grande, Cidade Ocean, Embu-Guaçu e Atibaia. Participaram de algumas ações, mas nada que pudesse colocar em risco a estrutura da organização colocada a cargo do casal no aparelho em que moravam.
Na casa de Doutor e Damaris ficava guardado todo o material da VPR, desde armas, fardas, livros, documentos internos, dinheiro e companheiros perseguidos. Grande parte das armas e da munição expropriada do quartel de Quitaúna, bem como parte do dinheiro do assalto ao "Cofre do Adhemar" ficaram sob responsabilidade do casal.
Nunca precisaram do dinheiro da organização para sobreviver. Tinham uma banca na feira, responsável pelo sustento da família. Em Atibaia, moraram no Jardim das Cerejeiras, bairro um tanto afastado do centro da cidade, tentando parecer uma família normal. Damáris circulava livremente pela cidade, nunca deixando de ajudar os vizinhos em suas aflições. Doutor, procurado, vivia mais reservado, sem sair muito para evitar o perigo. Entretanto, recebiam constantemente a visita dos outros companheiros.
A convivência com a nata da militância da organização despertou em Ariston, filho mais velho, o desejo de engajar-se também. No início, houve uma certa discordância com relação a isso, mas logo depois os pais e o comando da VPR aceitaram a integração de Ariston no quadro de militantes. No início, Ariston apenas cumpria tarefas simples, como levar companheiros a reuniões, buscar armas, etc. Sua primeira grande participação se deu num dos mais importantes capítulos da história da VPR: a guerrilha do Vale do Ribeira. Na realidade, a intenção ainda não era lançar um foco guerrilheiro no campo, mas sim realizar um treinamento para colocar em prática tal plano. Era final de 1969, mal sabia Ariston que não veria mais o pai com vida.
A tragédia
Atibaia, 20 de fevereiro de 1970:
"Era mais ou menos três horas da tarde e eu estava ensinando a lição das crianças. Estava chovendo. Era um dia muito frio. Na casa tínhamos um portão de madeira. Eu sempre fechava o portão, mas nesse dia o portão ficou entreaberto. Aí eles entraram, pararam o carro lá no meio da rua, lá longe, e entraram. Eram 7 policiais e esse sujeito [delator responsável pela queda do aparelho da VPR em que morava a família Lucena] . Bateram na porta assim [com força] e a chave caiu e eu tomei um susto. Eu abri e vi dois policiais. Meu marido estava dormindo. Perguntaram:'- Cadê seu marido?'. Eu respondi: '- Está dormindo.' Então eles disseram: '- Nós queremos falar com ele'. Aí eu olhei a porta do banheiro e vi mais dois caras pela janela. Eu sei que no total eu vi seis. Aí chamei meu marido e falei: '- Tem dois policiais aí'. Meu marido estava sem camisa, saiu e eu não vi o que ele falou para eles. Eles perguntaram para mim se o carro era nosso: '- Cadê os documentos?'. Eu respondi: '- Ta aí'. Nós realmente tínhamos os documentos do carro. E esse carro, depois nós ficamos sabendo, que era de uma pessoa daquela região que estava sendo procurada. Foi a questão do carro. A questão desse homem que era um vigilante da polícia. E nós achamos que foi esse homem que abriu a casa. Meu marido saiu. Quando ele voltou já foi o pipoco de fogo. Foi o tiroteio, foi uma coisa desigual, porque ele estava sozinho".
"Aí o tiroteio. Quando eu abri a porta deram o tiro de misericórdia na cabeça dele. Eu dei um grito, esse aí [Adilson] também viu que tinham matado o pai. Eu com a menina no braço, a pequenininha [Telma]. A menina ficou agarrada assim em mim. Aí eles pularam dentro de casa. Tinha dois feridos lá fora. Eu não vi, não vi mesmo. Porque olhei para lá e só vi o meu marido quando levou o tiro na cabeça. O tiro bateu na cabeça dele, ele estava sentado, aí eu vi que o pé dele fez assim [tremeu], ele tomou aquele susto. Ele ainda estava vivo, mas como o tiro foi na cabeça, foi o tiro de misericórdia, porque eu vi o sangue escorrendo no peito dele. Então eu fui para dentro e eles me mandaram sentar. Aí colocaram o FAL em cima de mim. Aí esse homem disse: '- Eu não falei pra vocês. Eu sempre falei para vocês e vocês não queriam acreditar em mim'. Eu pensei: '- Ah, é esse aí o delator. É esse que abriu'".
"Depois disso eu não fiz mais nada. Eles gritavam: '- Mata ela também e os filhos dela. Mata ela e os filhos dela também'.
O homem a quem Damáris se refere como sendo o delator chama-se Valter e provavelmente era um agente policial. No inquérito sobre a prisão de Damaris e morte de Antônio Raymundo consta que esse indivíduo declarou ver constantemente uma mulher magra, com uma criança, descer de uma perua e ir até um boteco, e que o marido ficava dentro do carro. Segundo Damáris, a descrição feita por ele é correta, por isso acredita que ele tenha entregado o aparelho no qual moravam.
Além disso, outra história, inventada para justificar o forte cerco policial, afirma que a empregada da família havia revelado que eles eram traficantes de droga. O que é mentira, pois nem empregada o casal tinha.
Na verdade, os policiais certamente sabiam do envolvimento do casal com a luta armada, porém não dimensionavam o que iriam encontrar no aparelho. Depois de uma vida de luta para sobreviver e para libertar seu povo da miséria, Antônio Raymundo Lucena estava morto.
Damáris foi presa e torturada. Só saiu da prisão quando foi banida com seus filhos para o México, juntamente com mais quatro companheiros: Otávio Ângelo, Diógenes José de Carvalho Oliveira, Madre Maurina Borges e Chizuo Osava (Mário Japa) por causa do seqüestro do cônsul japonês. No dia 15 de março de 1971, arrebentada, sofrendo com a morte violenta do marido, Damaris e os filhos chegavam ao México.
Logo ao chegar ao México, Damaris e os filhos foram convidados pelo comandante Fidel Castro para morar em Cuba e prontamente mudaram-se para lá. Passaram dez anos na ilha socialista, longe de Ariston que, logo ao sair do Vale do Ribeira, foi preso e ficou detido durante nove anos. Só retornaram ao Brasil após a anistia.
A luta por justiça
Assim que retornou ao Brasil, a família de Antônio Raymundo passou a lutar incessantemente para fazer com que o Estado assumisse a responsabilidade pela sua morte, bem como para tentar localizar seus restos mortais.
Muito pouco pôde ser apurado sobre a morte de Antônio. Algumas informações afirmam que foi enterrado numa fossa com ácido, juntamente com outras ossadas de desaparecidos políticos no cemitério de Vila Formosa. Apesar da busca constante, até hoje a família não encontrou seu corpo.
Durante os trabalhos da Comissão Especial para analisar os casos que seriam incluídos na Lei 9.140, a responsabilidade do Estado sobre a morte e ocultamento dos restos mortais de Antônio Raymundo Lucena não foi assumida. O relator do caso argumenta o seguinte sobre a execução sumária de Antônio:
"A versão familiar, contudo, não é confirmada pela prova material disponível. O exame necroscópico informa a existência de nove disparos de arma de fogo (apenas um orifício de saída), cinco na face anterior do tórax, um no abdome, dois no braço direito e um no ombro esquerdo. Não faz qualquer referência ao tiro desferido na têmpora.
Os depoimentos dos familiares, isoladamente, não formam a convicção necessária para se concluir por uma execução. São depoimentos marcados por intensa e compreensível dor e não se harmonizam com as outras evidências dos autos.
O fato de sua mulher ter sido posteriormente conduzida ao Dops, onde foi brutalmente torturada, não altera a ordem dos acontecimentos. O fato de em outros processos ter ficado caracterizada a inconsistência da versão oficial não autoriza a conclusão de que a falsidade constitui uma regra absoluta.
Diante das evidências de que Antônio Raymundo Lucena foi atingido durante tiroteio travado com policiais da Força Pública da cidade de Atibaia, hipótese em tese não contemplada pela Lei 9.140/95, destinada ao reconhecimento de pessoas mortas apesar de detidas ou sob o domínio de agentes da repressão, e da inexistência de prova, nos autos, de que ele foi executado sumariamente, voto pelo indeferimento do pedido".
O depoimento que o relator se refere como sendo marcado por intensa e compreensível dor é o de Telma. Com apenas três anos, ela acompanhou a execução do pai. Devido à pouca idade, as pessoas não acreditam em seu depoimento, o que causa bastante indignação a ela e a sua família: "Já falei tantas vezes e sempre fica aquela coisa: mas uma criança de 3 anos e meio não vai lembrar, é criança de mais, não tem como lembrar! Eu lembro sim, eu lembro perfeitamente! É claro que tudo aconteceu numa fração de segundos e talvez o que eu conto seja um pouco mais grandioso porque é uma reminiscência infantil, o fato, a cena propriamente dita. Mas eu lembro perfeitamente. Os anos vão passando e eu também gostaria de esquecer. É a coisa que eu mais queria era poder esquecer disso, mas se eu esqueço disso, eu estou esquecendo da memória do meu pai. Eu estou esquecendo da razão pela qual ele deu a vida, eu estou esquecendo do ideal que ele teve, eu estou esquecendo que a vida dele não foi dada por uma causa individual, a vida dele era por uma causa coletiva, por uma coisa que ele acreditava".
Após entrar com recurso, a família Lucena obteve a indenização por conta da Lei 9.140. Mas as injustiças sobre o caso de Antônio Raymundo Lucena não param por aí. Recentemente, no processo impetrado pela na Comissão de Anistia, a família teve grande parte da indenização diminuída, pois os peritos que analisaram o caso afirmam que "Doutor" foi perseguido apenas durante 2 anos e merece somente o equivalente a isso. De certa forma, há uma espécie de mortos de primeiro, segundo e terceiro grau. Como se um fosse mais importante que o outro, esquecendo-se de que todos os que foram à luta armada contra a ditadura brigavam justamente por igualdade.
Antônio Raymundo em poucas palavras
"Eu resumiria o meu pai assim: o meu pai foi um ser humano que acreditou em uma causa coletiva. Meu pai não é meu pai. Meu pai lutou por todos os filhos, não desse país, mas da humanidade. E o que eu mais poderia te dizer é que quando pensamos na figura pai, remetemos a tanta coisa... Podemos ter um pai dentro de casa que não signifique absolutamente nada, um pai ausente, um pai que não cumpre o seu papel. É muito fácil ser pai. O pai é aquele que a tua mãe reconhece e te apresenta como sendo seu pai e nisso o meu pai pode ter certeza de que ele é nosso pai, porque o meu pai é lembrado todos os dias das nossas vidas. Nós, todo dia 20 de fevereiro, fazemos um minuto de silêncio para o meu pai. Nós fazemos um minuto de silêncio não para o pai, marido da minha mãe e pai desses cinco filhos (Telma contabiliza nessa soma Naim, filha de Soledad Barret Viedma, criada por Damáris quando da morte da mesma em emboscada armada pelo Cabo Anselmo) que ficaram aqui, é o pai que deu a vida por um ideal, por uma ideologia, por uma coisa que ele acreditava. É um pai que permitiu que essa democracia que está aqui hoje fosse possível, que nós tivéssemos o direito de conversar com um jornalista e contar a nossa história. Eu acho que isso é um legado que ninguém pode te tirar. Eles tiraram a vida do meu pai, não nos pouparam do sofrimento, fizeram com que passássemos amargura, dor, constrangimento, mas há uma coisa que eles não puderam tirar que o meu pai deixou para os filhos: dignidade. Nós podemos levantar a cabeça e dizer: somos filhos do Antônio Raymundo Lucena; e isso não tem preço. Eles podem calar a voz dele, mas as idéias dele se multiplicaram com a morte, e isso é extraordinário: você saber que o seu pai morreu por uma coisa que ele acreditava e que a família continua acreditando e que a família vai perpetuar os ideais dele. Então isso é o que me deixa aliviada, porque quando podemos falar, não temos nada para nos envergonharmos, muito pelo contrário. Eu quero que ele seja lembrado como aquele nordestino pobre, analfabeto, lutador, uma pessoa que sofreu todo tipo de preconceito, mas que venceu todos os preconceitos a ponto de se meter numa causa coletiva que possibilitou a democracia em que nós vivemos hoje", finaliza Telma.
* Este artigo é uma adaptação de um dos capítulos do livro: "Através das sombras, acima do silêncio".
Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).
Contato: vangoncalves@gmail.com
Veja outros artigos de Vanessa Gonçalves |