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...Macaé, ano I, Nº 24 - 7 a 14 de julho de 2006
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Vanessa Gonçalves

Até quando haverá, no Brasil, mulheres que não sabem se são viúvas; filhos que não sabem se são órfãos; criaturas humanas que batem em vão em portas implacavelmente trancadas, de um Brasil que julgávamos isento de tais insanidades?

(Tristão de Athayde)

Há 42 anos o Brasil mergulhava num dos períodos mais sombrios de sua história. Durante pouco mais de duas décadas o que imperou no país foi a violência, o medo, a tortura e a incerteza sobre a vida, especialmente para aqueles que ousaram se opor à ditadura implantada pelos militares.

O endurecimento do regime a partir do fim de 1967 e, especialmente, em 1968, com a instauração do Ato Institucional nº5 (AI-5), fez eclodir uma porção de grupos armados clandestinos dispostos a derrubar a ditadura: Ação Libertadora Nacional (ALN), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Movimento Revolucionário - 8 de outubro (MR-8), Partido Comunista do Brasil (PC do B), entre outros.

Nas fileiras dessas organizações estiveram presentes homens e mulheres corajosos que almejavam devolver ao povo brasileiro a direção do país, bem como acabar com a desigualdade que assolava - e ainda assola - o Brasil.

Num tempo de Guerra Fria, os militares tinham pavor da implantação de um governo comunista e/ou socialista no Brasil. Diante disso, combateram com força total esses grupos clandestinos de esquerda armada. O resultado desse tempo de sombras não poderia ser outro senão a morte e desaparecimento de centenas de brasileiros.

Muitas dessas mortes ainda hoje estão sem solução. Pouco se sabe sobre o que realmente ocorreu nos porões da ditadura.

Entretanto, no dia 4 de novembro de 1990, um dos grandes segredos da época foi revelado. Tratava-se da vala comum do Cemitério Dom Bosco, em Perus - São Paulo, onde estavam enterradas 1.049 ossadas. Dentre essas ossadas muitas pertenciam a ex-militantes, até então desaparecidos desde a ditadura.

Um segredo descoberto duas vezes

A Vala de Perus foi descoberta duas vezes. A Comissão dos Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos sabia da existência da vala desde 1979, porém, vivendo ainda sob o véu da ditadura, tornou-se impossível fazer algo para torná-la pública.

A segunda descoberta da Vala de Perus deu-se por acaso. No Instituto Médico Legal (IML) o jornalista da Rede Globo, Caco Barcellos, investigava para seu livro Rota 66: a história da polícia que mata casos de mortes cometidos por policiais. Ao verificar os arquivos, Barcellos percebeu que alguns laudos continham uma letra "T" em vermelho. Para seu espanto, esses laudos eram de presos políticos, muitos deles ainda desaparecidos.

Em uma investigação discreta, Barcellos procurou os membros da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e juntos realizaram buscas para encontrar o local exato da vala. Em conversas com antigos funcionários do cemitério descobriram a localização da vala e os métodos utilizados para a ocultação desses corpos.

Com o apoio da prefeitura de São Paulo a Vala de Perus foi aberta e uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada na Câmara Municipal de São Paulo uma a fim de apurar os responsáveis pela mesma.

Novo drama

A abertura da Vala de Perus significou uma vitória para os familiares de mortos e desaparecidos políticos, mas também o início de um novo drama.

Desde a abertura da vala, a prefeitura de São Paulo firmou um convênio com o Governo do Estado e a Universidade de Campinas (Unicamp) para realizar a identificação das ossadas. No entanto, essa parceria que, à primeira vista mostrava-se promissora, tornou-se uma pedra no caminho da resolução do caso.

A equipe da Unicamp à época era chefiada pelo legista Dr. Badan Palhares. Porém, ao longo dos anos, Palhares mostrou-se indiferente à tarefa atribuída, sem contar que há indícios de que tenha sido pago por ex-funcionários da repressão para dificultar a identificação das ossadas. O descaso foi tamanho que as ossadas não estavam acondicionadas da forma correta, e muitas delas foram danificadas a ponto de não existir mais a possibilidade de sua identificação.

Para solucionar a questão, em 2001, o Ministério Público de São Paulo determinou a transferência das ossadas para o IML de São Paulo sob a responsabilidade do professor de medicina legal da Universidade de São Paulo (USP), Dr. Daniel Munhoz. E parece que essa foi a melhor solução.

Na abertura da Vala de Perus foi possível identificar os restos mortais de dois ex-militantes: Frederico Eduardo Mayr (militante do Movimento de Libertação Popular - Molipo - baleado e preso pelos agentes do DOI-CODI/SP no dia 23 de fevereiro de 1972, na avenida Paulista, em São Paulo e desaparecido desde então) e Dênis Casemiro (da VPR, l ocalizado e preso pelo delegado Sérgio Fleury, em fins de abril de 1971. Trazido para o DOPS/SP, foi torturado por quase um mês, sendo fuzilado pelo próprio delegado Fleury, em 18 de maio de 1971). Nessa mesma época constatou-se que em covas individuais estariam supostamente enterrados: Hiroaki Torigoe (militante do Molipo, b aleado e preso pelo DOI-CODI/SP, em 5 de janeiro de 1972) , José Luiz da Cunha , Flávio de Carvalho Molina (do Molipo, p reso no dia 6 de novembro de 1971, em São Paulo, por agentes do DOI-CODI/SP, em cuja sede foi torturado até a morte) , Francisco José de Oliveira (militante do Molipo, assassinado no dia 4 de novembro de 1971, na Rua Turiaçu, em São Paulo) , Dimas Casemiro (do Movimento Revolucionário Tiradentes - MRT- assassinado sob torturas em abril de 1971) e Grenaldo de Jesus Silva (morto em 30 de maio de 1972, no Aeroporto de Congonhas, quando tentava seqüestrar um avião) .

Após muita luta, no dia 02 de setembro de 2005, 15 anos após a abertura da Vala de Perus, a ossada de Flávio de Carvalho Molina foi identificada, reacendendo assim as esperanças dos familiares de cerca de 160 militantes políticos que desapareceram durante o regime militar. A ossada de Flávio Molina é a terceira a ser identificada entre as 1.049 que foram encontradas em 1990.

Recentemente, no dia 28 de junho do corrente ano, foi anunciada a identificação da ossada de Luiz José da Cunha, ex-dirigente da ALN, morto a tiros aos 29 anos de idade numa emboscada preparada pelo DOI-CODI, em 13 de julho de 1973.

Após contar essa longa história pergunto-lhes: Por que no Brasil a situação dos desaparecidos políticos ainda não teve solução? O que impede o governo, em todas suas instâncias, de solucionar essa questão? Que interesses a identificação dessas ossadas poderiam estar ferindo?

Enfim, se pudesse, colocaria aqui inúmeras questões que, como as perguntadas acima, não têm resposta. O que sabemos é que a Vala de Perus é a prova das atrocidades cometidas pela ditadura. E que, embora os familiares desses mortos e desaparecidos não contem com apoio do governo e da sociedade para elucidar esses mistérios que assombram suas vidas há mais de 30 anos, essas ossadas falam muito. E não serão silenciadas facilmente.

Um país para ter futuro tem que resolver as questões do passado. E enquanto o Brasil não solucionar isso, certamente haverá um irmão, filho, sobrinho, pai ou mãe buscando revelar a verdade.

A Vala de Perus é como uma cova rasa.quando menos se espera, descobre-se os seus segredos.

A luta dos familiares de mortos e desaparecidos políticos não é uma luta em vão, muito menos individual. Deveria ser uma luta da sociedade que precisa conhecer seu passado para construir seu futuro. Reflitam sobre isso!


Vanessa Gonçalves da Silva é jornalista formada na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e mestranda em História Social na Universidade de São Paulo (USP) onde realiza uma dissertação sobre o papel e a importância das mulheres na luta armada no Brasil (1964-1985).

Contato: vangoncalves@gmail.com

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