Surrealismo Político e Econômico
Rui Nogueira
Especial para O Rebate on-line
Medico escritor pesquisador
Correio Eletrônico - rui.sol@ambr.com.br
O surrealismo caracteriza-se pelo desprezo das construções refletidas e perda dos encadeamentos lógicos.
Com certeza, temos hoje, no Brasil, de uma maneira muito generalizada, estados mórbidos, absolutamente incoerentes, envolvendo um sem número de atividades em que nós, homens comuns, apenas eleitores, fora dos negócios de estado ou empresarias, não conseguimos encontrar o mais leve toque de coerência, reflexão, nem descobrir qualquer lógica tranqüilizadora.
De repente, aparece no noticiário uma proposta de compra da VARIG por quatrocentos milhões. Para todos nós a VARIG é uma gigantesca empresa com muitos aviões, linhas aéreas para todo mundo. Isto é para ser vendido por 400 milhões? Não paga um avião. Isto é assenhorear-se de um gigantesco patrimônio comprando meia dúzia de papéis - pirataria. Hangares, oficinas, escritórios, instalações em aeroportos, revisão de turbinas, centro de treinamento de pilotos, em quantos anos brasileiros construiram todas estas estruturas? Agora vem o "gringo" travestido de "investidor" e leva tudo pelo preço de um aviãozinho?
A escola surrealista na literatura vale-se freqüentemente, da psicanálise, dos remexidos no inconsciente.
Na surrealista gestão política econômica de hoje o consciente coletivo amortecido pela omissão de informações, acaba sobrepujado pelas memórias inconscientes incutidas nas mentes pela propaganda. Todos nós acabamos vitimados, prisioneiros das construções estereotipadas da propaganda. Estados mórbidos absolutamente incoerentes são aceitos. "Em vez de se matar sede com água pura, potável, bebemos água poluída: água, muito açúcar, tinta - corantes, aditivos, sabores artificiais submetidos que somos às sórdidas propagandas (refrigerantes).
"Esta bebida é maravilhosa!" "tomou conta do mundo" "tem grande aceitação".
Galbraith, prêmio Nobel de Economia, recém-falecido, em recente livro, "Economia das fraudes inocentes" afirma que o consumidor não é o rei do mercado, aquele que indica o que vai ser comprado e conseqüentemente produzido, porque hoje, as grandes empresas transnacionais dominam, também, os meios de comunicação e induzem nas populações o que vai ser consumido e isto é feito na direção de seus interesses.
Nas residências não se bebe água do serviço público, filtrada mas dos garrafões comprados. Nas mesas dos restaurantes não há jarra com água filtrada e gelada. - Quer água? Com gás ou sem gás? Logo perguntam. Água tem que ser comprada...
Os bebes não são amamentados como deviam. Amamentação: alimento e carinho juntos é substituída por mamadeiras de leite em pó "cientificamente preparado sem contato manual (Nestlé) propaganda de interesse comercial contrariando até um instinto saudável e natural.
Galbraith diz em seu livro: são fraudes que são nada inocentes.
A Agência Nacional de Petróleo, escondida atrás dos ecos e gritarias comemorativas dos torcedores brasileiros ante a conquista do titulo de cinco vezes campeão mundial de futebol, leiloa um campo de petróleo em que a Petrobrás investira 100 milhões pela mísera quantia de cem mil - preço de um apartamento sem luxo num subúrbio do Rio. Surrealismo puro. Absoluto desprezo por qualquer decisão refletida. Algum noticiário? Extremamente escasso.
Nada mais surrealista que o comércio internacional. Nele, os compradores é que estabelecem os preços dos produtos naturais, minérios, grãos, açúcar, café... e não o produtor. É como se fossemos à padaria e tentássemos comprar pãozinho a um centavo. - " O nosso preço" isto não conseguimos mas os países dominantes com demonstrações de força (armada) ameaças de bloqueios e conivência traidora de pseudo-dirigentes dos países em desenvolvimento impõem os preços que vão adquirir as matérias primas e produtos agrícolas (sempre muito baixos).
Uma simples latrina higiênica num lugarejo de duas ruelas em pleno agreste nordestino. É traje cômico vê-la financiada, na sua construção, pelo poderoso Banco Mundial. O município com muito pouca renda é, então obrigado a desviar recursos do Fundo de Participação dos Municípios, o seu principal recurso de sobrevida, para pagar a dívida em dólar. Um surrealismo total pois tudo das obras é pago em real, moeda nacional. Surrealismo mesmo é que este empréstimo é feito num Banco Mundial que só consegue emprestar U$$ 30 Bilhões por ano, em todo mundo, quando, no mesmo ano, pagamos U$$ 145 Bilhões de juros.
Com tanto recurso para pagar divida pedimos dinheiro ao pobretão (BM) sacrificando até as nossas populações mais pobres. Surrealismo... |