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...Macaé, ano I, Nº 27 - 28 de julho a 4 de agosto de 2006
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A VOZ DO PAI

Entrou pela porta resoluto, cumprimentando a secretária, pedindo se o patrão está. Recebeu a informação de que ele está ocupado.

•  O que o senhor quer com ele?

•  Falar sobre uma vaga que tem nesta firma!

- Mas isso tem de tratar com a Sra. Berenice, lá na "Fiction". É ela que faz a avaliação dos currículos e entrevista os candidatos.

- Aquela megera? Lá não adianta ir. Ela só recomenda os "queridinhos" dela. Eu preciso trabalhar, tenho dois filhos pequenos e gosto de tratar com o chefe direto, "olho no olho"!

- Lamento! Mas não posso encaminhá-lo para o Sr. Carlos, são normas da firma. Até nem sei de vaga.

•  Mas deu no rádio que tem uma vaga para carpinteiro.

•  Então não custa o senhor ir até a "Fiction" e deixar seu currículo.

- Que currículo, que nada! Quero é falar direto com o homem. Eu sei trabalhar, posso dizer onde já fui empregado e ele me conhece. Já jogamos futebol juntos. Acha que vou escrever isso em curriculo. Se levo papel lá prá aquela ..., desculpe não posso dizer o apelido, ela enfia numa gaveta e esquece. Depois vai para o lixo seco. É puro desperdício de tempo, papel e tinta. Afinal, seu Carlos está ou não está?

•  Pois não está. Ele só vem à tarde. Está inspecionando as obras.

•  Será que foi ver aquele prédio novo, lá na avenida Rebouças?

•  Deve passar por lá!

Agradece e vinte e dois minutos depois está no prédio novo da Av. Rebouças. Resoluto vai direto ao recepcionista na entrada.

•  No que posso ajudá-lo?

•  Seu Carlos já passou aqui hoje?

•  Ainda não!

•  E ele virá?

•  Não sei lhe dizer. Mas é quase certo!

•  Posso esperar aqui?

•  Mas, o que seria?

•  Quero falar com ele sobre a vaga.

- O senhor tem de falar com a Sra. Berenice, na "Fiction". Ela indica os candidatos a vagas desta firma.

•  Que pena! Mas, posso esperar aqui por seu Carlos?

•  Poder, pode. Mas, não vai adiantar nada!

- Se não adiantar, também não atrasará. A Berenice quer currículo para guardar nas gavetas dela. Isso é que é o atraso!

•  Pode esperar aqui na frente!

Passa meia hora, passa das dez, chega a ser onze horas e nada do Sr. Carlos aparecer.

•  Seu Carlos acaba de ligar que não virá hoje.

A fala do recepcionista acorda-o de seus devaneios. Vai para casa resoluto. Fala com a mulher sobre o incidente, brinca com os pequenos, ajuda nas tarefas da casa. Após o almoço retoma a tarefa da manhã. Caminha para não gastar com ônibus o que não tem. Faltam dez para uma e meia. Aguarda na porta onde já está a recepcionista que viu pela manhã e mais dois rapazes do escritório. Aos poucos outros três funcionários chegam. "Estes estão com seus trocos de fim de mês certos", pensa. Uma senhora de mais idade chega e abre a porta, todos se encaminham a seus postos.

Aguarda mais longos quinze minutos. Finalmente pára um carro, quase novo. É seu Carlos que desce, vem em direção da porta, onde está aguardando. O homem faz menção de passar por ele.

•  Seu Carlos, um momento!

- Oh, Marcos! Que prazer! Quanto tempo. E a família, como vai? Quando vamos bater uma bola outra vez?

•  Qualquer tarde dessas! Só depende do senhor!

•  Pois tenho estado muito ocupado. Mas,vamos marcar para sábado?

•  Pode ser, só que eu preciso falar outra coisa com o senhor.

•  O que é?

•  Sabe, a vaga que noticiaram na rádio?

•  Não sei! Acho que a Berenice já indicou alguém!

•  Mas o senhor não tem certeza! Não pode ver e quem sabe deixá-la para mim?

•  Pois é, Marcos. É ela que arregimenta nosso pessoal.

•  Mas não somos amigos, seu Carlos. E a Berenice nunca vai me indicar.

•  Deixa prá mim. Só aguarde um pouco.

O homem entra no escritório. Mais de meia hora depois a recepcionista chama:

•  Passe lá com o Sr. Carlos.

Um súbito alívio apossa-se dele. Entra e seu Carlos diz-lhe que deve ir até a "Fiction" para cumprir as formalidades, mas que a vaga é sua.

No final da tarde volta para casa com a carteira assinada. Inicia amanhã os serviços de carpinteiro no novo prédio da Av. Rebouças. A voz de seu finado pai ressoa mais uma vez em seus ouvidos: "Só a persistência faz um homem alcançar o que quer!"

Roque Aloisio Weschenfelder

Obs.: Crônica que obteve Menção Honrosa no Concurso Literário "Modesto de Abreu" realizado pela Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro - ACLERJ, em 2005.


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