A RAINHA MILAGROSA
Roque Aloisio Weschenfelder
Metáfora, prima rica da literatura, tantos tributos a ela se rende, tanto lirismo dela se colhe, que, mesmo sem perceber, o escritor-autor sempre se lhe queda. Na selva emaranhada das figuras de linguagem e estilo é ela que se sobressai como uma árvore frondosa.
"O manto estrelado encobre a noite, a luz de teus olhos é o sol da minha vida, o rosto é o espelho da alma, tuas palavras são o rumor dos meus pecados,..." Expressões como essas são rotineiras, quase catacresadas, e ainda ornam poemas e crônicas, quase que ingênuas. Enquanto as emoções impregnam com versos singelos a poesia, a prosa ressente-se da dificuldade em ser genial, sem ser banal. Pode o poeta fazer metafóricas construções, encobrir o dito-escrito a todo momento, enquanto contistas, cronistas e romancistas precisam ser claros e diretos e, se quiserem que seus textos sejam literatura de qualidade, o todo deve ser uma grande metáfora de algum aspecto da vida.
Está a metáfora no perfume usado, na canção entoada e no copo derramado. Engloba um trio amoroso, um conflito de gerações, uma fumaça branca sobre a Capela Sixtina do Vaticano. Quem falar em "amor" torna essa palavra a copa da árvore. Dor, tristeza, saudade, lágrimas e felicidade, eis alguns exemplos da sinestesia que alimenta o cabadal metafórico dos artistas da palavra expressa, tanto na escrita como na musicada.
O construir belezas, o manusear linguagens, o despertar paixões, tudo reveste-se de literariedade, engalana-se de figuras para impressionar e arrancar do recôndito das almas sensíveis os suspiros aprisionados pelas agruras da realidade nua e crua que se apresenta no diário viver. Não é possível ondular os cabelos dos carecas, mas pode-se ver a lua cheia no crânio lustroso. Ninguém restitui os olhos a um cego, mas consegue-se fazer que ele enxergue com os olhos da alma. Sem as metáforas morreria a fé na esperança e sumiria a crença nas utopias.
No reino das palavras a rainha e sua corte preocupam-se unicamente em engalanar os textos com as vestes mais luxuosas possíveis. Ao desobedecer suas ordens o usuário deixa de ser cortesão e vira um plebeu do mundo materializado, consumista, desalmado. Não perceber a presença de tais figuras faz um leitor ficar alheio ao sentido do belo e faz perdê-lo o gosto pela leitura. Com isso instala-se em seu íntimo uma tristeza que o leva à depressão. Então ele vai ao médico que lhe receita remédios para comprar na farmácia. Só o fato de ter de tomar pílulas e infusões insossas aumenta sua tristeza e impede que se cure.
Conheço um médico que receita livros para doentes com depressão. Pede que os leiam e diz que custam menos caros do que remédios da farmácia. Consegue excelentes resultados e seus clientes não querem se curar para poder freqüentar seu consultório, que é uma verdadeira metáfora. Ele é intimo amigo da rainha e de suas cortesãs. Apresenta-as a seus clientes sem citar seus nomes, mas faz que esses se tornem íntimos delas. Em tal aprazível companhia ocorre a cura das dores da alma, se restaura a auto confiança e a libido, um verdadeiro milagre que permitiria a canonização do médico ainda em vida.
Os milagres operados por ele devem-se à arte dos autores dos livros que ele receita aos clientes, ao sábio emprego das metáforas nas construções dos textos e na impregnação delas, nas histórias contadas, como um todo.
Sem metáforas poderiam ser fechadas as academias, as bibliotecas, os museus, as casas de espetáculos. Também este texto não teria razão de existir.
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