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...Macaé, ano I, Nº 24 - 7 a 14 de julho de 2006
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O CORAÇÃO EXPOSTO

Roque A. Weschenfelder

São quase oito horas. Anelise sai apressada para chegar pontualmente a seu posto. Pensa na tarefa de recepcionar os clientes e deixá-los à vontade enquanto aguardam para serem recebidos pela gerente da financeira. Sabe que sua jovialidade contagia quem entra na repartição. Muitas das aflições de quem procura socorro monetário são esquecidas durante o tempo de espera. Alguns clientes, quando comparecem a primeira vez, estão extremamente tensos e bastante preocupados com o fato de que precisam solucionar os problemas financeiros conseguindo um empréstimo. As dúvidas a respeito das exigências cadastrais e a possível exigência de avalistas atormentam a quem, normalmente, já é um devedor e cuja única saída é obter um financiamento para saldar outra dívida já assumida.

Ao sair para a rua nesta manhã de segunda-feira, Anelise tem a sensação de que algo está errado. Embarca no ônibus e nota que as pessoas a observam. Todos olham para seu busto. Confere, mas nada parece anormal.

Desembarca próximo ao escritório. Abre a porta e prepara o ambiente para o trabalho da manhã. A gerente chega sempre meia hora mais tarde. Confere a agenda e verifica que estão marcadas cinco entrevistas até o meio dia. Liga o computador e o conecta à Internet. Lê os "e-mails". Nada de importante que mereça resposta imediata.

Aciona o som ambiental e volta a sentir algo que a perturba. O peito parece estar aberto. Pensa nos passageiros do ônibus e em como a observaram; interessante que ninguém comentou. O que teriam visto de anormal? O que estaria acontecendo?

Uma senhora de meia idade, que estivera no escritório na sexta-feira, entra e saúda-a com toda a cordialidade. Olha atentamente para Anelise e recua um passo. Parece espantada. No momento seguinte senta-se na poltrona e fica calada. Evita encarar a recepcionista. Folheia algumas revistas, porém não se atém à leitura alguma. Parece constrangida e bastante perturbada.

- Como passou o fim de semana? - A pergunta de Anelise parece acordá-la de um sonho.

- Como todos os outros dos últimos meses: sozinha e sem dinheiro para um programa melhor.

•  Com certeza Ana Lúcia resolverá esse problema!

•  Deus queira!

•  Aceita um cafezinho?

•  Obrigada! Minha gastrite não permite!

Passam-se alguns longos minutos em que ambas ficam em silêncio. Somente o som é audível. A sensação perturbadora volta ao peito de Anelise.

Não demora e chega Aldo, o cliente que ligou na sexta, às cinco, prestes a encerrar o expediente. Ao avistar a atendente tem um sobressalto, mas se aproxima. Senta na poltrona indicada e aguarda calado. Olha fixo para o quadro surrealista na parede.

A cabeça de Anelise fervilha. Desde a saída de casa notou a reação das pessoas

quando a encaravam. O que teria acontecido de errado que causasse tanto espanto? Por que não falavam abertamente? O que estariam vendo?

Há ainda aquela estranha sensação que ela própria sente. O peito parece estar aberto e o coração à mostra. E se for verdade? Por que ninguém menciona o fato?

A manhã avança, o escritório enche e nada de Ana Lúcia. Teria ocorrido um imprevisto? Por que não liga? Anelise tenta acalmar os clientes. Às vezes isso acontece na segunda-feira! O fim de semana cheio de programas. A patroa é ótima pessoa. Ela tem muitos amigos. É certo que teve companhia até tarde. O atraso na segunda-feira é normal. Ela não tardará em vir!

Consegue com que todos os clientes fiquem, finalmente, à vontade. Já estão assumindo o domínio da situação. Já falam de política e futebol. Já comentam as alterações que o novo Presidente implantará a partir de 1° de janeiro. Também criticam a situação do futebol do sul do Brasil. Quantos times da região têm chances de classificação? Quantos e quem serão os rebaixados? Ou na última hora todos os mortos e feridos se salvarão? Haverá virada de mesa?

Anelise amarra a maria-chiquinha. Os cabelos soltos não se enquadram na hora do trabalho. Poupa-lhes a sensualidade para as saídas noturnas com os amigos.

O coração palpita mais forte quando pensa em Luís Cláudio. É ele que mora bem próximo da região nobre, a azul, de seu coração. É por ele que pulsam os sentimentos mais vibrantes. É ele que ocupa os espaços da mente quando o trabalho dá tréguas.

Ana Lúcia finalmente chega e atende os clientes, um a um. Todos têm autorizados seus pleitos de socorro financeiro. Recebido o despacho final cada qual vai

se retirando, não sem uma olhada mais fixa ao peito de Anelise.

A tarde passa monótona. Anelise permaneceu no centro. Comeu um hamburguer numa lancheria, na hora do meio dia. Ana Lúcia liga para avisar que somente comparecerá se vier algum cliente que tenha muita urgência, caso contrário, deve voltar amanhã ou ligar para zero meia dois, um meia cinco, sete meia oito, seis três.

A tarde acaba sem maiores novidades e sem ligações de importância.

Anelise encerra o expediente na hora e vai até a parada costumeira do ônibus. As duas moças que aguardam olham para os lados e cochicham algo inaudível. Ela sente um tremor angustiante. E uma sensação de queimadura invade o peito.

O ônibus pára mas o cobrador impede-lhe a subida.

•  Por favor, aguarde o próximo carro!

•  Anelise não entende, mas não faz objeção.

Em casa a mãe ferve de nervosismo. O que houve de errado? Por quê, agora, flores do jardim ornamentam o monasteiro? Quem são os mentores dessa novidade? Ao ver Anelise, ela grita:

•  Filha, olha o coração!

Agora a mãe também! Desata a chorar.

Instantes depois, a moça mais calma, encontram-se na sala de estar.

- Olhe-se no espelho. Veja seu peito. O coração está à mostra. Meu Deus, o que aconteceu? Como você consegue andar assim por aí?

•  Mas não sinto nada, mãe!

Mira-se no grande espelho da sala. Observa sua blusa. Está tudo normal. O que a mãe e as outras pessoas estariam vendo. Como ela fala em coração à mostra?

- Diga uma coisa, mãe! Meu Deus, por que a senhora está tão branca? - Anelise ampara-a e sacode-a. A mulher abre os olhos como se acordasse de um longo sono, após um terrível pesadelo.

•  O coração, olhe o coração, Ane! - balbucia e desmaia outra vez.

A jovem chama por socorro e uma vizinha acorre. Imediatamente chama o esposo para levar a mulher ao pronto socorro. Anelise chora com medo de que a mãe possa morrer. Ajuda a levá-la ao carro. Vai junto até o hospital. Preocupados em atender a desfalecida os enfermeiros mal notam a presença da filha. Em minutos a mãe volta a si, mas balbucia palavras desconexas. O plantão examina-a e constata nada de mais grave. Por descargo de consciência interna-a para fazer exames cardíacos mais acurados. Quando olha para a moça ele mesmo sente-se enfartar.. Vê o coração no peito aberto. Espanta-se por vê-la tão bem. Entende o motivo do mal estar da mãe dela. Resolve inquiri-la:

- Desde quando seu coração está exposto no peito aberto? Por que não está internada? Como não sente dores?

Anelise só não ri por causa da situação da mãe.

- Sabe, doutor, que não entendo mais nada. Hoje, desde cedo, as pessoas ficam me observando meio curiosas, mas não falam nada. Volta e meia tenho uma sensação estranha como se o peito estivesse aberto, mas, nenhuma dor. Já olhei no espelho e não vi coisa alguma de errado. Parece que só os outros podem ver meu, digamos, estigma. Foi por isso que mamãe desmaiou, acho!

•  Com certeza! Mas, deixe-me examiná-la melhor!

•  Faça o favor, doutor!

Ordena que tire a blusa. Ela obedece.

•  É incrível! Agora não dá para ver nada! Pode vestir a blusa.

- Nunca vi coisa semelhante. Aí está outra vez. O peito aberto e o coração exposto!

O doutor libera-a e afirma que, no máximo em duas horas, sua mãe estará em casa. Anelise agradece e sai. A enfermeira informa que a mãe está a aguardá-la no quarto dezoito. Está se recuperando rápido e já fala normalmente. Súbito, ao encarar a jovem ela cai ao chão. É socorrida de imediato pelas colegas.

Anelise sai do hospital, pega um táxi e vai para casa. Por sorte o motorista mal olha para ela. Ao chegar na residência pega um dinheiro para pagar a corrida. Só então o homem ao volante a encara e diz algo que ela não entende. Arranca o carro e afasta-se em alta velocidade. Ela entra em seu quarto e troca de roupa. Veste um blusão escuro e pede para a vizinha buscar a mãe.

•  Não posso mais sair sob pena de enlouquecer a cidade toda.

•  Mas, por quê, Anelise?

•  Por causa do meu coração!

Só agora a vizinha nota o coração visível e desprende um grito.

•  Quem foi que fez isso para você?

•  Isso, o quê?

•  Quem a agrediu e deixou nesse estado?

•  Ninguém. Não sofri e nem sinto nada!

•  É espantoso! O coração exposto! O peito todo aberto!

Chama o marido e saem para buscar a mãe da moça. Deixam-na ali, parada, toda abismada.

Volta ao quarto e tira o blusão ficando apenas de soutien. A mãe chega meia hora mais tarde. Ao vê-la abraçam-se e ela nada nota de estranho. Parece nem perceber que a filha está sem blusa.

À noite dormem sem janta. A mãe alega uma dor de cabeça e Anelise não sente fome. Continua perplexa.

Muito depois da meia noite o cansaço a domina e finalmente pega no sono. Sonha que a felicidade está grande demais e não cabe toda em seu coração. Este aumenta de tamanho e o peito se abre. Agora toda a felicidade consegue espaço nele. O amor prometido por Luís Cláudio, o sucesso no trabalho, as amizades, a juventude, a saúde, tudo enche o jovem coração de felicidade. Repleto, ele precisa se mostrar às outras pessoas, mas ela mesma não necessita vê-lo. É ela a dona dele! Quando se veste, a elegância salta aos olhos e demonstra seu estado de espírito; somente de soutien, esses detalhes ficam ocultos e o coração se recolhe a seu espaço normal no peito. Ela acorda e procura entender o sentido do sonho, mas as lembranças parecem esvair-se rápido demais. Não consegue mais pregar um olho até o clarear do dia.

Na manhã seguinte usa uma roupa pouco comum para um dia de trabalho. Usa um vestido longo, como se fosse a um baile. Carrega na maquiagem. Despede-se da mãe.

Ao entrar no ônibus nota os olhos de todos fixos em seu traje. Mas ninguém olha seu peito. O estigma parece ter desaparecido.

No escritório recebe os elogios de um cliente galanteador. Os demais parecem indiferentes. Ana Lúcia, sempre ocupada nem repara na sua apresentação.

O dia passa rápido.

No final da tarde chega em casa feliz por estar livre dos transtornos do dia anterior. Toma o banho costumeiro e quando olha no espelho para vestir-se, vê o próprio peito aberto e o coração exposto. A felicidade ultrapassou outra vez os limites e agora é ela que nota o fato. Usa rápido o soutien e uma blusa. Mira-se outra vez no espelho. A imagem continua a mesma.

Arranca o espelho da parede e o joga ao chão. Um caco de vidro atinge seu rosto e gotas de sangue pingam sobre seu peito.


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