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...Macaé, ano I, Nº 23 - 30 de junho a 7 de julho de 2006
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UM DIA QUALQUER

Roque Aloisio Weschenfelder

O dia acorda como qualquer outro com sua aurora e seus ruídos. Saio para o trabalho pensando nos minutos e nas horas que não serão minhas.

Trabalho como nos demais dias do mês. Bem depois das onze horas sinto que chegou o momento de assumir o trabalho que servirá unicamente para meu sustento. Mais de três horas serviram para os compromissos com a pátria.

Se a pátria não quisesse ser tão paternal, se sua estrutura não tivesse tantos pontos frágeis, se muitas tranqueiras não retivessem em demasia os recursos que deveriam ser destinados a servirem ao bem comum, eu poderia até servir todas essas horas com prazer, mas não é como eu gostaria que fosse.

Ao meio dia paro e penso na dificuldade de reaver uma requisição indevida. A tecnologia serve muito bem para apoderar-se do que a lei me obriga a entregar de mão beijada. Na reparação da falha, que assim mesmo ocorre, o caminho passa por pedras grandes, por arbustos espinhentos. A lei é cruel para punir os meus enganos, mas benigna demais para reparar os males que sofro.

O dia vai pela tarde espichando em horas a mais. Dessas, parte também não me pertence. Obrigo-me a sacrificar descanso e lazer para poder sobreviver. O juro agiota praticado na antiga Pindorama não permite tomar empréstimo sob pena de me sufocar de vez. Queria tanto sentar e ler um livro, buscar momentos para melhorar a cultura, mas é preciso obrar no período a mais. A firma tem encomendas a entregar, é preciso acelerar. No fundo me alegro um pouco: o contracheque pode sair um tanto mais generoso.

Chegou a hora de parar. Não há mais arrebol a contemplar. Quero ir para casa, estou exausto. Embarco no ônibus e sento, fechando os olhos. O veículo desloca-se no costumeiro sacolejar até próximo de casa. Desço. Várias lâmpadas da luz pública estão apagadas. Caminho alguns passos.

"Alto lá, isto é um assalto". Recebo um paulada na cabeça e caio ao chão. Quando acordo estou sem a carteira de onde me tiraram a única nota de dez, com que compraria leite e pão na padaria da esquina, para os dois pequenos e a esposa, que não trabalha porque não há vagas na creche para as crianças.

Chego em casa, ainda tonto da paulada que levei e sujo do barro da rua. Está tudo escuro. A luz foi cortada, havia expirado o prazo de tolerância da companhia.

Bato na porta. Está tudo quieto. Uma vizinha me chama, a esposa e as crianças estão com ela. Os ladrões levaram tudo e só não fizeram mal a meus amores porque não houve reação. A polícia foi alertada, mas não veio até agora passadas quase duas horas.

Abraço a família e saio a caminhar em seguida, sem rumo, Dou duas voltas pelo quarteirão, metade escuro. Um carro da polícia chega em alta velocidade, pára, sou preso e levado à delegacia. Só pela madrugada sou liberto. O advogado da empresa conseguiu comprovar que eu não era um dos assaltantes de minha casa e de mim mesmo.

Roque Aloisio Weschenfelder
Santa Rosa - RS
professor e escritor

Obs. Crônica premiada no Concurso Literário Felipe de Oliveira na cidade de Santa Maria - RS em 2005.

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