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'...Macaé, ano I, Nº 37 - 6 a 13 de outubro de 2006
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Quintais e rezadeiras

Robson Luy

Certas idéias ficam pipocando na minha cabeça e percebo que pensar dói um
pouco. Quando penso em cultura na Baixada Fluminense fico confuso e me dá
até tonteira.  Cultura não é só arte e arte não é só o que se vende.
Existem manifestações não reconhecidas e existe também um aculturamento
promovido pela mídia.  E não acho que isto seja um outro tipo de cultura. 
É aculturamento mesmo, é o vazio.

Nunca esqueço de quando era animador cultural no Ciep de Heliópolis, em
1993, um dia promovi um show de calouros nas turmas pra discutirmos
diversas formas de música.  TODAS as crianças só conseguiam lembrar da
"chuva no telhado" de Chitãozinho e Xororó. "Quando você chegar, com sua
roupa molhada...", um clássico no melhor estilo pornotel (pornô + hotel). 
Parecia que estava num pesadelo.  O dia foi passando e em cada turma eu
tentava mas só saía "chuva no telhado".  Descobri que eles só conheciam
esta música.

Quando eu era pequeno, eu sabia "meu limão, meu limoeiro", a do Topo
Giggio, as músicas iê-iê-iê, a "Luciana" da Evinha, "atirei o pau no gato"
mas também sabia os tangos, as guarânias e os boleros que meu pai ouvia, os
Beatles, as músicas francesas, italianas que meus irmãos gostavam.   No
rádio, tinha a "Ave Maria" às 6 horas da noite sagradamente, o Inspetor
Silva e seu parceiro chinês, o Teatro de Mistério, as radionovelas, o
Haroldo de Andrade e o Omar Cardoso.



Lá em casa tinha pouco dinheiro, mas tinha um monte de irmãos, amigos,
primos, vizinhos, um monte de bichos (cachorro, gato, pato, marreco, ganso,
cabrito, cavalo, vaca, passarinhos;;;), um monte de plantas (cajá,
laranjeira, goiabeira, carambola, limoeiros, fruta-de-conde, sapoti, jambo,
tinhorão, beijo, margarida, papoula, pinheiros, pimenteira...) e uma vida
cultural farta, alimentada pelo passado de meu pai, que foi peão da
fronteira no Rio Grande do Sul, fumava cachimbo, tomava chimarrão na cuia e
adorava música e livros.  Tínhamos uma tia casada com um alemão e sua casa
ficava na Europa, ou seja, na vila de funcionários da Bayer. Lá tinha casas
que nem de cinema, cerca branca de madeira, caixa postal no portão,
gramado, floresta de coníferas, telefone, parede lisa e pintada, móveis
nunca vistos, eletrodomésticos ainda nem inventados. Meu primo tinha um
trenzinho elétrico todo iluminado que ocupava uma mesa grande com uma
cidadezinha e luzes que acendiam. Tínhamos amigos alemães e japoneses de
Itaguaí, um espião italiano amigo de meu pai morando em nossa casa (Seu
Álico) e o povo de Belford Roxo.  Isso é que era globalização.

MInha avó materna, Iracema, era filha de uma índia que foi caçada no mato
por um português bisavô meu, em Pernambuco. Ela chamava-se Iracema
Cavalcante e dizia que era prima de Tenório, o dono da Lurdinha. Minha avó
jurava que os Demônios da Garoa tinham usado seu nome numa música trágica
deles porque eram amigos de seu marido, meu avô, que era filho de um casal
de franceses e vivia trazendo os músicos da Rádio Nacional pra tocar em
casa.

Essa era a história dos meus avós, mas lá em casa essa sopa cultural era
celebrada nas festas de fim de semana que meu pai promovia compulsivamente
e onde, vez por outra, ele trazia músicos e cantoras de churrascaria,
sanfoneiros; matava um porco, um bode; isso quando não vinha um tio meu que
era mágico de circo, o tio Bira, queimar dinheiro com um isqueiro na nossa
frente.

Nosso bairro, Belford Roxo, não tinha uma praça decente, ainda não tem, mas
as casas tinham quintal e tudo que se fazia era partilhado pela vizinhança.
Jardim Bom Pastor ainda não existia, era uma área rural onde íamos fazer
pique-niques.  Fazíamos muitos pique-niques onde participavam os velhos, os
maduros, os novos e a pirralhada. A rua fervilhava o tempo todo.  Dentro
das casas, que tinham muros baixos ou cercas, as pessoas estavam
costurando, plantando, fofocando, colando bandeirinhas, regando as plantas,
cuidando dos bichos, rezando, contando estórias...  Minha irmã lia contos
de fada pra mim e cantava "carneirinho carneirão-neirão-neirão..." pra eu
dormir.  Na televisão, eu via "Meu pé de laranja lima".

Me parece que as crianças do Ciep de Heliópolis não tinham pai, mãe, avó,
quintal, alguém que contasse uma história de um outro tempo ou que tivesse
paciência ou tempo pra isso.  Parece que a televisão e o rádio preencheram
bem (mal) este espaço.  Não é mais necessário trocar nenhuma experiência,
agora isso compete à mídia, tá tudo lá, prontinho e pasteurizado, pra não
estragar. Não precisa nem se levantar.  É o aculturamento, é o vazio.

Robson Luy é artista gráfico, cantor, ator e cenógrafo formado pela UFRJ.
robsonluy@oi.com.br
Nova Iguaçu - RJ

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