ARISTIDES DE SOUSA MENDES
PATRICK FRANCISCO
pmgfrancisco@yahoo.com.br
Lisboa-Portugal
Especial Para O Rebate on-line
Gostaria de falar sobre um personagem da história de Portugal, muitas vezes esquecido, mas que de facto teve uma enorme importância, pois devido às suas qualidades humanistas e altruistas salvou a vida a muitas pessoas durante o Holocausto no período da Segunda Guerra Mundial. Falo de Aristides de Sousa Mendes.
Nascido em Cabanas de Viriato, vila do distrito de Viseu, no dia 19 de Julho de 1885 acabaria por ir viver para Lisboa no ano de 1907 após ter-se licenciado em direito pela Universidade de Coimbra. Seguiu uma carreira diplomática, fazendo parte de várias delegações consulares portuguesas. Entre 1929 e 1938, ocupou o cargo de Cônsul-Geral em Antuérpia, Bélgica. O seu bom trabalho foi reconhecido pelo então rei da Bélgica, Leopoldo III, tendo-o condecorado por duas vezes. Depois desse período, Salazar, ditador português, Presidente do Conselho e Ministro dos Negócios Estrangeiros nomeia Aristides de Sousa Mendes para cônsul em Bordéus, França.
Pouco depois, as tropas nazis entram em França, porém Aristides de Sousa Mendes permanece cônsul em Bordéus. Salazar opta pela neutralidade de Portugal nesta guerra, e proibe que os cônsules portugueses passem vistos a "estrangeiros de nacionalidade indefenida, contestada ou em litígio; os apátridas; os Judeus, quer tenham sido expulsos do seu país de origem ou do país de onde são cidadãos".
Em 1940, milhares de refugiados em França fugiram das tropas alemãs e chegaram a Bordéus. Nessa cidade francesa, muitos desses refugiados pedem vistos para poder entrar em Portugal. Aristides de Sousa Mendes vê-se então no meio de um dilema: por um lado Salazar proibia a emissão dos vistos, mas por outro lado Aristides sabia que esses vistos poderiam salvar muitas vidas. A 17 de Junho de 1940 decide passar vistos a todas as pessoas que lhe pedirem, independentemente da sua nacionalidade, raça ou religião, desobedecendo assim à ordem de Salazar. Durante 3 dias passa vistos quase sem fazer pausas. Esta não fora a primeira vez que Aristides desobedecia, anteriormente já tinha passado alguns vistos contra a vontade do ditador português. Entre essas pessoas a quem ele já tinha passado vistos, incluia-se o Rabino de Antuérpia, Jacob Kruger.
A própria residência de Aristides de Sousa Mendes, próximo dos escritórios do consulado, estava repleta de refugiados. Angelina, sua espôsa, cuidava deles de forma constante.
A 23 de Junho de 1940, depois de passar cerca de 30.000 vistos, dos quais 10.000 a pessoas pertencentes à comunidade judaica, Salazar demite-o das funções de cônsul. Apesar dessa contrariedade, o próprio Aristides com sua viatura guia os refugiados em direcção a Espanha com o intuito de depois entrar em Portugal.
A 8 de Julho de 1940, Aristides já estava em Portugal. Salazar priva Aristides, que tinha a seu cargo uma familia numerosa, do seu emprego de diplomata durante um ano, reduz para metade o seu salário antes de o enviar para a reforma. Aristides de Sousa Mendes fica também sem a possibilidade de exercer a profissão de advogado.
O ex-cônsul e sua familia sobrevivem com a ajuda da comunidade judaica em Portugal. As dificuldades que depois passam ainda agravam-se com a venda de bens, a morte da esposa aos 59 anos após vários meses em coma, e a emigração de quase todos os seus filhos.
Em 1945, Salazar congratulou-se por Portugal ter ajudado muitos refugiados e salvo a vida a muita gente, mas nunca reintegrou Aristides.
Aristides de Sousa Mendes faleceu a 3 de Abril de 1954 num hospital em Lisboa, na mais plena miséria. |