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'...Macaé, ano I, Nº 45 - 8 a 15 de dezembro de 2006
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A LENDA DA BOA DITADURA E A OPERAÇÃO CONDOR

Durante muito tempo se falava de dois momentos na Ditadura Brasileira. Ultimamente vemos uma bibliografia bastante expressiva que procura estudar a ditadura em duas fases distintas: A primeira que seria caracterizada pela ruptura institucional desde o momento do golpe de 01 de abril de 1964 até 1969, período em que o país foi governado por dois generais golpistas: Humberto de Alencar Castelo Branco, seguido por Arthur da Costa e Silva que decreta mais um Ato Institucional, o famigerado AI5. ( O Ato Institucional nº5 de 13/12/1968, foi o instrumento utilizado pelos militares para aumentar os poderes do presidente e permitir a repressão e a perseguição das oposições). . A segunda fase caracterizada pela doença e afastamento do General Costa e Silva , quando Costa e Silva sofre um derrame cerebral e é afastado o poder passa p/ as mãos de uma Junta Militar que assume para não permitir que Pedro Aleixo, o vice-presidente assumisse, já que tinha dois defeitos: era civil e tinha se manifestado contra o AI5 meses antes. Quando algumas análise começam a falar de uma segunda fase (ou golpe dentro do golpe)

A Junta vai nomear(através de uma farsa montada na Câmara Federal) Presidente o General Emílio Garrastazu Médice, que será sucedido por outro General, Ernesto Geisel, e finalmente o General João Batista de Figueiredo. Momento em que por total incapacidade de continuar governando o País endividado e sucateado economicamente, decidem devolver a presidência do Brasil em 1985, a um civil, não o Poder, fique claro. Que a conquista da democracia foi fruto de muitas lutas e não concedida pela ditadura como muitos defendem.

A análise baseada nessa distinção de duas fases, uma primeira mais branda, comandada por um grupo, que realmente sentia pairar sobre a pátria, uma ameaça de revolução comunista (até o AI5) e uma outra mais repressora e ditatorial protagonizada pelos governos Médice, Geisel e Figueiredo(ex Chefe do SNI dos governos anteriores)que visava apenas defender interesses pertinentes ao grupo que representava é totalmente equivocada e perigosa.

Ora, a ditadura civil-militar brasileira foi ditadura desde o primeiro momento: o golpe de 1964. Porque não existe ditadura melhor ou pior. Ditadura é ditadura, democracia é democracia. Os interesses que defendiam os golpistas civis ou militares, eram os mesmos, os interesses do capitalismo imperialista. Que numa fase de reorganização não podia perder tempo com um governo de moldes populistas ou nacionalistas, que pregando algumas reformas sociais em ambiente democrático poderia sim, permitir que forças mais progressistas pudessem ir se alinhando para no futuro se organizarem numa possível estrutura revolucionária. O imperialismo, porém, não podia perder tempo com futorologia, então é provável que o golpe de 1964 no Brasil, seguido de outros na América Latina, tenha sido preventivo.

Teses e mais teses remetem ao estudo de qual dos períodos ditatoriais foi pior. Isso não só é um absurdo, como é uma perda de tempo e um retrocesso na formação dos novos contingentes de professores do ensino de 1º, 2º e 3º que aprendendo equivocadamente uma história que a maioria não viveu, porque não tinha idade, vão ensinar conceitos também equivocados que estão semeando a confusão nas idéias dos jovens. Se ouve dos jovens estudantes questionamentos como se o Castelo era melhor porque não matou ninguém, nem torturou, era uma repressão mais light...e por aí vai.

Na década de 60 no Paraná um militante foi preso e barbaramente torturado...mas não falava...então trouxeram sua esposa e o filho de dois anos. Ambos foram envolvidos em fios e torturados c/ choques elétricos e outras atrocidades. não foi o primeiro caso, era o usual.Quem estava no olho do furacão (Golpe) desde o primeiro instante sabe do q estou falando...o resto é Lenda.

Outro equivoco que permeia ultimamente alguns estudos é a idéia de quantidade. Tipo: "a ditadura brasileira foi melhor que a argentina porque matou só 400 e a argentina matou 30 mil, mas, que, por sua vez não foi tão ruim como a chilena, que matou muito mais e inventou a Operação Condor." "A ditadura brasileira só deu uma colaboração, uma logística mas nem participou ativamente desse consórcio do terror, tão bem organizado que poderia dar a receita de eficiência para melhorar o desempenho do MERCOSUL." Você vê esses questionamentos nas escolas, faculdades, na internet e até nas conversas de fila de banco. A estatística nesse caso é burra, não me canso de falar aos meus alunos, um holocausto é um holocausto, matando 100 ou 100 mil. E o Brasil participou ativamente da Condor, num papel de liderança hoje reconhecido pelos historiadores especialistas em América Latina. Há 33 anos no dia 05 de dezembro o Brasil fazia sua triste estréia nessa operação macabra, mais tarde batizada com o nome do pássaro condor, o abutre dos andes.

TRISTE ANIVERSÁRIO

"...05 de dezembro de 1973, O major Joaquim Pires Cerveira, 49 anos(usando p/ questões de segurança o nome de Walter de Souza ou Walter Moura Duarte) encontra João Batista de Rita Pereda, 25 anos, e sua esposa Amália (com quem estava casado há 15 dias, tendo como Padrinho , o amigo Cerveira)se encontram ao meio dia para tratar de assuntos referentes a documentação, já que ambos estavam radicando-se na Argentina, vindos do Chile quando da deposição de Salvador Allende.Conversam um pouco e marcam na presença de Amália um novo encontro para as 18 hs do mesmo dia. Foram vistos no horário combinado por várias pessoas. 18:30, esquina da rua Corrientes um carro com vários homens simula um atropelamento dos dois e na presença de testemunhas os leva sob protestos. Amália é alertada em Combate de los Pozos onde viviam os exilados do Chile. 23hs Agentes da Repressão Argentina, acompanhados de Brasileiros chegam a casa onde Cerveira residia com uma família de amigos na calle Horácio Quiroga. A família já estava preocupada com a demora de Cerveira que tinha o hábito de sempre deixar um bilhete avisando onde ia e a que horas chegaria. Os agentes invadem a residência, vasculham tudo, levam pertences pessoais de Cerveira que dizem estar sendo requerido pelas autoridades de seu País: o Brasil. Vão embora depois de muitas ameaças. 4 horas da manhã os agentes voltam dessa vez comandados por um brasileiro com uma cicatriz no rosto(mais tarde identificado por fotografia pelas testemunhas como o Delegado Sérgio Paranhos Fleury)agridem a família e procedem nova busca de armas e documentos. Fleury mostra uma foto de Cerveira e diz a família que o mesmo já está detido e será levado para o Brasil. Antes de se retirar o Delegado Fleury deixa de regallo para a menina mais jovem da família, uma bala de revolver. Os moradores são novamente espancados e ameaçados. A última notícia que se tem é que ambos chegaram quase mortos numa ambulância vinda da OBAN em SP para O Doi-Codi do RJ, na rua Barão de Mesquita na madrugada do dia 12 /13 de Janeiro de 1974. Segundo testemunhos prestados a ONU. No dia 11 de dezembro de 1973 a Associação Gremial dos Advogados da Argentina denunciou o sequestro e protestou contra a violação da soberania nacional argentina. Um advogado da Gremial, o Drº Rossi Impetrou Habeas Corpus para o Major Cerveira, que resultou inútil. A comunidade internacional de Direitos Humanos organizou inúmeros protestos, assim como autoridades internacionais e a imprensa. Mesmo admitindo o assassinato no Brasil do Major Joaquim Pires Cerveira e de Rita Pereda, o governo brasileiro não devolveu até hoje os restos mortais dos dois opositores da ditadura.

Neusah Cerveira


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