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'...Macaé, ano I, Nº 43 - 24 de novembro A 1 de dezembro de 2006
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VAMOS TIRAR JÚLIO DAS GARRAS DO CONDOR!

Neusah Cerveira

Eu pensei em escrever sobre cinema ou literatura na minha estréia no Jornal. Algo leve, lúdico. Até porque cinema e literatura (depois do óbvio) são as coisas que mais gosto na vida. Mas a dor da faca, novamente entrando em meu peito não permitiu. Eu explico: Fazem quase 33 anos eu acabava de sair do banho, os cabelos pingando, alguém me chamou para atender o telefone. A voz do outro lado, com acentuado sotaque portenho me orientava a pegar uma caneta e anotar uma notícia de um jornal argentino. A notícia era sobre um protesto da Associação Gremial dos Advogados da Argentina a respeito do seqüestro de um brasileiro por uma operação conjunta de agentes da repressão brasileira e argentina. O brasileiro era meu pai. O ano de 1973 estava recém acabando eu era militante no Brasil e andávamos preocupados porque desde julho muitos companheiros foram presos e não conseguíamos legalizar suas prisões, muito menos localizá-los. Então quando o companheiro argentino desligou eu senti a sensação de uma faca entrando em meu peito...lentamente...olhei o papel onde fiz as anotações e estava borrado...eu hoje penso se foram pingos do cabelo molhado ou as poucas lágrimas que caíram dos meus olhos. Meu pai já tinha sido preso muitas vezes, e em 1970, muito torturado e rumado para o exílio com 39 companheiros em troca do Embaixador Alemão.

Eu havia acompanhado meu pai no exílio, até quando a situação do Chile se agudizou, eu sabia que não podia perder tempo chorando...sabia que as lágrimas não comovem os carrascos! Eu tinha de agir, e foi o que fiz. Eram 19 hs do dia 03 de janeiro de 1974, ele já havia sido seqüestrado há 27 dias...a faca entrava cada vez mais...mas eu tentei . Segui os conselhos do companheiro que dera a notícia...denunciei p/ o Brasil e o Mundo, bati em todas as portas que consegui, algumas eu tive que forçar outras quase arrombar. No fim do mês de janeiro eu estava saindo de uma conversa com D. Ivo na CNBB no Rio de Janeiro e ele me apresentou uma moça que queria falar comigo. Ela fora testemunha da morte do meu pai no dói-códi da Barão de Mesquita no Rio de Janeiro. Ele foi assassinado após um longo calvário no dia 12/13 de janeiro de 1974. Lamentei que ele tivesse resistido tanto após saber os detalhes de sua morte. Pensei como ele deve ter contado conosco que estávamos do lado de fora, pensei se em seus últimos instantes: imaginou o esforço herculéo que fazíamos para salvar-lhe a vida? Jamais saberei.

Continuei lutando e tentando salvar a vida de outros companheiros. Algumas vezes conseguíamos, outras não. Veio a Anistia...ele não voltou fisicamente. Voltou no sorriso e na alegria dos que sobreviveram e de seus parentes. Veio a abertura...ele não voltou com suas pernas, mas mas no caminho rumo a Democracia.

Então veio o dia em que Jorge Júlio López, 77, um operário da construção civil aposentado e ex-prisioneiro político argentino, colocou com seu corajoso testemunho Miguel Etchecolatz, que era delegado de polícia na província de Buenos Aires durante a ditadura militar de direita que governou a Argentina de 1976 a 1983, na cadeia , sentenciado a prisão perpétua por seus crimes contra a humanidade. Acompanhei todo o julgamento até porque hoje sou pesquisadora nessa área. Era o dia 17 de setembro de 2006. Eu senti um alívio e a faca parecia saindo do meu peito.

Infelizmente no dia 18 de setembro de 2006, Júlio foi seqüestrado. Quando recebi a notícia no dia 19 pelo telefone, de um companheiro argentino, senti a faca ser enterrada novamente em meu peito. E fui mais rápida do que com meu pai. Eu sabia que o tempo é fundamental. Aproveitei todos os espaços e denunciei o seqüestro por onde passei cumprindo compromissos profissionais e por onde não passei., pela internet, pelo telefone. Fiz tudo que podia. O que mais me assustou foi que as pessoas pareciam paralisadas. Todos ficavam chocados....mas houve demora...inclusive na Argentina.

Não sei se o bravo e digno companheiro Júlio ainda vive. Mas temos que trabalhar com a possibilidade que sim! Então temos de lutar. Sabemos quem são os responsáveis...nossa arma é a denúncia e a pressão dos órgãos de direitos humanos.

Especialmente para nós que trabalhamos com pesquisa na área de Ciências Humanas esse fato é duplamente terrível. Primeiro porque é a prova cabal, que a Operação Condor na sua fase 4 como defende o Prof. Martin Almada...não é ficção, é sim o pior pesadelo. Segundo porque obviamente as pessoas não vão mais querer ser testemunhas. Eu mesmo na Pesquisa de Doutorado que estou concluindo na USP já perdi duas testemunhas muito importantes para o esclarecimento e exposição do crime e dos criminosos que torturaram e assassinaram tantos, entre eles meu pai. Que garantias posso dar? Que garantias posso ter? Uma credencial de uma Universidade?

Temos que parar isso agora! Não podemos tolerar nenhum caso! Não se trata de "nem mais um caso" Trata-se de trazer Júlio para casa vivo ou morto e colocar seus seqüestradores na cadeia.

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