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Do lado de dentro
Mariana Rotili
Ela ia andando pela rua quando sentiu, vindo da direção contrária, uma rajada de vento que fez com que seus cabelos dificultassem a vista do passo seguinte. Era noite e aquilo fora um prenúncio do temporal que estava por vir. Caminhou até seu sobrado e, ao findar da escadaria, a luz acabou. Não havia ninguém para abrir a porta, ninguém à sua espera. Seguiu tateando até encontrar a fechadura e, uma vez dentro de casa, acendeu uma vela, serviu um bom vinho e pôs-se a escrever.

O clima tempestivo era o que faltava para que ela desse início ao seu descarregar de angústias e aflições. Estava só. Ao seu redor, apenas as sombras e o silêncio, iluminados pela chama da vela, também solitária. Mas para ela, esse retiro não era uma condenação. Servia como oportunidade de encontrar-se consigo mesma, descansar de todo o resto e se descobrir.
Em um mundo em que estar junto é sempre possível, a solidão é um descanso necessário e, acima de tudo, um direito humano.

Criou-se um fantasma em torno dela, taxando-a como doença contemporânea. Essa crença ganha eco no mundo atual, em que há uma necessidade e grande valorização do relacionamento humano, tanto para afirmação individual quanto para a aceitação na sociedade. Entretanto, a solidão não é de todo mau. Há quem a use como tempo de inspiração, já que recolhimento ao próprio íntimo - livre da perturbadora presença dos incômodos - faz enxergar além. Portanto, a solidão não pode ser vista como vilã que castiga os a tem inscrita em sua personalidade, mas sim como uma janela que serve como alternativa para aqueles que querem ouvir a si próprios antes de tudo.
Texto e foto: Mariana Rotili
Dica para os que moram no litoral: uma caminhada ao som de Bossa Nova é inspiradora e pode render boas fotos.
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