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PERCEP (A)ÇÕES
Mariana Rotili
Era para ser uma sexta-feira comum, daquelas em que todo o cansaço da semana cai sobre as costas e resulta numa tarde vagal de sono e distração. Mas não foi. Tirei o dia para o acaso. Saí de casa sem rumo, disposta a entrar no primeiro ônibus que passasse. Fui parar no centro da cidade.
Fones no ouvido - Caetano Veloso é uma ótima pedida para essas andanças -, mochila nas costas e um só objetivo: fotografar. O quê? Qualquer coisa que chamasse a atenção, despertasse a sensibilidade. E foram três crianças que brincavam em frente à igreja as primeiras vítimas da minha sede por boas fotos.
Ciça, Vitória e Vitor, ambos na faixa dos cinco anos. Indiozinhos que faziam fuzarca com uma bola verde e amarela enquanto a avó cuidava dos artesanatos que suas mãos grossas deram conta de fazer. Se não fosse o barulho dos netos, ela seria imperceptível. Um punhado de doces foi o preço das fotos. Registrei a imagem, as breves conversas e vi. Abri os olhos - e as lentes - para aqueles que são tidos como paisagem, um elemento sem valor no cenário do cotidiano.
"Tia! Tia! Tira mais uma", diziam eles, como se pedissem para serem vistos. E eu tirei, não uma, mas várias e voltei pra casa acreditando que fotografia simplesmente acontece.
Fotos e matéria: Mariana Rotili
Florianópolis - SC
Senhora sobrevive e sustenta os netos com o que consegue através da venda de peças artesanais e recebe em esmolas
Vitor, desfrutando do pirulito que foi o preço das imagens.
Estripulias em frente à igreja nem sequer chamam a atenção dos passantes.

Olhos fixos na câmera.
Infância e doçura escondidas atrás das grades da pobreza.
EU

Mariana, 17 anos, gaúcha nascida durante uma viagem (talvez venha daí o meu gosto por viajar). Moro em Florianópolis, onde curso a terceira série do ensino médio. Presto vestibular para Jornalismo (UFSC) e Midialogia (UNICAMP) este ano. Encontrei na fotografia e na escrita o prazer que busquei na dança durante anos. A realização de antes, estritamente pessoal, deu lugar a de agora, revertida em vontade de fazer algo por todo o grande resto. |