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'...Macaé, ano I, Nº 43 - 24 de novembro A 1 de dezembro de 2006
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"PARA O MAIS LONGE POSSÍVEL"

Entrou na estação do trem. Dirigiu-se à bilheteira tendo ficado a olhar os destinos - de forma alheada, inconsequente.

O empregado da bilheteira, depois de a olhar curiosamente de soslaio esperando ela pedir um destino e, supreso pelo silêncio, lhe perguntou - É para onde?
Sem quase levantar os olhos - ela respondeu: é para o mais longe possível. Não importa!

Pagou o bilhete, guardando o seu destino amarrotado na algibeira . Sentou-se esperando o trem chegar.
Lá fora o Outono despedia-se num streap tease de folhas bailadas na nostalgia amarela e castanha da brisa.
O trem chegou no meio duma baforada de fumo, anunciando sua chegada com estridência. Sobressaltou-se, caminhando lentamente para a sua carruagem com a sensação de estar subindo para o cadafalso.

Entrou, tendo procurado um lugar junto à janela na ideia de que o filme da paisagem ante seus olhos a distraíssem.
O trem que até não ía com muita gente, esganiça seu grito de partida e ela se aconchega esquecida do que estava ali a fazer. Para onde ía! Porque partia!

O xanax, entretanto tomado e o ronronar do combóio a mergulharam num sono esquecido e profundo.. Entre o acordar e o adormecer a sua vida apagou um dia e uma noite.

Foi acordada pelo bilheteiro que a abanou - Menina, estamos na Estação Central de Paris. Fim da Linha!
Ela abre os olhos espantados e patéticamente distantes. - Paris????

Pega na bagagem (um simples par de jeans, um camisolão, uns ténis, 1 tela, 2 pincéis e 4 tubos de tintas) e sai para as Ruas dessa Cidade Luz olhando espantada , acordando memórias de alguns lugares da sua juventude.
Lembrou-se de um hotelzinho em Saint German des Prés. Apanhou um táxi e deixou-se embalar pelas recordações de Paris!
Tinha então 20 anos. As mãos cheias de sonhos, as algibeiras vazias e a alma plena de verdes ilusões. Paris! Paris! era nesse tempo o rio para onde todos corriam em busca da cidade cultura, da boémia, da loucura e do amor.

Chegou ao hotel. Pediu um quarto e subiu no elevador velho e pachorrento como quase todos os elevadores dos velhos hotéis de Paris.
Abriu a mala, pegou na tela, nos pincéis e ali mesmo no receptáculo do sabonete, deitou as tintas e atacou a tela de forma alucinante. Pintar o quartier Saint Gérmain des Prés? A sua cabeça era uma janela onde a vertigem se instalava num movimento que queria passar à tela.
Não tinha fome! Não tinha sede. Pintou até adormecer.Caíu num sono profundo só despertado pelo pessoal da limpeza.- Onde estou? Que faço aqui? - ergueu-se e os seus olhos se pregaram à tela .Horror!!
- Parecia um campo minado. O fundo era negro e o vermelho escorria como sangue vivo por toda a tela, fazendo pequenas poças.
- Quem pintou este horror?- Meu Deus, será que fui eu quem pintou isto?

Debaixo do chuveiro numa catarse emocional. Suas lágrimas se juntavam à água corrente! Os soluços rebentavam-lhe o peito. - Vestiu-se. Agarrou a mala e saíu para a rua onde a neblina se fechava sobre a sua cabeça em tons húmidos de cinzentos luminosos.
Finalmente, uma fome voraz a fez sentir-se viva. Tomou o café da manhã. Café leite, pão croissants e mais café. Pagou. Apanhou um táxi para o Aeroporto. Na bilheteira pediu um bilhete para Lisboa.

Quando sobrevoava a Cidade branca de Lisboa, entre lágrimas e angústia, pela primeira vez, Sorriu!

O MAIS LONGE POSSÍVEL, ESTAVA AFINAL DENTRO DELA!


POEMA I

CALENDÁRIO DO TEMPO

Meu Amor,

Nosso cais de encontro
é um labirinto de partidas...
Chegaste tarde demais
na bússola do meu tempo,
no ancoradouro
do meu carinho,

e
na geografia do meu corpo,
há sempre um cais vazio
à tua espera,
e um velho calendário
marcando uma data antiga.

Porque
Partes sempre
antes de chegares

Luizacaetano


POEMA II

Anónimo Veneziano


Olhem minha

Máscara Veneziana!

Minhas roupas de Arlequim?...

Lindas!

Desapareço?

Esqueço?

Meu carnaval sentimental

-ninguém vê! nem mesmo você!

estou aí?

estou aqui!

dançando na rua

do seu terreiro

sou Arlequim!

sou máscara!

Sou assim...

Ninguém me vê!

nem mesmo Você!
lc


POEMA III

O REI MORREU?
VIVA O REI!

Porque,
Todos somos reis!
Todos temos nosso condado!
Todos temos nossos servos!
Todos nos julgamos poderosos!

Todos

nos passeámos
um dia
Nús
na calçada
das nossas
vãs vaidades!

Todos
compramos
e todos vendemos
as nossas
verdades!

Todos
nos saciamos
no inefável
gozo
do poder!

Eu
já fui rei
dum reinado
impossível!

Eu
já fui escravo
dum rei Nú!

Hoje
sou a raínha
dos sonhos

e
todos os dias
vou embora
para Passárgada.

lc/agosto2006


POEMA IV

MINHA TELA DE HOJE

Desenho
um Sol Amarelo
sob um Céu Vermelho
rasgo-o de gaivotas
e
de Amor
- Meu Amor!

Pinto-o
de emoção,
Meu Coração
de
vermelho
apaixonado!

Sou um peixe!
Uma Ave!
Uma onda!

às vezes
um náufrago
em busca do seu Farol
tão distante
como os mares de Cabral

Espero!
Desespero!
entre o doce e o sal
correndo em minhas veias.

Te
aprisiono
nos dedos do vento
aliança - sentimento...

Desenho um Sol Amarelo
no meu Céu
de incertezas
onde as gaivotas
esvoaçam
esperanças vermelhas

lc-AGOSTO 2006


POEMA V

O MEU PAÍS
(CONVITE)

O
Meu País
tem um Sol
pendurado
em cada janela,

Um imenso SOL AMARELO
jorrando
lágrimas
de esperança

O meu País
é uma Criança!

Acabada de nascer
tem um coração
do tamanho do mundo

Onde
tu cabes!
e
Tu!
e
Tu!

Tens uns braços
de afagos mil
pintados
de vermelho e verde

Meu País
é de ABRIL

onde a Primavera
é um colo
que te espera.

Porque esperas?

Vem!
lc


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