
Abra as asas sobre nós.
Luís Peazê
Rezemos para que não haja mais problemas no céu do Brasil. Foi mais ou menos isso que o Ministro da Defesa disse, ao se ver sem resposta para a crise no sistema de controle de nosso espaço aéreo, aeronáutico. Velhinho de semblante cansado, o ministro ocupa o cargo, digo, apenas acolchoa-o, nesse importante ministério e disso depreende-se inúmeras tristezas, infelizmente.
A primeira triste notícia, para uns, é que as forças armadas estão atadas ao chão, presas, maneadas. Sem dinheiro, sem prestígio, sem perspectiva. Para outros, isso nem é triste, é a realização de um sonho, motivo de celebração semelhante ao da morte do ditador chileno. Patético. Miopia coletiva. Posto que o ditador conseguiu ludibriar a vigilância internacional pelos direitos humanos, não foi punido pelos crimes que cometeu, não devolveu o dinheiro que roubou, e tudo mais. Celebrar o quê? Assim como pode-se perguntar: celebrar a fraqueza do Exército, da Marinha e da Aeronáutica por que? Se não se consegue extinguir esses organismos, se não se consegue extinguir a ira, a inveja, a ganância, a vaidade, a gula e demais pecados capitais, e ainda continuamos a pagar impostos para suportar a manutenção das Forças Armadas, e forças políticas e judiciais e demais amenidades da instituição Brasil. Então que sejam úteis e competentes, ora. E é aí que a má notícia paira sobre as nossas cabeças, como asas de urubu.
Breve digressão: é duro admitir, mas a presença do Exército é necessária nas nossas fronteiras, e nas nossas entranhas; a Marinha é necessária por um mar de razões; para quem não sabe há um espaço marítimo a ocupar maior do que a Amazônia, tão ou mais rico do que esta; razões essas que vão desde a presença simplesmente, a ciência e o clima no Brasil, na Antártica, no mundo. E há essa imensidão de azul anil dependendo de que asas se abram sobre nós. Sem o quê, basta um cochilo, ou um problema de dicção banal, para que, entre outras tragédias, centenas de passageiros morram dormindo em pleno ar, como foi o caso do acidente do Vôo Gol 1907. Até quando seremos tão irresponsáveis? Punimos quem apenas por último merece um castigo disciplinar, e absolvemos os criminosos com carinha de cansado, protegidos pela idade, gravata ou carissimo habeas corpus .
A segunda triste notícia abriga uma série de reminiscências de nossa formação cultural. Como se, sob as asas de uma galinha, os pintos dividam o calor e proteção com piolhos e as pisadas da própria galinha, além, é claro, da briga entre eles mesmos. Somos isso, pintos, piolhos e picuinhas. E piamos nosso samba interior (Oh, senhora liberdade, abre as asas sobre mim) no silêncio coletivo da passividade. Como se cada um dissesse:
Abre as asas sobre mim, oh! senhora liberdade. Eu fui condenado. Sem merecimento. Por um sentimento. Por uma paixão. Violenta emoção, pois, amar foi meu delito. Mas foi um sonho tão bonito. Hoje estou no fim...
E o nosso fim parece ser a nossa desgraça simbólica, de simplificar todas as tragédias com metáforas cada vez mais criativas. Antes havia uma corte comandando o país sob os braços abertos do Cristo Redentor, hoje no lugar da corte reina o traficante disputando território com milícias informais da polícia oficial. Voamos para um lugar incerto, expulsamos nossos candangos, e trouxemos um padre italiano para inventar a profecia de que lá iria jorrar da terra leite e mel. Esparramamos foi um enorme projeto piloto, um enorme avião de asas abertas, bebendo água num lago. Um milionário aerolula exposto, festa em pleno ar, fuselagens obscenamente à vista, eternamente devassado em berço esplêndido, incestuoso, com a nossa mãe gentil.
Ajoelhe-mo-nos; sente-mo-nos; levante-mo-nos; oremos (diz o ministro); o que nos dizem nós fazemos. Calados. Agora cantemos, o hino da república: Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós. Das lutas na tempestade. Dá que ouçamos tua voz. Nós nem cremos que escravos outrora, tenha havido em tão nobre País... (Hum, outrora!) Hoje o rubro lampejo da aurora. Acha irmãos, não tiranos hostis. Somos todos iguais! (Humm, iguais ao Lula, iguais ao Collor, iguais a quem, cara pálida?) Ao futuro, saberemos, unidos, levar nosso augusto estandarte que, puro. Brilha, ovante, da Pátria no altar!
Nota absurda, para possíveis leitores filhos de adolescentes da década passada: Abre as assas sobre nós, refere-se ao samba de Zezé Motta, música de Wilson Moreira. Oh! Liberdade! Lilberdade! refere-se ao Hino da República. Padre italiano, refere-se à Dom Bosco que fez a profecia sobre Brasília. Azul anil, berço esplêndido e mãe gentil, refere-se ao Hino Nacional e chega, pois atrás de cada palavra há um rio de significados e significantes, talvez inúteis.
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