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'...Macaé, ano I, Nº 42 - 10 a 17 de novembro de 2006
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Lula provou que Érico Veríssimo estava errado?

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Numa conversa com um compadre, Érico Verissimo teria defendido que os votos de dois analfabetos não podem ser mais importantes do que um voto de Einstein. Se esta conversa existiu de fato ninguém pode provar, muito menos o contrário. Mas a vitória do petista sobre o tucano, no segundo turno da eleição para Presidente do Brasil, provou que, na democracia, o analfabeto pode vencer a inteligência de uma minoria. Alto lá, gajo, isso não quer dizer que estou a defender que o outro candidato fosse inteligente e melhor. Eu hem.

Vejamos o que diz outro escritor, este inclusive já foi candidato a presidente (do Peru), Vargas Llosa: “Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção. Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração.”

É evidente que a vitória de Lula ocorreu mais pelo seu carisma, e discurso direto com a gente simples deste país, do que pelos méritos de seu governo. Não é possível que o mais simplório dos brasileiros anafalbetos concorde que Lula não tenha responsabilidade pelos escândalos que eclodiram nas salas ao lado da sua, no Palácio do Planalto. Ou é? Pelo sim ou pelo não, o fato é que a maioria manteve-se fiel a ele, pateticamente. Seus dois homens mais fortes, que o ladeavam quando da campanha de eleição do primeiro mandato, e ocuparam os cargos de Ministros mais importantes, patrocinaram os mais escandalosos crimes de corrupção e abuso de poder – o caso do mensalão e da quebra de sigilo do simplório caseiro, respectivamente. Não bastassem os demais “amigos aloprados do presidente” envolvidos em escândalos (a lista é enorme, e é desnecessário reproduzi-la aqui), não há área de governo onde o Brasil não esteja precário de ação presidencial, governamental.  

Ou há alguém no Brasil que possa dar nota acima de 5, numa escala de 1 a 10, para a saúde, educação, justiça, trabalho, tributária, habitação, agricultura, indústria, relações com o exterior e todas as demais áreas de responsabilidade da esfera federal? A não ser, é claro, que o contentamento com a pequenez seja um fato. Aí não se pode fazer nada.

Nota acima de 5 para a saúde, pegando um caso nevrálgico, significaria que é possível ser bem atendido num hospital público. Um eleitor benevolente diria: - pode demorar um pouquinho, mas se é atendido. Tomando a educação, só seria possível uma nota acima de 5, se todas as crianças do país estivessem nas escolas, e se em todas as escolas públicas do país tivessem salas dignas de serem chamadas de salas de aula. Ah, e os professores não ganham bem, mas isso pode melhorar, diria o mesmo eleitor, daí a nota apenas um pouco acima de 5. Não, nada disso é possível, francamente.

Portanto, está provado, os votos de dois analfabetos são mais importantes do que o voto de um Eistein, pelo menos no Brasil. Até porque, não há nenhum Eistein no Brasil. Somos todos ou analfabetos (funcionais) ou medíocres. Os primeiros, pelo menos, acreditam no que escolhem, com fé, sonham e vivem no mundo da ficção.

Ou eu é que estou sonhando, ainda preso ao tempo e ao vento, e tudo isso não passa de um realismo mágico?

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