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'...Macaé, ano I, Nº 41 - 3 a 10 de novembro de 2006
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Em um outro planeta chamado Hospital...

Difícil é ficar longe

Letízia Borges*

Ele chegou andando com dificuldade, de mansinho, como se não fosse com ele.

-- O que você tem?

-- Nada...

-- Primeiro quero dizer que preciso falar com o médico. O caso do meu pai é preocupante, ele tem algo sério. Definitivamente.

-- Sim, mas primeiro precisamos examiná-lo e depois discutiremos com o professor e...

-- Vocês não entenderam!! É muito sério, não sei o que fazer. Ele precisa ser examinado pelo médico!
E foi aí que ela quis intervir. É estranho mas sempre que há uma alma aflita por perto ela tenta se aproximar. Consciente ou, vocês sabem... aquele tal de destino. Foi a primeira vez que ela viu um filho tão preocupado com o pai. Ele falava bem, cantava as palavras e estas iam entrando por sua garganta e apertando-a mais e mais... "fique calmo, vai dar tudo certo"... ela sempre gostou de falar isso. Não que se sentisse bem, pelo contrário: mentir é pecado, aprendera nas aulas da catequese. Mas ela não suportava a dor da realidade alheia. "Sim, vou te ajudar e vai dar tudo certo". Explicou que eles, os estudantes, deveriam olhar o paciente antes e depois discutir o caso com o professor que nem iria ver a cara do paciente. Normal, ela fazia isso há 2 anos e meio. Mas dessa vez doeu mais. O paciente era especial, um senhor de 70 anos, bem humorado, como outras vezes já havia visto, mas o filho do paciente.. ah! Esse exalava um carinho indescritível! Carregava no peito uma cruz que mostrava um homem sofrendo, sempre que ela a encarava, entendia a semelhança entre o barbudo e o dono do pescoço que a carregava. Dessa vez ficou revoltada porque ela, uma estudante, iria atender o pai dele, e não um médico de verdade.

-- Somos experientes, sempre vemos o paciente antes, fique tranquilo.

Ele, inquieto:

.-- Há três dias meu pai vem tendo episódios estranhos durante os quais entorta a boca, estou assustadíssimo. Estou aqui porque ele precisa de uma tomografia e não temos dinheiro.
Sim! Agora ele tocou no ponto. É por isso que ele estava sendo atendido por estudantes, afinal, hospital escola atende pelo SUS. Se ele se acha digno de ser atendido com ar condicionado que pague! É.. mas dessa vez foi diferente. Ela foi se colocando no lugar de filha e de excluída da sociedade. Mas não se pode misturar sentimentalmente com os pacientes! Isso atrapalha a consulta! Pois bem... o que aconteceu ali foi que após o paciente ser examinado e ter respondido perguntas desnecessárias, seu filho, dentre tantos estudantes a chamou para fora da sala:

-- Então, o que você achou do quadro?

Eu?-pensou ela. Você fez tantas perguntas durante a consulta que fiquei sem graça perante minha ignorância. Mas você bem observou que respondi tudo. Preciso ter as respostas, você as suplicava. Eu te enganei. Fiz de conta que tinha o controle da situação. Agora, quer saber se seu pai vai morrer? O nome da doença? Quais exames ele tem que fazer? Porcentagem de cada hipótese diagnóstica? Bem observei o quão inteligente você é. Você poderia esperar eu conversar com o professor que nem vai ver a cara do seu pai, porque aí então, terei as repostas. E pare de fazer perguntas que não sei, assim não me sinto superior. Já não gostamos de pacientes inteligentes, imagine acompanhantes!

Após consolar aquela alma aflita, ela e os estudantes procuraram o professor. Já de posse da tomografia, o inesperado:
-- Não sei o que é isso!- disse o ótimo professor. “Mas como?!? Médicos sabem de tudo!”

-- Pois então vá você dizer isto pois além de ser um caso complicado o filho dele gosta muito dele e pergunta tudo o tempo todo. TUDO. - ela se sentiu estranha por falar isso perto de tantos pseudo-médicos. Queria que o professor fosse lá porque achava que o filho ficaria melhor assim. O que tinha a ver o filho gostar dele? Só porque nunca tinha visto um filho tão carinhoso? Porque estava emocionada sentindo como se fosse seu pai? Olha... aprenda... não seja sentimental. Já te avisaram que você não nasceu para ser médica por se apegar a seus pacientes. Quando será que vai aprender a ser fria e assim, ser uma ótima profissional?

* letiziaborges@yahoo.com.br


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