| A morte tem cheiro?
Letízia Borges*
Ainda estou no hospital, acabei de sair da aula de cirurgia e apesar do tema, o professor nos contou sobre o cheiro que precede a morte. Raramente alguns professores quebram o silêncio e falam sobre ela. Sentimos a morte todos os dias mas não se fala nela. Vemos a morte, mas é como se ninguém a visse. Só não sabia que ela, além de todas as dores que traz, mandasse um aviso: um cheiro.
Meu professor já o sentiu algumas vezes pelo corredor antes da morte de alguns pacientes. Deu-me um frio na barriga, é mesmo de arrepiar. A morte tem cheiro? Já não bastava termos que vê-la em cada corredor, senti-la em cada sala, temê-la em cada paciente(por ele ou junto dele)?
Ao decidirmos fazer medicina temos que lidar com a morte todos os dias e portanto, cada um desenvolve sua defesa. Alguns nasceram com dons e aos poucos os vão reprimindo porque a pressão para ter de ser “controlado” é enorme. Uns vão perdendo a alma, se é que já tiveram uma e outros deixam a alma virar uma rocha, ou seja, aos olhos de todos é uma fortaleza, dura como uma pedra, mas na verdade é só uma pose, todos os dias está sendo erodida, mesmo que imperceptivelmente. Não é fácil continuar sensível. Não é fácil sentir “cheiros”.
De acordo com Sartre a morte tira o sentido da vida, ou seja, para ele a morte é a "nadificação dos nossos projetos, é a certeza de que um ‘nada’ total nos espera", enquanto Heidegger acreditava que com a morte o homem conquista a totalidade da sua vida. Acredito que aqui no Hospital, neste outro mundo onde a sociedade esconde seus medos e deformidades corporais, a morte muda a vida de muitas pessoas. Se não deixa o corpo e toma a alma, ela muda a alma e recupera o corpo. Aqui estabelecemos vínculos que seriam impossíveis de serem feitos fora desse mundo estranho, mas também sentimos dores inimagináveis. A morte nos faz ter medo do envolvimento com o paciente, mas por outro lado ela aprofunda os relacionamentos na medida em que no hospital estão todos lutando contra ela.

A morte seria tão cruel a ponto de mandar um aviso? Depende do modo como a interpretamos. Talvez ela exista como as contrações uterinas que indicam o início da vida.
Tenho medo de sentir o cheiro da morte(mesmo isso significando que ainda resta sensibilidade dentro de mim). Meu professor falou que é cheiro de flor. Um paradoxo, não?
O cheiro da morte
(escrito pelo meu professor)
Uma sensação,
Intuição ou indução?
Não é fácil definir
Muito mais difícil é sentir
Percepção involuntária
com conseqüências não imagináveis,
Às vezes me sinto paralisado
de mãos e pés atados,
Outras vezes libertado
com forças para tentar mudar o óbvio. O êxito letal.
"Aquilo que verdadeiramente é mórbido não é falar da morte, mas nada dizer acerca dela, como hoje sucede. Ninguém está tão neurótico como aquele que considera ser neurótico decidir-se a pensar sobre o seu próprio fim".
(Philippe Ariès)
*letiziaborges@yahoo.com.br
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