
Eleição 2006
Não basta reclamar, tem que participar
Lembro-me quando eu tinha meus nove anos no interior de Minas Gerais. O cheiro do café pela manhã, do pão de queijo, o uniforme passado em cima da cama, pronto para ser vestido, um cheiro de civismo, de civilidade.
Tomava o café, vestia o uniforme, passava na casa do amigo e íamos sozinhos para a escola, sem qualquer receio da violência nas ruas, sem medos. Chegando na escola, éramos enfileirados no pátio, onde orgulhosamente olhávamos para nossa bandeira e cantávamos o hino nacional, enquanto subia colossal para o alto do mastro e tremulava ao vento.
Dona Helenice Naves, nossa professora, séria, orgulhosa de sua profissão, colocava ordem na classe. Dois a dois, os alunos sentavam-se e colocavam o material sobre a carteira. E começava a aula no Grupo Escolar Dr Sá Brito. Uma escola municipal melhor que qualquer escola particular de hoje. É isso que eu descubro hoje quando vejo o nível de ensino transformado em cifras.
O orgulho tomava conta dos alunos em datas comemorativas, quando tirávamos nossas fardas da fanfarra do armário para desfilar de cabeça erguida pelas ruas de Boa Esperança, aos olhos encantados de toda a população que acordava cedo para ver o desfile das escolas da cidade.
Os livros, a tabuada, a biblioteca da cidade que tinha como sócios, crianças com menos de dez anos de idade que, sozinhas, iam buscar livros de Monteiro Lobato, Julio Verne, entre outros tantos, pelo prazer de ler, de adquirir cultura, de sonhar com os dias melhores.
De repente me bate uma saudade enorme das competições entre classes, dos passeios, dos presentes que os professores entregavam ao final de cada ano, aos melhores alunos do período. Certa vez ganhei uma coleção de livros por ter sido um dos melhores da classe.
Volta e meia o diretor do Grupo Escolar surpreendia com visitas às salas de aula. Respeitosamente todos nós nos levantávamos e desejávamos bom dia em uma única voz. Os jogos de bafo, bolinhas de gude, pião, o primeiro amor. Como éramos felizes e hoje descobrimos o quanto.
Orgulho de estudar, vontade de ser alguém, o sentimento de patriotismo cravado no peito. Nossos mestres orgulhosos pela profissão que escolheram. As aulas particulares que nos davam com amor e dedicação.
O que aconteceu com nossos alunos, com nossos professores de hoje? Impossível saber, mas o fato, é que precisamos tomar as épocas passadas como exemplo de ensino, de patriotismo, de respeito.
As escolas públicas realmente preparavam para o futuro, preparavam seus futuros doutores, dentistas, advogados, publicitários e jornalistas. Orgulhosos nossos professores puderam acompanhar o desenvolvimento de seus alunos.
Olho para mim hoje e agradeço à Dona Helenice Naves, à Dona Rosicler, aos funcionários do Grupo Escolar Dr Sá Brito, pela pessoa que sou. Fizeram-me enxergar o mundo e me preparar para enfrentar as terríveis tempestades, A difícil tarefa de manter nossos filhos na escola, de sermos obrigados a brigar pela melhoria do ensino, a falta de patriotismo, de amor à nossa bandeira, o desrespeito aos professores que sequer tem força para impor respeito.
Pergunto-me, de quem é a culpa? Dos governantes? Não, a culpa é nossa, pois a cada eleição somos nós quem os colocamos lá e não exigimos nada em troca. Nós somos os únicos culpados. Culpados por não exigir do governo a melhoria necessária no ensino, por não exigir, através dos recursos de impostos que pagamos, pela segurança na porta das escolas, de todas, sem exceção, de melhor preparação de nossos professores que são penalizados pela falta de respeito, pelos baixos salários, pela impotência total. Nós somos os únicos culpados.
É fácil falar mal do governo, difícil é nos organizarmos em grupos sociais para irmos lá cobrar pelas melhorias, ou melhor, exigir, pois é o nosso direito. Obrigação é o que um deputado federal ou estadual tem que ter para com seus eleitores, a obrigação de mudar, de trazer de volta À alegria, o civismo.
Abordarei aqui outros temas nas próximas semanas, fazendo um comparativo de épocas. Mas gostaria que você pensasse nisso antes de escolher seu candidato. Ele está empenhado em lutar pela comunidade ou está como um figurante que embolsa seu gordo salário todo mês.
Lembre-se, nossos governantes fazem as leis, mas todos temos direito de participar ativamente das mudanças dessas leis, de cada uma delas, temos o direito de opinar, de exigir e de mudar.
Não é difícil melhorar o nível de ensino. Isso é algo que pode ser conquistado rapidamente, desde que você exija, desde que você faça parte dessas mudanças. Para quem tem entre 40 e 45 anos, é fácil lembrar-se com carinho dos bons tempos da escola, quando estudar era um imenso prazer. Talvez tenhamos tentado oferecer uma vida melhor aos nossos filhos, sem tanta pressão como antigamente éramos submetidos. Mas fazendo as comparações, caro leitor, você nota as diferenças? Pense nisso antes de escolher o próximo candidato nessa eleição. Pense no que você quer para sua família, para os seus filhos, seus netos, pense no que você quer para você. Organize seus grupos sociais e cobrem do governo aquilo que ele tem obrigação de proporcionar à sua família, aos seus vizinhos, ao seu município, estado, ao seu país. Mas lembre-se, nada na vida é de graça. Tudo aquilo o que conquistamos deve ser fruto de nosso trabalho, de nosso suor diário. Você trabalha e paga seus impostos para ter acesso à educação, saúde, a benefícios. Faça valer o seu direito de cidadão. Eleja representantes que estejam imbuídos desse pensamento. E se ele fizer o contrário, tire-o de lá. Não troque seu voto por pequenos favores, troque seu voto pelo futuro melhor para você e sua família.
José Carlos Bocardi é publicitário, jornalista, formado pela Universidade Católica de Santos, participou da liderança de movimentos estudantis que buscavam melhoria para o ensino universitário. Fundador de jornais no litoral paulista e interior de São Paulo. Atualmente é diretor do portal imobiliário Jornal do Imóvel Brasil e luta para eliminar a figura do fiador do mercado imobiliário.
E-mail: bocardi@jornaldoimovelbrasil.com.br
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