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'...Macaé, ano I, Nº 47 - 22 a 29 de dezembro de 2006
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O MASCATE, O FOTÓGRAFO E O BISAVÔ

Randolpho era um jovem rústico e desconfiado, tomava conta da fazenda do pai, lá pelas bandas de Viçosa de Santa Rita - nome da atual Viçosa quando passou à freguesia. Foi por volta de 1889 que Randolpho, também conhecido como “Dolpho” ou “Douphinho”, realizou o grande sonho de sua vida, talvez o sonho de muitos jovens rapazes e moças do pequeno povoado: ter uma fotografia!

Vou lhes contar como tudo aconteceu, se eu aumentar em algum ponto façam de conta que foi assim mesmo.

Eis que certa feita, enquanto Dolphinho galopava pelos arredores das terras contemplando as latitudes e longitudes de seu legado, notou que algo estranho acontecia na matinha próxima às goiabeiras. Ninguém resistia às goiabeiras da fazenda dos Lopes de Faria, também não resistiam aos jambos nem aos pés enormes de cana-caiana, raridade naquele tempo. O jovem fazendeiro e seus empregados estavam cansados de botar moleque pra correr debaixo de tiro de espingarda ou de pedrada a reveria. Mas dessa vez não era barulho de qualquer moleque ladrão de goiaba não, era coisa grande, talvez quatro ou cinco marmanjos. O desconfiado Dolpho tratou logo de aplumar a espingarda, pensou que pudesse ser um grupo de índios botocudos, gente braba, “raça ruim”.

Depois de espiar de trás da gameleira, foi chegando com o cavalo mais perto do barulho, mais perto, mais um pouco:

_ Ma virge nossa sinhora! O qui que essa carroça véia ta fazenu dentro das minha terra? Cruzes, parece inté assombração! – e lascou-lhe um sinal da cruz.

De dentro da mata saiu uma voz assustada:

–  Se aperreie não cumpadre, essa carroça é o que usamos pra trabalhar.

–  E quem são ocêis? Aparece aí pra eu vê a cara docêis!

–  Nós já vamos sair das vossas goiabeiras.

–  E o que que ocêis tão arranjano dentro da minha popriedade?

–  Nós só viemos oferecer nossos produtos pra vossa senhoria e pra vossa família. – respondeu o homem de barbas já aparecendo às vistas de Randolpho.

–  Que podruto ocêis carrega aí nessa carroça?

Nesse instante, aponta de dentro da mata um senhor de meia idade muito bem trajado, com traços fortemente europeus, e com um tremendo sotaque alemão se apresenta:

–  Com sua licença, meu bom rapaz, muito prazer, meu nome é Revert Klumb, ao

seu dispor!Posso explicar direitinha o que estamos fazendo em propriedade de vossa família.

–  Uai? Que homi de fala isquisita sô! De onde é qui o sinhô saiu?

–  Ele é alemão, saiu da Alemanha, o senhor já ouvir falar?

–  Já sim sinhô, aqui na freguesia tem gente lá dessas banda também. Meu pai

nasceu lá no Portugal, né muito longe das terra dele não.

Mas eu quero uma expricação, intão o qui um alumão ta quereno em minhas terra? Ele veio vende bugiganga com o sinhô também, seu mascate?

–  Não, não, na verdade ele é fotógrafo, eu dei uma caroninha até a roça pra ele fotografar os pássaros e as matas das redondezas.

O pobre Randolpho arregalou os olhos que brilhavam como olhos de criança

diante cuz-cuz de mandioca!

Si é verdade qui o sinhô é fotógrafo, deixa eu vê a tár da câmera de afotografar?

–  Sim claro, está bem aqui atrás do curral, perdoe-nos a invasão, mas eu não

resisti ao tamanho encanto dessas terras tão virgens!

Randolpho apiou do cavalo num golpe só, depois fincou o pé até as costas do curral.

- Aqui está ela, uma novíssima “Mentor”, uma câmera fantástica própria para filme

em folha.

–  Ah, seu coisa, eu não intendo nada desses troço não! Nunca nem tinha visto uma

máquina que tira retrato assim nas minhas vista!

Chega o mascate barbudo e interrompe a prosa:

–  Pois é senhor, senhor, qual é mesmo vossa graça?

–  É Randolpho Lopes de Faria.

–  Então, senhor Randolpho, a prosa ta muito boa, mas nós temos que pegar a estrada antes do entardecer, passar bem!

–  Uai, mas ocê num ia me oferece seus podruto qui tão cuberto lá na carroça?

–  É, eu ia, mas já é tarde, deixa para um outro dia! Eu volto com mais calma e

trago desde escovas de cabelo de Paris à selas para vosso campolina! Mas agora nós precisamos realmente pegar o rumo da freguesia de Santa Rita, não é senhor Klumb?

–  Ah sim, precisamos sim, chegar cedo, pegar a estrada...

–  Mais essa história ta muito már contada! Primero aparece uma carroça coberta

nas minha goiabera, adispois chega um barbudo quereno mi vende suas porcaria, em seguida um alumão fotógrafo...e agora já querem ir simbora assim dipressa? Humm! Num sei não!

Os homens já seguiam pra perto da carroça dando a impressão de estar fugindo do local, quando chega um dos empregados da fazenda aos gritos:

–  Seu Dolplho, seu Dolpho, ta fartano um feixe grande de cana na beira do

canaviár! Deve de ter vindo uns moleque e arrancado tudo no facão, só num sei como é qui fizeru pra carrega! Si nóis for de galope pela estrada nóis arcança eles!

–  Carece não, Zé Livino, os ladrão tão é aqui na minha frente! Agora eu to

intendendo o qui é qui esses paspái vêi faze aqui! Levanta a lona da carroça desses catimbá fi dua égua!

–  Sim sinhô!

Não teve escapatória! Randolpho e seus empregados pegaram os invasores com a

boca na botija! Dentro da carroça coberta pela lona velha, estava toda a cana-caiana que faltava no canavial, uns quatro ou cinco embornais abarrotados de jambo, mais um tanto de goiabas de vez, cada uma mais bonita e cheirosa que a outra.

–  E agora, seu Dolpho, o qui nóis vai faze cum os larápio?

–  Vamo vê si eles vão pagá pela compra qui fizero na fazenda, si não, nóis dá uma

coça pra criá bicho no lombo dos dois e ainda joga no mêi da freguesia pra todo mundo vê!

–  Olha senhor Randolpho, nós não tínhamos má intenção, é que nós vimos seus

pés tão carregados de fruta, que pensamos que não fariam falta ao senhor, por favor, perdoe-nos! Nunca mais poremos os pés nas terras dos Lopes de Faria!

Por um instante Randolpho olhou para a Mentor nas mãos do fotógrafo alemão e

não teve dúvidas de como pagariam pela “feira” que fizeram:

–  Eu posso deixa ocêis ir simbora com uma condição.

–  Então o senhor diga, nós faremos o que for preciso! – respondeu afoito o

mascate.

-Eu quero qui o tár fotografo tire uma foto de minha pessoa muntado no meu

cavalo! É assim, ou num tem conversa!

Os dois invasores se entreolharam com alívio absoluto na face, e com sorriso ofegante, o alemão respondeu:

–  Mas é claro, claro que Tito seu retrato, meu jovem! Faço isso com muito gosto!

Posicione-se como quiser, onde quiser que eu farei uma foto belíssima de sua pessoa em seu cavalo.

–  Intão pode tirar aqui mermo, ta bão. – disse Randolpho não querendo

Demonstrar toda sua euforia.

Os empregados se juntaram próximos ao curral pra assistir à magia de uma maquineta captar a imagem do patrão. O fotógrafo ajeitou a Mentor e fez seu trabalho com muita paciência e maestria.

E foi assim, que a única imagem do meu bisavô ficou gravada na história, sentado em seu cavalo, perto do curral mal-ajambrado, nas terras virgens dos Lopes de Faria.

O fotógrafo alemão? Era nada menos que Revert Henrique Klumb, Preferido pela Imperatriz Tereza Cristina, professor de fotografia da Princesa Isabel! Morou em Petrópolis e viajou por Minas, nas proximidades de Juiz de Fora. Klumb publicou um livro um dos livros mais raros ilustrados com fotografias feitos no país durante o século XIX: Doze horas em diligência – guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, de 1872.

Bendito dia em que um mascate larápio resolveu dar carona a um fotógrafo encantado com as belezas de Minas!


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