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'...Macaé, ano I, Nº 43 - 24 de novembro A 1 de dezembro de 2006
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Fim dos Tempos

Aquele era o último dia do ano e mais uma vez tava todo mundo alvoroçado como em todos os últimos dias de todos os outros anos, só que dessa vez a despedida seria ainda maior, pois estava chegando ao fim um século onde a sucessão dos fatos fez o tempo voar como nunca.

A ansiedade arrebatava os ânimos e fez com que saíssemos às pressas pra casa dos tios onde seria realizada a ceia de ano novo.

Chegando lá, a primeira visão que tive foi a do cachorro dormindo de barriga pra cima enquanto as mulheres da casa corriam pra lá e pra cá acertando os últimos detalhes. Eram quase meia noite e eu não parava de olhar aquela figura peluda, desplugada do mundo, roncando debaixo da amoreira. Será que ele não sabia que era noite de ano novo? Dormia profundamente sem se incomodar com os instantes finais de uma era inteira! O coitado só não imaginava que em poucos minutos seria brutalmente acordado pelo foguetório da virada. Uma das tias trouxe um relógio com pernas e pôs em cima da grande mesa montada no quintal. Faltava pouco pro ponteiro chegar lá, mas assim como o cão, eu não queria me envolver tanto com o fato.

Quando a parentada começou a se reunir em volta da mesa, estava eu num canto distraída só aguardando o primeiro grito ou o primeiro foguete pra começar logo a comer. Foi então que todos se olharam perplexos ao perceber que o objeto de pernas em cima da mesa parou de repente. Foi aquela decepção. O velho e enferrujado tic-tac pifou quase em cima da hora.

–Não faz mal! -gritou o tio mais velho - Estou com o meu relógio e posso contar o tempo.

–Quanto falta? - perguntou a cunhada

–Quatro minutos e meio. - conferiu o tio.

Todos queria ser os donos do tempo e dar importância aos seus companheiros de pulso, e até um parente do marido de uma das tias retrucou:

–Seu relógio tá meio lento, no meu faltam só dois.

A adolescente da casa quis competir:

–Vocês estão muito apressadinhos, meu celular marca cinco pra meia noite.

Foi então que a matriarca arrematou:

–O único relógio certo aqui é o meu, que anda juntinho com o da torre da igreja.

Todos respeitaram e calados esperavam que lhes fosse indicado o tempo. Como a vovó também permaneceu calada, meu primo perguntou:

–Então vó, diz quanto marca no seu museu aí?

E com a cara mais séria do mundo ela respondeu:

–Meia noite e um.

O silêncio se prolongou por mais um minuto como se houvesse algum tipo de homenagem póstuma ao ano que se foi. Passado o susto vieram os foguetes, os berros e abraços de "feliz ano novo". O cachorro acordou aos pulos e se enfiou no quartinho de despejo.

Eu, no entanto, fui levada pela fome até a mesa e me fartei naquele pernil assado de sempre. Enquanto comia, me lembrava de que quando menina nunca entendi muito bem essa história de comemorar passagem de ano. E entendia menos ainda ser feriado no primeiro dia.

Quando os ânimos se acalmaram um pouco e o arsenal pirotécnico se foi, acompanhei o velho cão sair desconfiado do quartinho escuro e novamente ir se deitar debaixo pé de amora. Percebi que naquele instante, o único parente próximo que tinha era o cachorro, pelo instinto e porque ambos tinham medo de foguete.

Ele não se dava conta de que a cada data daquela se aproximava mais de seu fim. Eu, apesar de ter consciência disso, também pouco me importava. E até hoje deixo que o tempo se vá, que mude, que pare e até que enguice. Afinal, quem tem que se preocupar com o tempo são os suíços, eles sim possuem as maiores fábricas de relógios do mundo.

Eu não. Eu nem uso relógio!


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