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'...Macaé, ano I, Nº 41 - 3 a 10 de novembro de 2006
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Guimba

Deu o último trago e jogou a guimba pela janela. O incandescente objeto viajou por doze andares até encontrar um toldo amarelo pelo caminho.Atravessou a lona com o que restou de sua brasa e morreu numa xícara de café. O freguês do bistrô, que lia distraído a página de classificados do Diário da Tarde, levou sutilmente a xícara até a boca sem perceber que na espuma de seu expresso havia uma interferência. Bebeu o café e o devolveu aos ares com os mesmos lábios que já gritavam o garçom:

_ Que absurdo é esse? Quem fez essa brincadeira de mal gosto? Eu exijo uma explicação muito convincente! Onde já se viu, uma guimba de cigarro no meu café!

_Perdão, senhor, não estou entendendo!

_Como assim não está entendendo? Por um acaso o café aqui vem com guimba no lugar do biscoitinho de nata?

_O senhor está me dizendo que tem uma guimba no seu expresso?

_Olha, seu inútil! Não está vendo aqui na mesa? O que me diz dessa palhaçada?

O garçom coçou a cabeça, fitou os olhos no objeto encharcado, na xícara, no freguês, depois se atreveu:

_Eu lhe trago outro café.

O homem encheu os pulmões com violência, franziu a testa e soltou:

_Chame seu superior.

Segundos depois voltou o garçom trazendo um baixinho de bigodes que dizia ser o dono do bistrô. O freguês, sem rodeios, puxou um documento da carteira e em pouco tempo as portas do estabelecimento foram lacradas.

O homem que tomava tranqüilamente seu café e lia o Diário da Tarde era um impaciente funcionário da vigilância sanitária. Além de fechar o bistrô por tempo indeterminado, aplicou uma multa ardente pelo fato, que foi paga pelo garçom pouco antes de ser demitido.

O baixinho de bigodes desolado com a circunstância, bateu seu automóvel na volta pra casa subindo o prejuízo e a desgraça daquele dia.

O garçom, ao reencontrar a esposa e esclarecer-lhe o episódio e suas conseqüências, fora mais uma vez chamado de inútil e abandonado em seguida.

Meses depois, eis o que o arremesso inconveniente causou:

O baixinho de bigodes abriu uma casa lotérica e foi assaltado três vezes;

O garçom matou a mulher e se enforcou;

O vigilante sanitário nunca mais tomou café.

E o cara do décimo segundo andar?

Este fora internado há duas semanas com enfisema pulmonar na Santa Casa.


O Esquife

Parei por um momento o meu café e corri para o jardim. Eram oito horas da

Manhã, e eu ainda nem havia tirado o pijama. Foi a primeira cena verdadeiramente marcante que registrei na nova cidade: exatamente quatorze pessoas, todas negras, empurrando uma estrutura metálica com rodas de bicicleta que por sua vez sustentava um enorme caixão sem muitos ornamentos. À frente, um dos seguidores levava a coroa de flores, que assim como a caixa do defunto não era lá essas coisas. Ninguém aparentava tristeza ou desolamento, estavam todos voltados para a vida, absortos e confiantes na vida. Apenas uma velha senhora que se escorava num rapaz parecia andar com dificuldades, mas talvez fosse coisa da idade mesmo.Deduzi que pudesse ser a viúva. Sim, porque pelo tamanho do objeto de madeira imaginei que só poderia estar guardando o corpo de um homem, e pela feição dos que o levavam sua morte não foi tão inesperada, portanto, deveria ser mesmo um homem velho.

Aos passos largos e apressados o enterro foi deixando minha rua. Os vizinhos e os sabiás quebraram o silêncio voltando à agitação feroz e sem finalidade que é a vida.

Para minha surpresa, vim saber mais tarde que a matéria que passava era de fato de um senhor negro, alto de quase noventa anos conhecido por seu Manuel, que ao contrário do Bandeira, estava liberto para sempre da alma extinta.


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