Fundado em 16 de abril de 1932

'...Macaé, ano I, Nº 37 - 6 a 13 de outubro de 2006
Não perca o Caderno R. Cultura, Educação e Entretenimento. Exclusivo para O Rebate on Line
Acontecências
Acontecências II
Acontecências III
Alô Galera
APS
Astrologia
Coisas da Rua do Meio
Colunistas
Culinária
Direito do Consumidor
Direitos Humanos
Escaladas
Jornais do Mundo
Liga Operária
Livros
Luta armada
Meio ambiente
Miséria humana
Movimento hippie
Namorofóbicos
Nossas ilhas
Palavra de Filósofo
Pensamentos
Petrobrás/Petróleo
Pharmacia
Piadas Brasil/Portugal
Pornografia
Procuras emprego?
Reforma agrária
Telefones úteis
Turismo
Umbanda

Relatos Autobiográficos:

A Primeira Infância

Por: Jacqueline Salgado

Viçosa ainda era uma menina quando eu nasci.

Pelas ruas serpenteava o trem de ferro da RFFSA, que atravessava a cidade de ponta a ponta e adentrava pela universidade. Do berçário até minha casa bastava saltar duas ruas e um par de trilhos! A família, muito numerosa, colocou-me em evidência ante a falta de crianças, e nada do que eu fazia era considerado um erro, aprendi desde cedo o que é a distorção sensorial psíquica - ao que mais tarde eu viria a ser cobrada de uma forma corrosiva, justo na puberdade!

Muitos foram os fatos que marcaram meus primeiros quatro anos. Imagens, sons, cheiros e sensações que se fundiram e ainda hoje insistem em ficar estampados na memória, como se o tempo nada pudesse remover. Daquilo que ficou posso ressaltar duas experiências raramente vividas por uma criança de um ou dois anos, mas que foram tão comuns para mim nesse período da vida quanto um banho de sol na praça da matriz!

A idéia fixa em fugir diariamente pelas grades da varanda é o primeiro fato marcante de minha infância. A casa era antiga, pequena, ficava nos fundos, não havia muito espaço para ver os trilhos do trem, somente na pequena varanda da entrada, onde eu me acostumei a driblar quem me acompanhasse e escapava ora por entre os balaústres, ora por entre as grades. Quando o trem apitava então, não havia ninguém que me fizesse segura no interior da casa, nem mesmo uma bacia de alumínio cheia d'água no quintal! Foram tantas fugas e tentativas delas que logo me tornara conhecida por toda a vizinhança. Uma vez, ao desembarcar na casa dos tios em Pirapora MG, coloquei a família em pânico pela cidade a minha procura, só porque eu parti em busca do mundaréu de água do Rio São Francisco que me haviam prometido na viagem! Contentei-me com um poço turvo de água da chuva que topei pelo caminho e assim ficou mais fácil da família e da polícia me encontrar. Valeu à pena ter fugido naquele dia, eu saí em busca de um rio e acabei brincando num poço! Depois disso eu percebi que poderia sonhar bastante, e que se o sonho ficasse pela metade a frustração seria pouca! Minhas fugas sempre tiveram um porquê, a infância foi a única fase da minha vida em que as coisas que eu fazia tinham algum sentido.

Com tantas peripécias, minha mãe logo tratou de arranjar uma babá. A coitada da minha prima Luciana já não dava mais conta de estudar e ficar de olho numa criança tão espevitada! Chegou então a tal babá, uma moça de fala mole e olhar perdido que logo conquistou minha confiança. Chamava-se Lúcia. Duas vezes ao dia me levava pra passear pelas redondezas, às vezes na casa de meus avós um pouquinho acima na mesma rua, outras vezes íamos á praça principal, ou pelo caminho dos trilhos ou simplesmente andávamos pela calçada do hospital, que ficava quase em frente a minha casa.

Com os passar dos dias a babá deixou de me levar até os avós, não ia mais até a praça, nem passeava pelos trilhos, o único lugar que ela me levava com freqüência era o estacionamento do hospital. Mas o que teria de tão atrativo num estacionamento de hospital? Pra mim não havia nada, embora eu gostasse de atravessar os trilhos, mas ela tinha o estranho hábito de ver pessoas dormir sobre uma mesa. A Lúcia me tomava no colo e aos passos discretos entrava por uma portinha na lateral do hospital. O lugar era o necrotério. As pessoas não dormiam, aguardavam a perícia ou o trabalho da funerária! Minha pobre cabecinha miúda não conseguia entender por que certa vez, havia um que “dormia” pelado naquele frio todo de Viçosa e ainda por cima com a barriga toda costurada! E a moça com a roupa suja e rasgada, “tadinha”, tinha um cheiro tão ruim que até hoje consigo puxar pelo nariz! Os olhos perdidos da babá se arregalavam por alguns instantes em cima dos corpos estáticos, como se ela se enchesse de vida e se sentisse com sorte por não estar no lugar deles. Ela então voltava pra casa confiante, com a “criança da patroa” nos braços, e com a satisfação de quem ganhara no jogo do bicho. E assim, diariamente, eu era obrigada a fitar os presuntos do necrotério do Hospital São Sebastião, até o dia em que minha mãe descobriu, e apavorada mandou a moça “catar coquinho”! Rumores se espalharam pela cidade...a coitada da babá levou fama de psicopata, de feiticeira e até de necrófila! Mas eu estava de prova: ela só olhava com os olhos saltados!

Para o bem da verdade, nenhum mal isso me fez, pelo contrário, se tivesse feito medicina teria grande chance de ser legista! O único incômodo disso tudo é o odor, meu estômago ainda é fraco! Tenho mais medo de ver um morto num caixão do que na cena do crime, por exemplo!

A pobre babá teve um fim tão trágico quanto o das muitas pessoas daquele seu voyerismo estranho: foi assassinada pelo namorado dentro de um hotel em construção, seu corpo só foi encontrado 3 dias depois. Que destino! Aquela sensação talvez não fosse de confiança, mas de certeza.

E só para não terminar esse relato autobiográfico da primeira infância assim tão mórbido, vou contar o que eu fiz dentro do poço de água da chuva em Pirapora: entrei, molhei os sapatos e as meias brancas, depois juntei as mãos, enchi de água e ...o resto vocês já sabem!

Ai ai, a pureza da infância! Como eu disse, a única fase da minha vida em que as coisas que eu fazia tinham algum sentido!

 

Recomendamos o Mozilla Firefox. Clique aqui para baixar a versão 1.5
© Artimanha