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'...Macaé, ano I, Nº 35 - 22 a 29 de setembro de 2006
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Entre o joio e o joio

Henrique Júdice Magalhães (*)
Porto Alegre - RS
Especial para O Rebate On Line

À medida que aproximam-se as eleições, revela-se mais acertada uma tese exposta pelo ex-deputado argentino Luis Brunatti na entrevista que concedeu a Fernando Solanas em Memoria del Saqueo, o magnífico inventário da destruição da Argentina produzido por este.

Falando sobre a classe política de seu país e a desconexão entre o comportamento dela e os anseios populares, Brunatti diz: "Eu não tenho dúvida de que se fosse oferecido a esta sociedade votar em San Martín ou no Homem Aranha, ela votaria em San Martín; mas se ela for obrigada a escolher entre o Homem Aranha e alguma outra coisa como o Cavaleiro Vermelho, como se pode culpar o povo?"

Isto vem a propósito do recente surto demófobo de alguns auto-investidos próceres da moralidade nacional. Para estes senhores, a reeleição de Luís Inácio Lula da Silva seria reflexo de falhas intrínsecas de caráter do eleitorado brasileiro.

Em artigo publicado na Folha de São Paulo do dia 24/08, o sr. Otávio Frias Filho diz que a vitória de Lula terá "um significado sinistro" e, de ocorrer no primeiro turno, "a afoiteza do eleitor terá prejudicado a qualidade democrática desta eleição". No dia 31, foi ao ar o destampatório do senador Jéferson Peres no horário eleitoral, acusando de falta de ética os eleitores que votam em Lula. Por fim, no dia 04/09, o sr. Fernando Henrique Cardoso, em O Estado de São Paulo , desandou a falar em "descalabro moral" e "República da Malandragem" num artigo-chilique travestido de análise sociológica.

O que queriam?! Que a população votasse em peso num partido claramente antipopular tendo por critério o que afirma o jornal do sr. Frias sobre quem é ou não "ético"? Seria muita pretensão, principalmente quando é de domínio público que a direita demófoba representada por PSDB e PFL está repleta de gângsters que poderiam dar aulas de corrupção aos neófitos petistas.

Frias e FHC são tucanos. Mas Peres, embora já o tenha sido, pertence hoje ao partido fundado por Leonel Brizola. Se mimetiza uma postura udenóide, isto apenas reforça a tese de Brunatti sobre a ausência de culpa do eleitorado na exata medida da ausência de alternativas reais. Nas mãos de dirigentes medíocres e de baixo perfil ideológico, o PDT, optou por lançar um candidato neoliberal, abrindo mão, da possibilidade de reivindicar o nacionalismo popular brizolista. Quanto ao PSoL, ainda não se sabe se é alternativa ao PT ou se, da matrioshka, saiu outra menor e idêntica a ela.

O mesmo FHC cujo governo tinha como fundamento, explicado à época pelo crápula Giannotti no jornal do sr. Frias, a "ética da responsabilidade" em contraponto à da convicção ou dos princípios, escandaliza-se agora com o "abrandamento entre norma e conduta" e pergunta "como é possível que, diante de tanto descalabro moral, as pessoas votem em consolidar uma situação governamental cujos pecados são expostos sem qualquer remorso".

A grande massa escolhe Lula porque este parece-se com ela exteriormente e é por isto alvo de preconceito aberto. Simples assim. É claro que ao fazer isso não está assegurando para si futuro algum, já que não é com ela que Lula tem seus compromissos; mas que demonstre tão vigoroso instinto de classe em meio à tempestade produzida nos últimos três anos pela imprensa contra o governo federal, é algo salutar.

É uma herança nefasta deste governo a regressão da consciência de classe dos trabalhadores brasileiros ao mero instinto, bem como o rebaixamento do horizonte de suas aspirações à dimensão comezinha dos programas assistenciais. Mas não é isto que se discute com esses senhores. O que eles queriam é que, impressionada pela gritaria de um oligopólio de imprensa controlado por sete famílias, a população abrisse caminho à marcha triunfal da direita vende-pátria.

Ao contrário, o que a maioria esmagadora do eleitorado demonstra é o desejo inequívoco de barrar-lhe o retorno de uma vez por todas. Expressam este desejo os votos de Lula e boa parte dos de Heloísa Helena - cujo eleitorado se move, na maioria, por um saudável impulso de inconformismo face à hegemonia neoliberal em suas expressões tucana e petista. Se estes dois candidatos não estão à altura de seus votos, é outra história. Até porque o significado desta eleição não será, ao contrário do que escreve Frias, a anistia ao PT, mas a condenação definitiva da plutocracia que o dono da Folha e FHC representam.

(*) Jornalista.


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