
Rosa sobre neve
Henrique Júdice Magalhães (*)
1
Foi ao som de A dama de vermelho que colaram o rosto pela primeira vez.
Desde o começo do baile, dançavam trocando olhares e palavras cheios de interrogação e carinho. O fulgor dos olhos dela banhava de claridade a meia luz da pista.
Enquanto ele inspirava o perfume de seus cabelos longos e sedosos, sentiu o calor e a maciez que ela trazia na pele. Acariciou-a deslizando a mão direita por suas costas até a nuca enquanto, com a esquerda, enlaçava-a pela cintura.
Abraçaram-se.
2
Ela surgira na vida dele da mesma maneira que seu sorriso, tingido de um vermelho intenso, florescia sobre a pele alva de seu rosto: como rosa sobre a neve.
Haviam se conhecido através de uma amiga. No primeiro dia, trocaram poucas palavras. Mas quando seus olhares se cruzaram, ele estremeceu. Ao despedirem-se, ela abraçou-o intensamente. Em casa, ele dormiu pensando nela.
3
Reencontraram-se um mês depois.
Ao adentrar o salão, ele a viu sentada junto a uma conhecida. Ela vestia uma blusa vermelha, quase do mesmo tom com que tingia os lábios. Cumprimentaram-se. Ela sorriu.
Era uma mulher elegante. Andava reta e de cabeça erguida, o que fazia com que parecesse mais alta. Seus passos eram leves mas decididos, e os gestos, resolutos e ao mesmo tempo delicados. Parecia ser mais jovem.
Chamava a atenção naturalmente, sem procurar fazê-lo. É provável que gostasse de brilhar, como toda leonina. Mas para tanto, não precisava fazer nada além de ser o que era.
4
Vaidosa, gostava de enfeitar-se com brincos e colares.
Jóia nenhuma, porém, brilhava mais que seus olhos.
Verdes, grandes e redondos, eles revelavam todo o calor de sua alma, repleta de uma ternura salpicada por faíscas de angústia ou de desejo. Tinham luz de luar, calor de sol e brilho de estrela.
5
Pouco antes de entrar na casa dela, beijaram-se. Seus lábios eram quentes e macios como seu olhar e revelavam uma mulher docemente impetuosa.
Em casa, ela olhava-o fixamente, por minutos que pareciam uma eternidade.
Olhavam-se calados, de mãos dadas. Ela tinha as mãos firmes e macias.
Sentados no sofá da sala, durante mais de uma hora, haviam conversado sobre todos os medos e desejos. Trocavam carícias com as mãos e os lábios.
Ele sentiu nas mãos o calor dos seios dela, que pareciam queimar por dentro.
Ela levantou-se. Ele estremeceu. Agora era o olhar dele que queimava, cheio de interrogação.
Naquela noite, dormiram abraçados, sentindo cada palmo da pele um do outro.
6
Ele gostava quando ela falava-lhe com os olhos. Procurava desesperadamente entendê-la para amá-la melhor e era pelo olhar que ela se revelava toda.
Como quase toda descendente de alemães, ela parecia ter sido ensinada a conter as emoções, muitas vezes intensas, que trazia na alma. Elas, porém, afloravam à luz daqueles olhos verdes.
7
Seguiam-se as noites.
Enquanto ia e vinha sobre ele, ela alternava olhares de tempestade com outros de pura alegria. Conversavam. Ela falava de seus desejos enquanto, com um sorriso, enchia o quarto de felicidade.
8
Entre os momentos de entrega, um sentimento de apreensão tomava conta de ambos. Ela tinha uma viagem marcada.
Falava em ir em busca do mar. Ele escutava.
Sabia que não podia detê-la e nem o desejaria. Admirava nela, desde o primeiro momento, aquele jeito de mulher enérgica, senhora e dona do próprio destino. Mas desde que, na primeira manhã, vira-a tão linda e tão calmamente adormecida, sentiu que suas vidas estavam agora indissoluvelmente atadas.
Imaginou-a caminhando na beira da praia, a olhar calma o horizonte enquanto seu corpo se cobria de sol e sal do mar. Desejou ardentemente dar-lhe as mãos e sentir junto com ela, contra o rosto, a brisa marinha. Se ela permitisse, para sempre.
(*) Jornalista e tradutor. Ex-repórter de Carta Maior e correspondente do jornal A Nova Democracia para a região sul.
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