Fundado em 16 de abril de 1932

'...Macaé, ano I, Nº 33 - 8 a 15 de setembro de 2006
Não perca o Caderno R. Cultura, Educação e Entretenimento. Exclusivo para O Rebate on Line
Colunistas
Adriano Benayon
Alberto Acosta
Almir da Silva Lima
Ana Cristina Gama
Andrei Bastos
Angela Maria
Antonio R. Nóbrega
Carolina Oliveira
Ceci Juruá
Ciro Campelo
Cristina Vieira
Daniel Felipe Matos
Daniele Fernandes
Denise Barreto
Denise Calixto
Edson Monteiro
Fabiana Madruga
Fernando Cruz
Francisco C. Arduim
Giulianna Medeiros
Guto Glória Sardinha
Henrique Júdice
Isabella Maciel
José Carlos Bocardi
José Milbs
Langstain Almeida
Leandro Domingues
Letízia Borges
Manoel Barbosa Filho
Marcel Silvano
Mariana Gama Soares
Marly Santiago
Milton Nunes Filho
Miriam Reid
Moctezuma Pinto
Monique Cruz
Patrick Francisco
Phydias Barbosa
Ricardo Brandes
Rui Nogueira
Vanessa Gonçalves
Vera Lúcia Gama

Entre o joio e o joio

Henrique Júdice Magalhães (*)
Porto Alegre - RS
Especial para O Rebate On Line

À medida que aproximam-se as eleições, revela-se mais acertada uma tese exposta pelo ex-deputado argentino Luis Brunatti na entrevista que concedeu a Fernando Solanas em Memoria del Saqueo, o magnífico inventário da destruição da Argentina produzido por este.

Falando sobre a classe política de seu país e a desconexão entre o comportamento dela e os anseios populares, Brunatti diz: Eu não tenho dúvida de que se fosse oferecido a esta sociedade votar em San Martín ou no Homem Aranha, ela votaria em San Martín; mas se ela for obrigada a escolher entre o Homem Aranha e alguma outra coisa como o Cavaleiro Vermelho, como se pode culpar o povo?"

Isto vem a propósito do recente surto demófobo de alguns auto-investidos próceres da moralidade nacional. Para estes senhores, a reeleição de Luís Inácio Lula da Silva seria reflexo de falhas intrínsecas de caráter do eleitorado brasileiro.

Em artigo publicado na Folha de São Paulo do dia 24/08, o sr. Otávio Frias Filho diz que a vitória de Lula terá "um significado sinistro" e, de ocorrer no primeiro turno, "a afoiteza do eleitor terá prejudicado a qualidade democrática desta eleição". No dia 31, foi ao ar o destampatório do senador Jéferson Peres no horário eleitoral, acusando de falta de ética os eleitores que votam em Lula. Por fim, no dia 04/09, o sr. Fernando Henrique Cardoso, em O Estado de São Paulo , desandou a falar em "descalabro moral" e "República da Malandragem" num artigo-chilique travestido de análise sociológica.

O que queriam?! Que a população votasse em peso num partido claramente antipopular tendo por critério o que afirma o jornal do sr. Frias sobre quem é ou não "ético"? Seria muita pretensão, principalmente quando é de domínio público que a direita demófoba representada por PSDB e PFL está repleta de gângsters que poderiam dar aulas de corrupção aos neófitos petistas.

Frias e FHC são tucanos. Mas Peres, embora já o tenha sido, pertence hoje ao partido fundado por Leonel Brizola. Se mimetiza uma postura udenóide, isto apenas reforça a tese de Brunatti sobre a ausência de culpa do eleitorado na exata medida da ausência de alternativas reais. Nas mãos de dirigentes medíocres e de baixo perfil ideológico, o PDT, optou por lançar um candidato neoliberal, abrindo mão, da possibilidade de reivindicar o nacionalismo popular brizolista. Quanto ao PSoL, ainda não se sabe se é alternativa ao PT ou se, da matrioshka , saiu outra menor e idêntica a ela.

O mesmo FHC cujo governo tinha como fundamento, explicado à época pelo crápula Giannotti no jornal do sr. Frias, a "ética da responsabilidade" em contraponto à da convicção ou dos princípios, escandaliza-se agora com o "abrandamento entre norma e conduta" e pergunta "como é possível que, diante de tanto descalabro moral, as pessoas votem em consolidar uma situação governamental cujos pecados são expostos sem qualquer remorso".

A grande massa escolhe Lula porque este parece-se com ela exteriormente e é por isto alvo de preconceito aberto. Simples assim. É claro que ao fazer isso não está assegurando para si futuro algum, já que não é com ela que Lula tem seus compromissos; mas que demonstre tão vigoroso instinto de classe em meio à tempestade produzida nos últimos três anos pela imprensa contra o governo federal, é algo salutar.

É uma herança nefasta deste governo a regressão da consciência de classe dos trabalhadores brasileiros ao mero instinto, bem como o rebaixamento do horizonte de suas aspirações à dimensão comezinha dos programas assistenciais. Mas não é isto que se discute com esses senhores. O que eles queriam é que, impressionada pela gritaria de um oligopólio de imprensa controlado por sete famílias, a população abrisse caminho à marcha triunfal da direita vende-pátria.

Ao contrário, o que a maioria esmagadora do eleitorado demonstra é o desejo inequívoco de barrar-lhe o retorno de uma vez por todas. Expressam este desejo os votos de Lula e boa parte dos de Heloísa Helena - cujo eleitorado se move, na maioria, por um saudável impulso de inconformismo face à hegemonia neoliberal em suas expressões tucana e petista. Se estes dois candidatos não estão à altura de seus votos, é outra história. Até porque o significado desta eleição não será, ao contrário do que escreve Frias, a anistia ao PT, mas a condenação definitiva da plutocracia que o dono da Folha e FHC representam.

(*) Jornalista.

Configuração mínima: 800x600. Recomendamos o Mozilla Firefox. Clique aqui para baixar a versão 1.5
Criação e manutenção Artimanha