MUDAR DE ÁREA DE ATUAÇÃO NEM SEMPRE É FÁCIL ..
Francisco Carlos Arduim
Uma senhora pega um táxi e indica a direção do Hotel onde está hospedada.
O taxista, por incrível que pareça, não disse nada durante todo o percurso,até que a senhora resolveu fazer-lhe uma pergunta e tocou levemente em seu ombro.
Ele gritou, perdeu o controle do carro e por pouco, não provocou um enorme acidente.
Com o carro sobre a calçada, a senhora, assustadíssima, virou-se para o taxista e disse:
S - Mas o senhor estava dirigindo tão bem! Como é que pôde quase ter um treco por conta de um simples toque no ombro?
T - Não me leve a mal, senhora, mas... É que esse é o meu primeiro dia como
taxista.
S - E o que o senhor fazia antes disso? - perguntou ela.
T - Eu fui, por 25 anos, motorista de carro funerário.
TIPOS DE ASSALTANTES:
PARAIBANO:
- Ei, bichim
- Isso é um assalto
- Arriba os braços e num se bula, num se cague e num faça munganga
- Arrebola o dinheiro no mato e ñ faça pantim, senão enfio a peixeira no teu bucho e boto teu fato pra fora
- Perdão meu Padim Ciço, mas é q eu tô com uma fome da moléstia.
BAIANO:
- Ô meu rei. (pausa)
- Isso é um assalto...(longa pausa)
- Levanta os braços, mas ñ se avexe ñ (outra pausa)
- Se num quiser nem precisa levantar, pra num ficar cansado
- Vai passando a grana, bem devagarinho(pausa pra pausa)
- Num repara se o berro está sem bala, mas é pra ñ ficar mto pesado.
- Ñ esquenta, meu irmãozinho, (pausa)
- Vou deixar teus documentos na encruzilhada.
MINEIRO:
- Ô sô, prestenção...isso é um assarto, uai.
- Levanta os braço e fica quetin quêsse trem na minha mão tá cheio de bala
- Mió passá logo os trocados q eu num tô bão hj
- Vai andando, uai ! Tá esperando o quê, sô
CARIOCA:
- Seguiiinnte, bicho
- Tu te fudeu, mermão. Isso é um assalto. Perdeu, perdeu!
- Passa a grana e levanta os braços, rapá .
- Ñ fica de bobeira q eu atiro bem pra caralho...
- Vai andando e se olhar pra traz vira presunto.
PAULISTA:
- Ôrra, meu
- Isso é um assalto, mano
- Levanta os braços, mané
- Passa a grana logo, mano .
- Mais rápido, meu, q eu ainda preciso pegar a bilheteria aberta pa comprar o ingresso do jogo do Curintia, mano
- Pô, se manda, mano
GAÚCHO:
- O guri, ficas atento
- Bah, isso é um assalto
- Levanta os braços e te aquieta, tchê!
- Ñ tentes nada e cuidado q esse facão corta uma barbaridade, tchê
- Passa as pilas prá cá!
- E te manda a la cria, senão o 44 fala
ASSALTANTE EM BRASÍLIA
- Querido povo brasileiro, estou aqui no horário nobre da TV p
dizer q no final do mês, aumentaremos as seguintes tarifas:
Energia
Água
Esgoto
Gás
Passagem de ônibus
Imposto de renda
Licenciamento de veículos
Seguro Obrigatório
Gasolina
Álcool
IPTU
IPVA
IPI
ICMS
PIS
COFINS
etc
Pensando bem é preciso reciclar
Viver bem, às vezes, é só uma questão de recomeçar, reaprender, reciclar. Para que tudo tenha um novo impulso, ganhe uma nova luz. Reciclar para imprimir novas palavras, novas experiências, novos sentimentos. Avaliando erros para gerar acertos, mudando trajetos para entender os caminhos, olhando a vida, todo dia, com o coração novinho em folha. Pensando bem, é esse o nosso papel, o que nos dá sentido. Pois se fazendo como sempre foi feito a gente acaba chegando ao mesmo lugar, melhor então é rever, com clareza, o que verdadeiramente queremos, buscar sabedoria no que já fizemos e aí, então, realizar de outra maneira, fazer diferente, reinventar. Crer para ver que há um poder impaciente por se revelar a quem não desiste, recria, vai em frente, buscando sempre, dentro de si, o melhor. (autor desconhecido)
ÚLTIMAS NOTÍCIAS DE LISBOA
"Gêmeo tenta se suicidar e mata o irmão por engano
" DISK FINADOS Lançaram em Portugal, o novo serviço por telefone, é o
Disk-Finados. Você telefona e ouve um minuto de silêncio !
CURVA PERIGOSA
O português estava dirigindo em uma estrada, quando viu
uma placa que dizia: "Curva Perigosa à Esquerda". Ele não teve dúvidas:
virou à direita!
AGENDA DE TELEFONE
Por que os portugueses usam somente a letra "T" em suas
agendas de telefone? Telefone do Antonio, telefone do Joaquim, telefone
do Manoel, telefone do Pereira...
LOJA DE SAPATOS
O Manuel foi, na segunda-feira, a uma loja de sapatos.
Escolheu, escolheu e acabou se decidindo por um par de sapatos de cromo
alemão. O vendedor entregou o sapato, mas foi logo advertindo-o:
- Sr., estes sapatos costumam apertar os pés nos primeiros cinco dias.
- Não tem problema. Eu só vou usá-los no domingo que vem.
ASTRONAUTA PORTUGUÊS
A Nasa enviou ao espaço 3 macacos e 1 português: -
Nasa para a Nave.
- Macaco Nº 1, configurar painel de controle da espaçonave.
- Configuração efetuada
- Macaco Nº 2, verificar a pressurização da espaçonave. -
Pressurização verificada !
- Macaco Nº 3, alinhar a rota da espaçonave. - Rota alinhada
! - Astronauta português... - Já sei, já sei. Põe comida para os
macacos e não mexe em nada...
NO SEXO
- Manuel, você gosta de mulher com muito seio?
- Não, pra mim dois já tá bom.
NO TRABALHO
Conversa entre o empregado e o chefe, ambos portugueses:
- Chefe, nossos arquivos estão super lotados, posso jogar fora os que tem
mais de 10 anos?
- Sim, mas antes tire uma cópia de todos.
NO CHUVEIRO
Manuel está tomando banho e grita para Maria:
- Ô Maria, me traz um shampoo.
E Maria lhe entrega o shampoo. Logo em seguida, grita novamente:
- Ô Maria, me traz outro shampoo.
- Mas eu já te dei um agorinha mesmo, homem !!!
- É que aqui está dizendo que é para cabelos secos e eu já molhei os meus.
SEGURANÇA O filho do português chega pro pai e diz: - Papai, posso ir
lá fora ver o eclipse? - Pode meu filho, mas não chegue muito perto.
MOTIVO -
Por que o banco 24h não deu certo em Portugal?
- Porque dava 23:30 e já tinha uma fila enorme. SORTE O português vê uma máquina de Coca Cola e
fica maravilhado. Coloca uma fichinha e cai uma latinha. Coloca 2 fichinhas
e caem 2 latinhas. Coloca 10 fichas e caem 10 latinhas. Então ele vai ao
caixa e pede 50 fichas. Diz então o caixa: - Desse jeito o Sr. vai acabar com
as minhas fichas. - Não adianta, eu não paro enquanto estiver ganhando.
BRINCANDO COM O PERIGO
O assaltante aborda o Manoel no meio da rua. -
Pare! - grita.
- Impare! - grita de volta o Manoel estendendo três dedos.
-Mas eu estou te roubando - explica o assaltante.
- Então não brinco mais!
SEGREDOS O português passava em frente a um chaveiro quando viu uma
placa:
"Trocam-se segredos".
Parou abruptamente, entrou na loja, olhou para os lados e cochichou para o balconista:
- Eu sou gay, e você?!
CONFIANÇA
Essa aconteceu num quartel de Lisboa. O Joaquim estava dando guarda quando se aproxima um jipe com um soldado, ele aponta o fuzil para a cabeça do motorista do jipe e pergunta rispidamente:
- Você sabe a senha?
- Sei.
-Tudo bem, pode passar.
DOIS BASTAM - Você sabe quantos portugueses são necessários para
afundar um submarino? - Dois. Um bate na porta, o outro abre!
SELF-SERVICE - Como é restaurante self-service de português? - O
cliente é pesado, na entrada e na saída.
NO SUPERMERCADO - Por que o português cada vez que compra uma caixa de leite,abre-a, ali mesmo, no supermercado? - Porque na caixa está escrito :
"Abraaqui."
CELULAR - Você sabe por que o português sempre deixa o celular em cima
da máquina de lavar? - Para não ficar fora da área de serviço!
PORQUE É BOM SER HOMEM
1. Uma viagem de cinco dias requer apenas uma mochila.
2. Conversas telefônicas acabam em 30 segundos ou menos.
3. Nada de filas para o banheiro.
4. Você consegue abrir as tampas dos potes.
5. Ao passear pelos canais da TV, você não tem que parar quando vê alguém
chorando.
7. Você não tem que carregar uma bolsa cheia de tralha pra cima e pra
baixo.
8. Você pode ir ao banheiro sem um grupo de apoio.
9. Se seu trabalho é criticado, você não fica achando que todo mundo lhe
odeia.
10.. Você economiza tempo e dinheiro lavando a roupa de 3 em 3 semanas.
12. Se alguém esquece de convidar você para alguma coisa, é apenas um
esquecimento, e não evidência de que odeiam você.
13. Você não tem que fazer a barba abaixo do pescoço.
14. Nenhum dos seus colegas de trabalho tem o poder de fazer você chorar.
15. Se você tem 34 anos e é solteiro, ninguém liga.
16. Chocolate é um alimento como qualquer outro.
17. Flores resolvem tudo.
18. Você não tem que se preocupar em "ferir os sentimentos" dos outros a
cada telefonema pronunciado.
19. Você consegue estacionar em vagas que têm menos de 2.5 vezes o
comprimento do seu carro.
20. Ana Maria Braga inexiste no seu universo.
21. A revista "Caras" inexiste no seu universo.
22. Você não tem compulsão de arrumar sua casa inteira em 15 segundos
quando alguém toca a campainha.
23. Os mecânicos lhe dizem a verdade.
24. Você está se lixando se alguém percebe ou não que você cortou o
cabelo.
25. Se você está assistindo a um jogo com um amigo seu e ele está no mais
absoluto silêncio por 45 minutos, é porque o jogo está bom, e não porque
ele está de mal com você.
26. O mundo é seu mictório.
27. Você não depende do seu cônjuge para programar videocassete.
29. Cabelos brancos e rugas somam charme.
30. Ninguém fica olhando para seu peito enquanto conversa.
31. Você tem um relacionamento absolutamente normal com sua mãe.
33. Se você diz que vai ligar para um amigo e não liga, ele não fica
choramingando e os outros não formam um comitê para solucionar o problema.
34. Você não tem medo da velhice.
37. Você não tem que se lembrar dos aniversários de casamento e nascimento
de todo mundo.
39. Quando se encontra com os amigos, você sabe que não vai enfrentar a
frase "Então, está notando algo diferente em mim?".
40. Seus amigos não o obrigam a falar sem ter sobre o que falar.
41. A continuidade do Universo não depende da roupa de cama ser trocada
todo dia.
42. Ter barriga não o impede de usar camiseta.
Previsão dos Banqueiros de ganhos fantásticos no país
Banco dos EUA vê ganho fantástico no país
Por Folha de São Paulo 07/08/2006
Goldman Sachs volta a alardear atrativos dos mercados de Brasil, Rússia, Índia e China e fatura com a "Bric fever'
Para empresa, há "subida dramática" da participação dos 4 países no mercado de capitais global para, no mínimo, 25% até 2050
LEILA SUWWAN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Depois de um tempo na defensiva, o banco americano Goldman Sachs voltou à carga no marketing do Bric (sigla cunhada por ele para designar Brasil, Rússia, Índia e China) e aponta para ganhos "fantásticos" ou "espetaculares" em investimentos nesses mercados emergentes.
Apesar do baque recente nas bolsas de mercados emergentes, o Goldman Sachs está faturando no que já foi batizada "Bric fever", com o surgimento de fundos de investimentos focados nos quatro países. Houve até o lançamento de um "índice Bric" para as ADRs (American Depository Receipts, papéis que representam ações de empresas estrangeiras nos Estados Unidos), divulgado pelo Bank of New York.
Segundo o banco, haverá uma "subida dramática" da participação dos Brics no mercado de capital mundial. Na previsão conservadora, a fatia dos quatro emergentes ficará em cerca de 25% em 2050. Na previsão otimista, metade do mercado mundial de títulos e ações será dos Brics.
"Se esses mercados permanecerem como estão hoje, sua participação mundial irá crescer dramaticamente. Se forem adotadas as estruturas que temos no Ocidente, o crescimento será espetacular, oferecendo oportunidades fantásticas para investidores ao redor do mundo", diz Jim O'Neill, diretor de pesquisa do banco.
Apesar da alta adjetivação, investidores mantêm a cautela diante da idéia de "febre", ou, como diz o Goldman Sachs, "fenômeno". Para o gestor de um fundo de investimento focado nos Brics, Mark Mobius, são mercados interessantes, com oportunidades.
"A reação aos fundos de Brics é positiva, mas nós não chamaríamos isso de "hype" ou "fenômeno". O crescimento nos Brics é uma oportunidade de investimento", disse Mobius à Folha.
Misturando pesquisa e publicidade, o "Bric Dream Webtour", presente no site do banco, rebate críticos, em narração do próprio O'Neill, que cunhou o termo em 2001: "Muitas pessoas acham que isso é apenas um sonho, que pode ou não acontecer, e que a atenção dada aos Brics é exagerada. Mas é importante lembrar que as economias dos Brics já têm uma enorme influência na economia mundial".
Segundo ele, mais de um quarto do crescimento mundial dos últimos cinco anos vieram dos Brics. A previsão é de que os quatro países terão PIB (Produto Interno Bruto) conjunto no patamar de US$ 52 trilhões em 2040, mesmo patamar do G7 (sete economias mais industrializadas), e de US$ 90 trilhões em 2050.
Antes de alardear as "fantásticas oportunidades" para investidores, ele lembra que não são as populações locais não vão receber os benefícios.
Em termos per capita, residentes dos Brics seguirão atrás dos países desenvolvidos. Apenas a Rússia, devido à previsão de forte declínio populacional, ficaria perto dos países em desenvolvimento em termos de riqueza per capita.
Por causa disso, o Goldman prevê outro "potencial espetacular" no mercado consumidor: a classe média dos Brics (com renda anual acima de US$ 3.000 por pessoa) deve quadruplicar na próxima década. Em 20 anos, vê os Brics como os maiores compradores de automóveis, com a China liderando na marca de 200 mil carros, seguida de EUA, Brasil, Rússia e Índia.
A valorização cambial prevista para 2050 para os Brics também é chamada de "espetacular": 298% para a China, 281% para a Índia, 208% para a Rússia e 129% para o Brasil.
O Goldman Sachs prevê que o pico do crescimento mundial vai acontecer dentro dos próximos dez anos, fortemente condicionado aos Brics e seus respectivos envelhecimentos populacionais. Nesse período também prevê que o preço das commodities sigam fortes e que a demanda de energia suba 2,5% ao ano, em média
Prisões, crime organizado e exército de esfarrapados
por Marcelo Freixo
professor de História e pesquisador do Justiça Global.
O sistema penitenciário do Rio de Janeiro abriga mais de 27 mil presos condenados duplamente. Sentenciados a cumprirem as penas determinadas pela justiça em condições absolutamente precárias, são novamente condenados à criminalização permanente diante do funcionamento de um sistema penal que promove nas prisões o espaço da consolidação da exclusão e não a punição ou a "ressocialização".
O Brasil vem apresentando um forte crescimento da população carcerária desde a década de noventa. Segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), entre 1995 e 2003 a população de encarcerados no Brasil cresceu 93%. Este crescimento vem se tornando estrutural e se consolidando como um dos mais graves e desafiadores problemas da atualidade. Em dezembro de 2004, o Brasil contava com 336.358 presos. Em dezembro de 2005 este número subiu para 361.402. A grande maioria cumpre pena em regime fechado. Neste sentido, São Paulo vive um drama incomparável. Nas prisões paulistas concentram-se mais de 138 mil presos. O Rio de Janeiro é o segundo estado que mais encarcera no Brasil. Em dezembro de 2005 registramos 23.054 presos no sistema penal e 4.755 nas delegacias de polícia.
A realidade dos presos do Rio de Janeiro apresenta uma peculiaridade em relação aos demais estados. No Brasil, mais da metade dos presos é condenada por roubo ou furto, enquanto no Rio de Janeiro a maior concentração das condenações é por tráfico de entorpecentes. Este contexto gera a necessidade de uma análise específica sobre a relação das prisões com a ação do que chamam de "crime organizado" nas favelas do estado.
A cidade do Rio de Janeiro possui mais de 650 favelas, onde vivem mais de um milhão de pessoas. Em praticamente todas as comunidades existe o tráfico de entorpecentes. Exceção feita para algumas favelas na Zona Oeste, onde o domínio é feito por grupos de policiais que controlam a segurança, o transporte alternativo, a distribuição do gás e outros serviços. Por mais que menos de 1% dos moradores esteja envolvido com o tráfico, é no combate a este comércio de drogas que podemos ver focada toda a política de segurança do governo estadual. Seria este tráfico o grande crime organizado do Rio de Janeiro?
O comércio de entorpecentes é uma das atividades econômicas mais complexas e lucrativas do mundo capitalista atual. É uma "empresa" concentradora de renda, altamente lucrativa, que explora mão de obra barata e, portanto, totalmente adaptada ao mundo neoliberal. Outra característica curiosa é a forte alienação do trabalho que produz: seus "funcionários" não possuem a menor idéia do montante do lucro da empresa. Esta mão de obra é formada por jovens, cada vez mais jovens, arruinados afetivamente, esvaziados de reconhecimento e visibilidade e sem qualquer perspectiva de um futuro breve.
Excluída de forma complexa e profunda, esta juventude enxerga na arma, na facção e no poder local todo sentido de vida e reconhecimento necessário. Recentemente observei, dentro de uma favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, um jovem de aproximadamente 15 anos, alugando uma arma do tráfico para passear pela favela e, possivelmente, desfrutar dos olhares mais atenciosos das meninas da mesma idade. Fica evidente que, por um lado, o desemprego, a desigualdade social e a péssima distribuição de renda e, por outro, o imaginário simbólico e coletivo, a exclusão geográfica e cultural produzem, da mesma forma, um mapa complexo e desafiador da violência.
Quando entramos nas favelas observamos armas, drogas e miséria afetiva e material. O que chamamos de crime organizado é exatamente onde existe o menor grau de organização. Os que chamamos de grandes traficantes são pessoas que, na maioria das vezes, nunca saíram da favela e possuem um baixíssimo nível escolar. O enorme grau de violência e inconseqüência, que caracteriza a ação destes garotos, confunde-se com criminalidade e organização. A linha entre a vida e a morte é tênue, sutil, quase imperceptível. Seriam grandes criminosos por serem muito violentos. Esta lógica é falsa e acaba sustentando toda política de segurança e penitenciária do Estado.
As favelas do Rio de Janeiro são vitimadas duplamente. De um lado o tráfico cada vez mais opressor e violento, e de outro a ação discriminatória do Estado que só comparece nos morros com a polícia. Nestes lugares não existe Estado! A favela da Maré possui mais de 130 mil moradores e só existem duas escolas públicas de ensino médio. Hospitais, creches, transportes e todos os setores básicos são precários. Junto com a desigualdade de direitos, observamos a criminalização da pobreza. A obstrução generalizada do princípio da legalidade opera dentro das favelas como um motor do poder local do tráfico. Não existe poder paralelo e sim absoluto, pois a ausência do poder do Estado e de um padrão de legalidade faz com que qualquer questão seja resolvida dentro da lógica local.
O Rio de Janeiro possui a polícia mais violenta do mundo. O grau de letalidade da polícia carioca supera todas as polícias dos Estados Unidos somadas. Nos últimos sete anos, as mortes provocadas pelas ações policiais cresceram 298,3%. Hoje são mais de três pessoas por dia mortas pela polícia. O perfil das vítimas é conhecido: jovens do sexo masculino, pretos, pobres, moradores de favelas e periferias e de baixíssima escolaridade. Os dados citados referentes a letalidade policial são oficiais e definem apenas aqueles registrados com o título de autos de resistência - pessoas que foram mortas supostamente em conflito com a polícia.
Estudo do professor Ignácio Cano demonstrou que 67% dos casos de auto de resistência a vítima apresentava tiros na nuca e disparados a curta distância. Os laudos não deixaram dúvidas que por trás destes registros existe mascarada a prática da execução sumária. Esta realidade atinge diretamente os jovens pobres das favelas e provoca a perversa inversão do ônus da prova, pois se um jovem com estas características é morto pela polícia e registrado como auto de resistência, cabe a família provar que seu filho era inocente.
Outra prática que consolida a criminalização da pobreza é o mandado de busca genérico ou coletivo. Contrariando a lei brasileira, estes não especificam endereços ou pessoas, mas abrangem toda a comunidade. Este é o momento onde todos os moradores são criminalizados pela polícia e pelo judiciário. Evidentemente estes mandados são exclusivos para as favelas, consolidando assim o etiquetamento penal dos setores mais pobres da sociedade. É verdade que a polícia sempre invadiu as casas das favelas sem qualquer necessidade de mandado judicial. O que assistimos, então, é a adequação da justiça à ação opressora da polícia sobre os guetos. É a legitimação da ação ilegal e truculenta da polícia.
Em um dos mandados genéricos expedidos no Rio de Janeiro no ano de 2002, um juiz fluminense justifica a medida da seguinte maneira: "Destarte, este grito de socorro e justiça promovido pelo povo deve ser atendido com urgência e rigor, não só pelos policiais honestos, mas também, e principalmente, pelo Poder Judiciáro, que ciente e consciente das dificuldades investigatórias dos incorruptíveis policiais e da fragilidade dos cidadãos que se aventuram em 'denunciar' o lixo genético que lhes amedronta, cala e mata, não pode simplesmente encastelar-se de forma alienada para discutir meras filigranas jurídicas."
Os setores pobres e favelados do Rio de Janeiro se tornaram a nova classe perigosa. Durante o regime militar, o discurso da segurança pública se voltava para a ameaça comunista, subversiva. No decorrer da década de noventa verificamos um forte processo de criminalização dos setores que sobraram da sociedade de mercado. Durante o fim da década de oitenta e início da década de noventa, o Brasil consolidou um capitalismo neoliberal, não produtivo, onde a busca do lucro se faz na esfera da especulação financeira e não no setor produtivo da economia. Este modelo se faz com um Estado forte em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em gastos sociais e intervenção econômica. A estabilidade monetária passa a ser o eixo central da economia. Daí a necessidade de disciplina orçamentária, contenção de gastos públicos e restauração da taxa "natural" de desemprego. A redução de impostos mais altos e sobre a renda, assim como a alta lucratividade dos Bancos, fez da desigualdade social um importante dinamizador de nossa economia.
O atual governo federal mantendo o modelo econômico do governo anterior, gastou com juros e serviços da dívida pública R$ 717 bilhões, valor que seria suficiente para assentar 4 milhões de famílias rurais, duplicar os recursos em educação e saúde e garantir habitação para 15 milhões de famílias sem teto. Segundo o economista Márcio Porchmam, no Brasil de hoje as 20 mil famílias que vivem de rendas ganham R$ 2.685,00 por dia, mas os 8 milhões de pobres do programa Bolsa-família recebem R$ 0,48 por dia. Este abismo faz o Brasil estar sempre entre os países mais desiguais do mundo. A exclusão social se torna estrutural diante da construção do Estado Mínimo. São mais de 50 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza.
A desigualdade é acompanhada de forte imobilidade social sistêmica, onde parte da população se torna uma massa inimpregável de subcidadãos. Para todo Estado Mínimo existe a necessidade de um Estado Máximo de controle social e repressão sobre as populações pobres e excluídas. De um lado a mão do mercado e da desqualificação e desregulamentação do trabalho, do outro a mão penal e policial da repressão. Segundo Zigmund Bauman, "a pobreza não é mais um exército de reserva de mão de obra, tornou-se uma pobreza sem destino, precisando ser isolada, neutralizada destituída de poder."
É neste contexto que precisamos debater o sistema penitenciário atual e sua complexidade. A quase totalidade de nossos presos são representantes deste setor completamente excluído economicamente, culturalmente e socialmente. O sistema penitenciário é sempre um reflexo da sociedade que o produz, um espelho das nossas contradições. A falta de política para o sistema penitenciário e a ausência de gestão são sintomas desta exclusão mais profunda. Para a opinião pública e para boa parte dos governantes, uma prisão segura é aquela em que não ocorrem fugas nem rebeliões. O que acontece dentro dos muros pouco importa. Investir na capacitação dos profissionais de segurança e técnicos, em trabalho para os detentos, em escolas dentro das prisões ou na classificação dos presos conforme determina a lei, não são prioridades. Não são vistas como medidas que contribuam com a segurança da unidades penal. O crescimento da população carcerária brasileira é acompanhada do mais absoluto caos administrativo.
Em todo o Brasil convivemos com um enorme abismo entre o que é real e o que é legal. Porém é no sistema penitenciário que esta distância se torna mais dramática. A Lei de Execução Penal é uma de nossas leis mais avançadas, apesar de ter sido elaborada em 1984 e evidentemente necessitar de complementações. A LEP é sem dúvida a lei mais descumprida de nossa legislação. 70% dos estados da federação separam os presos pela facção criminosa, a média nacional de presos estudando é de 17%, apenas 16% dos estados possuem patronato, só 20% contam com escola de formação penitenciária e em 70% não existe plano de cargos e salários para os funcionários da secretaria responsável. Sendo assim, as prisões vão se consolidando como instrumento de solidificação da exclusão, executando a pena de morte social.
É dentro desta perspectiva que devemos analisar o crescimento e fortalecimento das facções criminosas dentro e fora das prisões. As facções representam o elo entre as favelas e as prisões. Dentro das favelas, diante da ausência do Estado, estes grupos exercem o poder local com grande violência e tensão permanente. A maioria esmagadora de seus membros são jovens que nunca conheceram uma realidade diferente das favelas, poucas vezes saíram da comunidade. A linguagem hegemônica desde muito cedo é a da violência. A breve vida se resume na venda da droga, no exercício do poder local, nos romances locais, nos confrontos e acordos com a polícia e nas guerras permanentes com as facções rivais. A inserção destes jovens nos grupos criminosos muitas vezes representam não somente a possibilidade de uma vida mais viável economicamente, mas também, e não menos importante, a viabilidade de se sentir reconhecido, valorizado e dotado de significado. Dentro das prisões estas facções são fortalecidas e continuam mantendo o controle absoluto sobre as comunidades. Dando ordens de quem vai viver e quem vai morrer, qual comunidade será invadida e quem responde pelos negócios locais.
No Rio de Janeiro, quando uma pessoa é detida e chega à delegacia, os funcionários perguntam a qual facção ela pertence, de forma a poder classificá-la em uma das celas da unidade. Quando o preso afirma não pertencer a nenhuma facção, o funcionário pergunta onde ele mora visando com isto identificar em qual facção sua vida pode estar mais "segura". Para muitos presos, é na prisão que se inicia a vida dentro de uma facção. Hoje, todas as prisões do Rio de Janeiro estão ligadas a uma das três facções existentes no estado. Tal realidade faz com que o sistema penitenciário e a direção das unidades tenham que adequar as regras legais com as regras das facções. Quando um detento ganha a concessão de um benefício, como o regime semi aberto, sua transferência para uma unidade compatível com o novo regime depende das vagas oferecidas nas prisões da facção a qual pertence o preso. Se a vaga disponível for em um presídio de outra facção, o preso continua no regime fechado e a vaga continua aberta. É evidente que não se pode misturar presos de fações rivais, porém não criar alternativa para a correta classificação dos presos conforme o crime que cometeu e seu grau de periculosidade, faz com que o Estado seja um importante instrumento da organização deste exército de esfarrapados. Dos trinta presos que morreram na casa de custódia de Benfica em 2004, no mais sangrento conflito entre facções dentro das prisões, pelo menos 17 tinham sido detidos por crimes leves. A maioria eram moradores de rua, presos por furto ou roubo de pequeno valor. Não possuíam qualquer vínculo com facções até o momento de suas prisões.
O tráfico de drogas e de armas continuam sendo de enorme lucratividade, o discurso da segurança pública continua focado na guerra contra o crime organizado nas favelas e os jovens pobres e negros continuam sendo mortos e presos em escala assustadora. O atual quadro além de desumano com os setores mais pobres da sociedade é também de total ineficiência das políticas penitenciárias e de segurança.
A sociedade de mercado não comporta conceitos como democracia, liberdade, garantias legais, penais e processuais. As instituições não suportam nem mesmo um choque de legalidade. Todos os valores e conceitos são substituídos pela segurança. A luta pelos direitos humanos busca garantir o cumprimento da lei para todos, garantir que por serem humanos devem ter a garantia dos direitos básicos. O preconceito ao termo "direitos humanos" vem do fato de que a opinião pública não reconhece humanidade numa parcela da sociedade e, conseqüentemente, não considera a possibilidade dos seus direitos. A despersonificação e a invisibilidade destes segmentos contribuem para a construção do medo e da intolerância. Enquanto não vencermos esta luta política pedagógica, vamos continuar ampliando a crise do sistema penal e chamando de crime organizado apenas os atos criminosos dos setores esfarrapados.
RENATO FREIXO (1972-2006)
Punição para os assassinos
-Meu pai vai voltar, eu sei que ele vai voltar!
Mariana, na certeza dos seus 7 anos de idade, não pode mesmo aceitar que seu papai, o Renato, aos 34 cheios de saúde, tenha sido arrancado do seu convívio de forma tão cruel, covarde, absurda. Laura, sua irmãzinha de pouco mais que um ano, ouve passos e ainda sente cheiros daquele que a afagava todos os dias. E silencia, percebendo aos poucos o vazio imenso.
Marcelo Freixo, na profunda dor, que só não é mais gigantesca que a de seus pais, Haroldo e Alenice, tenta atravessar a escuridão do vale da morte guiado por alguma luz: - A noite do assassinato do meu irmão foi de horror, espanto, ódio e desespero. Ao longo do dia, o outro lado, que nos salva: o conforto dos amigos, a solidariedade. A sede de justiça de muitos. O Bem superando o mal.
Renato quer dizer renascido. Para aquém da plenitude que ele agora vive, cuja paz ainda desconhecemos, Renato Freixo continua presente na nossa persistente luta pela prisão dos estúpidos que o mataram. Eles se enganam ao imaginar que sua ação ficará impune, por serem tantos os cúmplices de seu comportamento degenerado, que cobre de luto e pranto o nosso pobre país.
Você tem razão, Mariana. Renato, que agora mora em Deus, já está voltando em cada minuto de nosso empenho por um outro mundo, onde os ladrões da vida, escravos do dinheiro e do poder, serão estrangulados pela nossa ternura militante e desarmados pelo nosso invencível amor.
No próximo sábado, 29 de julho, às 20h, na Igreja de São Lourenço, haverá uma missa em memória de Renato Freixo. A Igreja fica no Ponto Cem Réis, em Niterói, na saída da Ponte (direção Fonseca / Alameda).
E QUEM PROTEGE NOSSOS ANJOS?
Porque convivemos quase que diariamente, por muito tempo, com a morte de pessoas próximas e o risco de nossa próprias vidas, perdemos a noção do perigo e nos esquecemos do risco de vida que correm os anjos da guarda que nos protegem.
Todas as pessoas, famílias de presos, ex-presos, famílias de vitimas de violência... tememos pela vida do Marcelo quando recebemos a notícia.
Na favela, aprendemos a desconfiar e não nos aproximar muito das pessoas do "asfalto". Mas algumas pessoas do asfalto se aproximaram de nós, conquistaram nossa confiança e, mais que próximos de nós, se embrenharam dentro dos nossos próprios corações. Nos têm abençoado com sua amizade, sua solidariedade, generosidade, ternura. E com muita tolerância e paciência para com nossas "neuroses" de vítimas de guerra urbana e com nossas explosões de estresse pós-traumático.
Pessoas como Marcelo Freixo, Isabel Mansur, Marcelo Braga, Juliana Farias, Mauricio Campos, Sandrinha, Renata e as outras meninas do "JUSTIÇA" têm sido nossos verdadeiros anjos da guarda. Seus ombros têm sido abrigo e conforto para nossas lágrimas e nossas desventuras, suas generosidades têm sido lenimento que nos ajudam a suportar as dores inomináveis causadas pelas tragédias pessoais e coletivas que se abatem sobre nossas vidas pessoais e nossas comunidades.
Não temos nada a dar-lhes em troca, a não ser nossa eterna gratidão, nosso respeito e nosso amor e os acolhemos em nossos corações sofridos e despedaçados, já que sempre sobra dentro dele um pedacinho intacto onde podemos deixá-los.
Mas já não basta nossa gratidão, não basta nosso respeito, não basta nosso amor e
abrigá-los em nossos corações e achar que estão protegidos.
Essas pessoas a quem aprendemos amar e confiar, vêm correndo risco por nós, por que nos protejem. Temos corrido risco por nós mesmos, por nossos parentes, mas temos corrido pouco risco por eles.
Mais que sermos gratos, respeitá-los e amá-los temos que estar dispostos a proteger nossos anjos protetores com nossas próprias vidas. Quando vierem a favela ou andarem conosco pelas ruas iluminadas do asfalto, se preciso for, temos que fazer dos nossos próprios corpos seus escudos de proteção.
Nossos anjos, andam mais desprotegidos no asfalto do que, nós, seus protegidos
nas favelas. Por mais que o avisemos, não acreditam nos nossos "instintos" de favelados.
Quando acontece o que aconteceu com o irmão do Marcelo, pensam
que é obra do acaso, fatalidade da vida... Embora, isso pareça poesia, não é:
é um PAPO RETO E DIRETO.
O bagulho tá doido e vai pra pior. Fazer o quê? Não sei... mas temos que fazer
urgente. Ontem foi o décimo quarto enterro que fui este ano. O primeiro de uma pessoa, parente de um amigo, fora da favela.
Agora, são 11h38 da manhã e acabo de voltar do décimo quinto: ontem a tarde a policia executou covardemente, mais um 'menino" em Acari. Sei, vou enterrar bastante gente da favela ainda este ano. Mas que do "asfalto", seja o último, pelo amor de Deus.
Se Deus não está protegendo nossos anjos da guarda como devia, que sejamos nós, seus protegidos, a tomarmos nas nossas próprias mãos e com nossas próprias vidas, a proteção de nossos anjos da guarda amados.
Uma revolução para salvar a Amazônia
A vaidosa senhora de 76 anos chega sorridente a uma sala cheia de estudantes na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Com sotaque carioca carregado, resigna-se com os problemas no microfone, acende um cigarro e avisa aos incautos que gosta de fazer piada. Os estudantes não entendem a ironia nem o despojamento. Mas, assim que começa sua palestra na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), eles percebem por que Bertha Becker é uma das cientistas mais respeitadas do Brasil. Ela estuda a Amazônia há 30 anos, e há pelo menos 10 defende uma revolução científica para salvar a floresta e ao mesmo tempo levar desenvolvimento e riqueza para seus 20 milhões de habitantes. "O Brasil tem esse desafio e deve saber enfrentá-lo."
A sra. diz o que o Brasil passa hoje pela litoralização. O que significa?
Durante o governo de Juscelino Kubitschek e o programa de integração nacional, houve ênfase na interiorização, com a criação de Brasília, as estradas e o avanço das telecomunicações na Amazônia. A Amazônia mudou muito, inclusive com telecomunicações e indústria. Da década de 90 até agora, o que domina é essa logística que não atinge a Amazônia nem o interior do Nordeste. Ela é voltada para exportação e dominada pelas concessionárias privadas, como a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e a agroindústria, o que acentuou a litoralização, abandonou a interiorização e se concentrou no eixo Centro-Sul.
A CVRD e a agroindústria têm projetos na Amazônia.
São pontuais. Carajás, da CVRD, é da mina até o litoral. A exportação mantém o padrão histórico sob o qual fomos forjados, produzindo matéria-prima para mercados globais. Éramos ilhas voltadas para o exterior. É o que acontece novamente. A preocupação com a interiorização foi sustada.
Por necessidade ou escolha?
Houve a mudança da natureza do Estado, em que há privatização intensa com concessões. Ele delega até serviços para o setor privado, que tem o interesse de exportar a produção, enquanto o Estado tinha intenção de interiorizar o povoamento. Enquanto isso, a Amazônia está isolada. Me irrito porque todo mundo do governo enche a boca para falar do valor estratégico da Amazônia, mas ações concretas são muito pequenas.
Qual é o impacto para os 20 milhões de habitantes da Amazônia?
Um movimento de preservação que foi, sem dúvida, um freio no desenvolvimento regional. Claro que era necessário, e é necessário, porque o movimento de interiorização foi violento. Mas talvez não em tão grande extensão, e não tão preservacionista. Proponho uma revolução científica e tecnológica para a Amazônia porque o Brasil já fez umas boas e importantes, como a exploração do petróleo em águas profundas, transformação da cana em álcool e a revolução do cerrado.
É possível unir essa revolução com a proposta ambientalista?
Deve unir. É uma obrigação da ciência e da tecnologia e do Estado brasileiro. O Brasil tem esse desafio e deve saber enfrentá-lo. O desafio maior é encontrar formas adequadas de utilizar o patrimônio natural que promovam a inclusão social, que é o grande problema da Amazônia e do Brasil, sem destruir a natureza. Não é uma revolução positivista. Ela tem de enredar várias disciplinas, com a participação da sociedade. É possível.
Como?
Fiz um estudo para o Ministério da Ciência e Tecnologia e propus a formação de cadeias tecnoprodutivas em biodiversidade, que viriam desde o âmago da floresta, agregando valor gradativamente, portanto atendendo à população local, até as indústrias nas áreas urbanas, em etapas. Elas passariam pelos centros de biotecnologia. Tem um, em Manaus, que está praticamente parado, e tem de ser posto para funcionar. Existem pequenas e médias empresas em Manaus, Belém e Rio Branco que utilizam a biodiversidade para fazer cosméticos: óleos, essências, sabonetes, batons. A biodiversidade é uma coisa fantástica.
Tal produção não estaria aquém do que o governo espera de retorno financeiro da Amazônia?
O governo não tem nada que esperar. A Zona Franca de Manaus é uma potência econômica, o quarto PIB metropolitano do Brasil. O Pará tem minério que alimenta as fábricas de alumínio a baixo custo. A energia da Amazônia, de Tucuruí, é mandada para o Nordeste e para o Sudeste. A Amazônia produz riqueza que é exportada. O governo tem mais é que dar estímulo para que essas coisas se desenvolvam. Organizar as cadeias, assistir os pequenos e médios empresários locais com fundos da inovação, articular pesquisa em empresa. A biodiversidade não é só para dermocosmética não, ela é também para nutricêutica, alimentos que não são remédio mas que dão bem-estar físico, como o guaraná e o açaí. Além dos fitoterápicos. Dizem: "Ah, não podemos competir com as grandes farmacêuticas mundiais". É verdade. Mas temos um grande problema de saúde pública. Não se pode usar pra isso?
O que a gente vê na Amazônia é o incentivo à produção extensiva de grãos e ao gado.
Isso não é Amazônia, é Centro-Oeste, que se expande em frentes violentas. A questão ambientalista tem uma face legítima e uma geopolítica. Só se a floresta tiver valor econômico que poderá enfrentar as commodities. Os caras preferem tirar madeira, expandir a soja e derrubar a floresta. Mas se ela for valorizada economicamente, a situação muda de figura.
Essa proposta de cadeias produtivas é contrária ao modelo econômico baseado na agropecuária.
Longe de mim dizer que não devemos plantar soja e criar gado. É uma tradição. Na última década, o que sustentou a economia brasileira foi o setor. Mas acho que não precisa derrubar a floresta para isso, né? A soja está no Maranhão, no Piauí, na Bolívia, em todo o Centro-Oeste, na Bahia. Não chega? Há um imenso cinturão "soja-boi" que cerca a floresta, que está se expandindo e vai se expandir mais quando o IIRSA estiver implantado. Vamos destruir a floresta para plantar soja? Nós temos experiências históricas trágicas da monocultura. Já deveríamos ter aprendido com isso. O País viveu de ciclos monoprodutivos. Borracha. Café. Cana-de-açúcar. Café de novo. Algodão. E depois, quando cai o preço? É o que está acontecendo com a soja. Uma desgraça. Nossa história é marcada pelas monoculturas cíclicas para atender ao mercado externo. Tem de atender? Tem. Mas tem de pensar no mercado interno, nos milhões de brasileiros que estão em péssima condição social. Tem de pensar na logística do pequeno, não só na dos grandões.
É dar valor à floresta em pé?
Exatamente. Aqui entram as cadeias produtivas, quando se pensa uma logística própria para a Amazônia.
Essas cadeias parecem voltadas mais à população rural.
Não, não. É para integrar com a indústria. Nada de "ruralzinho" porque isso não vai dar certo na Amazônia. E não adianta fazer coisa pequena e dispersa que ela não enfrenta a soja e a carne. Em áreas de produção de alimentos, por exemplo, acho que tem de se organizar vilas industriais, uma coisa grande, com cem colonos, como cooperativas, com estradas, acesso à cidade e à circulação. E é mais fácil para o governo ajudar, porque pulverizar dinheiro para 700 assentamentos na mata não tem futuro, né? Você acha que tem?
E a exploração da madeira?
A madeira já é exportada, e muito. Vai para o Sul do Brasil e também para o exterior. Acontece que o Peru faz contrabando da madeira extraída pelo Rio Jamari: pela fronteira, manda para Iquitos e, de lá, é exportado por navio pelo Amazonas como se fosse madeira brasileira, entendeu?
É ter certeza de que aqui não existe fiscalização.
É, não existe. Por isso que acho que essa idéia de manejo florestal através de concessão de floresta pública é muito arriscada. Teoricamente seria muito bom, porque madeira é o produto mais abundante da floresta, então explorar com manejo, tudo bonitinho, seria ótimo. Mas o grande problema do Brasil é que não há fiscalização e cumprimento da lei. Então como você pode conceder as florestas sem fiscalização do manejo? É difícil.
O Inpe está desenvolvendo um sistema de monitoramento dessas áreas por satélite, que mostra a rarefação da cobertura.
Ótimo, então é isso. Porque tem um Sipam que, na verdade, até agora não conseguiu controlar nada. É uma crise institucional no Brasil, sabe? É coisa muito séria mesmo. Com uma década de política ambiental, nós não podemos dizer que a situação do povo amazônico melhorou. Isso significa que o modelo tem de ser modificado. E eu acho que tem de ser através da compatibilização. Produzir sem destruir.
Não é o que se tenta fazer hoje?
Mas cadê? Onde? Está se tentando pelo manejo das florestas públicas? Eu quero cadeias produtivas, que não destruam a floresta, que envolvam a população. Talvez até os índios. Eles estão sem trabalho. Houve a luta para a demarcação dos territórios, de suas terras. Essa luta foi vitoriosa para grande parte. E daí? E depois? Como se usam essas terras? Eles estão sem plano nenhum. Isso é muito perigoso porque acabam onde? Na coca. É um risco.
Com isso a gente entra em outra discussão sobre quanto da floresta é necessária em pé e quanto se pode derrubar, algo que não se tem uma conclusão pois o debate está muito...
Polarizado. É verdade. Isso os cientistas deveriam fazer dentro do sentido da minha revolução científico-tecnológica. Eu não sou economista. Sou geopolítica. Posso falar sobre a valorização da Amazônia, não sobre a valoração, pois isso é coisa da economia e ninguém resolveu. E eu não vou ficar parada esperando. Você não acha?
Publicado em: 20/08/2006
Fonte: O Estado de São Paulo
Cidade: São Paulo - SP - País: Brasil
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