
O enforcamento da justiça
Após um julgamento arrastado, teatral e irregular, saiu ontem o veredicto da condenação do ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein, pelo assassinato de 148 Xiitas no ano de 1982. Sua pena é a de morte, por enforcamento.
Quando vi a notícia pela televisão, minha reação de tristeza não foi compreendida pela maior parte de meus amigos e parentes, mas é perfeitamente explicável. É claro que não sou simpatizante de Saddam, nem do genocídio de Xiitas ou Curdos. Não gastaria minha preocupação se o ex-presidente fosse degolado, decapitado ou enterrado vivo em uma revolução popular, onde seu povo tivesse decidido dar um basta a seus abusos, e feito justiça. Se isso tivesse acontecido, eu sequer lamentaria o fim da vida de Saddam, nem questionaria os meios que seus compatriotas achassem para dar fim a seu poder. No entanto, não foi assim que aconteceu.
Saddam Hussein foi caçado em seu país por tropas estrangeiras, que, o tendo capturado, fizeram-no integrar um imbecil teatro de marionetes, que desse algum aspecto oficial ao único intuito sujo que os americanos sempre tiveram: aniquilar Saddam ou qualquer outro inimigo que se coloque no caminho entre eles e seus desejos. Bush Jr não poderia deixar de vingar o fiasco da Guerra do Golfo, comandada por seu incompetente papai, e pediu à Fada do Dente, a cabeça do presidente iraquiano. A estupidez americana permitiu que uma pessoa de inteligência tão duvidosa chegasse ao poder duas vezes, realizando seu sonho de revanche. George W. Bush merece ser presidente dos Estados Unidos. A César o que é de César. Quem melhor do que ele para representar toda mediocridade de sua nação? O problema, é que seus brilhantes feitos deveriam ser voltados somente para seu país. É inaceitável que o quintal de Bush Boy tenha se tornado pequeno, e ele tenha decidido estender sua brincadeira de Comandos em Ação para outros países. Será possível que ninguém tenha puxado a orelha do Sr. Presidente quando pequeno? Será necessário chamar a Supernanny e pedir que ela instale um cantinho da disciplina na Casa Branca?
Não podemos nos conformar com a condenação de Saddam, ordenada pelos caprichos americanos, aplicada por um tribunal fictício, com poder e decisão questionáveis. O julgamento de Saddam foi ilegítimo e ilegal. E se alguém disser que foi merecida a sua pena pelas coisas que ele já fez, por favor, exijam que se aproveite a mesma corda para o pescoço de Bush Pai, Rumsfeld, Chenney, Clinton, Pinochet, Tony Blair, Margareth Tatcher, e diversos outros, tendo como final o apoteótico enforcamento de George W. Bush. Digo isso,meu caro leitor, porque cada um desses nobres senhores já foi responsável por bem mais do que 148 mortes, e jamais pagou qualquer preço por isso.
A execução arbitrária de Saddam abre o precedente para que qualquer um, a qualquer momento, resolva dar cabo de um dos grandes tiranos do mundo. E Bush que esteja pronto... Outro precedente, e o que realmente me tira o sono, é o de que os americanos se achem no direito de julgar e condenar pessoas de jurisdições e culturas bastante distantes das suas, e isso atinja a qualquer um de nós.
Quando Saddam Hussein terminar de debater-se diante do mundo inteiro, terão morrido nossas últimas garantias e direitos.
Leia: A Declaração Universal dos Direitos do Homem
Ouça: "Happiness is a warm gun", dos Beatles. Brilhante!
Assista: "Os últimos passos de um homem"
Faça: Reflita antes de cada julgamento que fizer.
Críticas, comentários, sugestões? Você me encontra em fabianapmadruga@hotmail.com, ou no orkut, Fabiana Madruga.
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