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'...Macaé, ano I, Nº 41 - 3 a 10 de novembro de 2006
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O caminho de Guantánamo ao caos

Domingo passado, logo depois de votar com o desânimo justificado em meu último artigo neste jornal, abri mão de uma praia de sol duvidoso em nome de uma sessão de cinema. O filme , escolhido por um amigo cujas preferências cinematográficas quase sempre assemelham-se às minhas, foi “Road to Guantánamo”.

O corajoso filme conta a história de quatro ingleses, muçulmanos, na faixa dos 20 anos de idade, que decidem ir ao casamento de um deles no Paquistão, e aproveitar para rever amigos e parentes. Chegando àquele país, resolvem fazer uma visita ao vizinho Afeganistão, que está sendo invadido pelos Estados Unidos, logo após o conveniente incidente do World Trade Center. Após enfrentarem bombardeios, em um dos quais perderam um dos amigos, os outros três passam por uma surreal via crucis, onde são presos como terroristas e levados para Guantánamo, onde permanecem em uma prisão de condições inacreditáveis, onde são diariamente torturados para eu confessassem ligação com a Al Qaeda, e dessem pistas sobre o paradeiro de Osama Bin Laden.

Não contaria o que ocorre no resto do filme, porque acredito que o leitor deva conferir por ele mesmo. Mas o que gostaria de compartilhar aqui, é o efeito que me foi causado por tudo o que vi na tela. Diante e tamanho espetáculo de imbecilidade (explícito em cenas que mostram, por exemplo, o inigualável George W. Bush justificando a violência com que eram tratados os presos de Guantánamo com a garantia de que “todos ali são assassinos, e não sentem como nós sentimos”), barbárie e total falta de limites ou respeito pelas leis e pela vida, o natural é que eu fosse tomada pela indignação arrebatadora de costume. Mas não!

Minha maior surpresa foi exatamente a ausência de surpresa. Não houve indiferença em relação ao sofrimento daqueles jovens inocentes, que tiveram arrancada a humanidade. Houve indiferença em relação às atrocidades cometidas pelo governo americano, com total apoio, por ação ou omissão, de inúmeros países e da ONU.

Tive uma profunda revolta quando os inspetores da ONU garantiram não haver armas de destruição em massa no Iraque, e, mesmo assim, foi feita a invasão americana com base nessa “suspeita”; quando, de madrugada, o Afeganistão foi bombardeado covardemente pelos G.I Joes americanos e seus fantásticos brinquedos bélicos;quando milhares de civis inocentes foram dizimados, e dezenas de cidades destruídas em nome da liberdade e democracia do insano Tio Sam; e, especialmente, quando foram divulgados imagens e relatórios da prisão iraquiana de Abu Ghraib. Minha revolta foi incomensurável ao saber que os prisioneiros, muçulmanos, foram forçados pelos verdadeiros terroristas, os oficiais americanos, a comer carne de porco, a posar para fotografias nus e em humilhantes posições eróticas que sugeriam homossexualismo. Os jovens e velhos torturados. As crianças destroçadas. As mulheres estupradas. Tudo o que havia transformado em animais àqueles cuja culpa jamais foi provada, já que não houve julgamento. Entendi, em cada um desses momentos, o que o personagem de Dostoievski sentiu quando disse:”Pare o mundo que eu quero descer!”.

No entanto, nada foi feito. Bush continua lá. Rumsfeld continua lá. Abu Ghraib já não existe, mas Guantánamo resiste. A tortura teve sua prática recentemente confessa pelo governo americano, ganhando o novo nome de “Método alternativo de interrogatório”. Não há interrogatório algum, já que não se busca uma verdade, e sim um pretexto qualquer para tudo o que fazem. É a guerra pela guerra, onde não há um combatente do lado oposto, e nem um vencedor além da estupidez.

George W. Bush e seu séqüito são terroristas, são nazistas, são porcos assassinos, mas não sofrem qualquer sanção. O que ocorreu e ainda ocorre no Oriente Médio é o Holocausto moderno. Hitler está morto. Bush está na Casa Branca.

Meu medo é a banalização. Temo que isso não cause mais revolta. A indignação move montanhas, e perdemos a força de mudar as coisas quando vemos o absurdo como corriqueiro. Por mais que sejamos expostos a um excesso de todo o inaceitável possível, não podemos passar a vê-lo com naturalidade.

O caminho dos jovens britânicos a Guantánamo leva a cada um de nós. A mesma estrada traz a falta de garantia a qualquer lugar do mundo. Resta saber quando faremos com que seu curso seja interrompido.

Leia: “Jihad X Mc Mundo”, de Benjamin R. Barber

Ouça: Rage against the machine

Assista: “Caminho para Guantánamo”, claro!

Faça: Veja as fotos de Abu Ghraib e leve o tempo que for até sentir toda a indignação que elas precisam provocar.

Comentários, críticas ou sugestões? Você me encontra em fabianapmadruga@hotmail.com , ou no orkut, Fabiana Madruga.


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