Aos senhores candidatos à presidência da República do Brasil
Em primeiro lugar, gostaria de confessar que minha predileção por um dos senhores é subsidiária. No primeiro turno, votei na senadora Heloísa Helena, e me orgulho imensamente dessa opção. Uma vez que minha candidata não contou com recursos que pudessem leva-la à disputa final com um dos senhores, vejo-me obrigada a posicionar-me a favor do atual presidente ou de seu adversário. Minha escolha já foi feita, mas faço as seguintes observações:
Ao senhor Geraldo Alckmin, trago algumas dúvidas. Se sua gestão no estado de São Paulo foi tão irretocável e competente, por que deu margem a uma inigualável crise na segurança pública, assim que o candidato se afastou de seu cargo para um vôo mais alto e interessante? Difícil acreditar que estivesse tudo muito bem estruturado, e que seu sucessor tivesse tamanha competência às avessas para fazer com que tudo ruísse em tempo recorde. Mas, se levarmos essa hipótese em consideração, resta ainda uma alta dose de envolvimento para o senhor. Primeiro por ter assumido a responsabilidade de uma gestão que optou por não concluir. Segundo por ter jogado a batata quente na mão de alguém que deveria saber ser incapaz de administra-la. Sua culpa, senhor Geraldo, sua máxima culpa.
Outro conselho para o nosso mais novo tucano no páreo é que não force tanto a barra para fugir da imagem de insosso. Toda essa ferocidade está parecendo artificial demais, e, além de tudo, um flashback de eleições passadas pode ajudar a lembrar que a agressividade contra o oponente dificilmente leva a faixa. Mais propostas e menos farpas, mais consistência e menos dentes, senhor candidato do PSDB. Até porque, chuchu com pimenta continua sendo chuchu.
Para o senhor Luís Inácio da Silva, guardo críticas, mas com o devido respeito. Acredito que, apenas por ser presidente do meu país, já mereça respeito, como o faria qualquer um. Fui contra o ataque desnecessário sofrido pelo senhor em rede nacional por um mero jogador de futebol. Fui contra as ofensas feitas por um jornalista estrangeiro, as charges abusivas, piadas desmensuradas em programas humorísticos, e tudo o mais. Acho que o senhor merece um tratamento diferenciado, não só pela posição que ocupa, mas por sua história de vida e trajetória. No entanto, senhor presidente, eu e todos os cidadãos desse enorme país também merecemos respeito. Respeito e respostas. A todos que optaram pela esperança há 4 anos, restaram a traição e a desilusão. Não acho que o senhor tenha feito pior do que seus antecessores. É provável até que suas falhas tenham sido muitíssimo menos grave do que as dos outros. Porém, esperávamos que não fossem cometidas. Esperávamos erros novos, e não variações de maior ou menor intensidade dos mesmos. Votei, nas eleições passadas, no companheiro Lula. Participei de discussões, agitei bandeiras e chorei de emoção em sua posse. No entanto, fui governada pelo senhor Luís Inácio da Silva, que mudou ao longo de sua gestão. Fico triste por nós, mas principalmente pelo presidente. O senhor poderia ter sido responsável pela guinada, pela mudança, pelo triunfo dos sonhos. Ficou lembrado pela decepção, pelos escândalos, pela vergonha. Foi a vitória do descuido, da falta de comprometimento, do deslumbramento de um homem que, como Édipo, furou os próprios olhos e passou a não saber. O senhor confiaria o leme de seu barco a um cego, ainda que não pudesse culpa-lo pelos eventuais acidentes?
Minha decisão final, guardo para mim. Sempre tive orgulho de ostentar meu voto, mas desta vez não. Meu voto será vazio de crença, de ideologia e de admiração pelo destinatário. Qualquer dos senhores que vier a tornar-se presidente, não será aquele que deixará seu nome gravado na História. Pelo menos, não pelo aspecto positivo. Ainda assim, deixo meu pedido ao vencedor para que não se esqueça de que é, antes de tudo, um brasileiro, e deve lutar pela ordem e pelo progresso de nosso país.
Ouça: “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. Com o auxílio da internet, é possível conseguir a versão ao vivo do festival em que foi premiada apenas com o segundo lugar. Impossível não sentir um calafrio na espinha ao ouvir aqueles versos que convidam ao envolvimento com uma causa maior que nós mesmos.
Leia: “Édipo Rei”, de Sófocles. A tragédia grega conta a história de um governante que se vê traído por seu próprio passado, e vive o conflito de não querer enxergar seus próprios erros e abrir mão daquilo que conquistou.
Faça: Vote com consciência, ainda que isso se resuma a escolher o menos pior. Nem todas as escolhas são felizes, mas todas são necessárias.
FABIANA MARIA PEREIRA MADRUGA
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