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...Macaé, ano I, Nº 22 - 23 a 29 de junho de 2006
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Os apolíticos

Por Fabiana Madruga
fabianapmadruga@hotmail.com

Aristóteles já dizia que não existem homens apolíticos. Não que eu concorde com qualquer coisa que ele tenha dito, nem que todo ser humano médio deva fazê-lo, mas sua afirmação merece todo crédito possível, até pelo embasamento lógico: Se a vida em sociedade é indissociável do ser humano, e a política inerente a ela... bingo! Somos intrínseca e fatalmente ligados à política, no mínimo em uma macro-perspectiva. Mas então, como poderíamos conceber aqueles que se auto definem como apolíticos? Tarefa simples: não fazendo. Não existem apolíticos e sim pessoas que rotulam a si mesmas como tal. O motivo pelo qual fazem isso depende da categoria de pseudo-apolíticos em que se encaixem. Há duas delas: os mal intencionados e os ingênuos. Os primeiros tiram vantagem da neutralidade que forjam, enquanto da ignorância dos segundos, os políticos declarados ou não tiram vantagem. A questão torna-se bastante clara se analisada com o cuidado merecido.

Há pessoas que não podem estar diretamente ligadas à política, mas beneficiam-se dela. Participam tanto das decisões que nos atingem quanto qualquer político em cargo, mas não interessa a elas que sejam vistas como os articuladores que de fato são. Essa "invisibilidade" protege a imagem que escolhem passar para a sociedade. Por não tomarem partido abertamente, são consideradas neutras e por isso suas opiniões ganham status de imparcialidade, recebendo mais respeito e, o mais grave, mais adeptos! Com isso, essas forças mascaradas vão ganhando terreno para os interesses que defendem sem sujarem publicamente as mãos. São esses os apolíticos vistos como sóbrios, racionais, esclarecidos e equilibrados simplesmente porque acredita-se que fiquem em cima do muro, e por isso tenham melhor visão da situação. Estão em posição privilegiada, sempre. Grandes empresários, figurões da mídia, artistas, esportistas e personalidades públicas em geral. Não raro cercam-se de nobres feitos em nome do bem-estar social e de um vasto currículo na atividade filantrópica. Certificam-se de que já conquistaram o povo e de que encontram-se acima de qualquer suspeita para exercerem melhor seu poder camuflado junto ao poder assumido. São obviamente políticos. Tanto em relação aos interesses que têm quanto ao grau de envolvimento que possuem com as decisões tomadas para atingí-los. Disfarçam sua imensa influência para que ela progressivamente cresça, sem que no entanto gere quaisquer responsabilidades diretas para estes. Confortável, não?

Entretanto, nem todos que se dizem apolíticos encontram-se tão bem situados quanto os incluídos no exemplo anterior. Há também aqueles que realmente acreditam estar alheios à política. No raciocínio que cultivam, a política não os afeta na vida que levam, e eles menos ainda afetam a política que os cerca. Um engano de graves conseqüências. Essa segunda classe de apolíticos não é acometida de más intenções, mas de uma profunda ignorância. Não têm idéia do poder que exercem, e por isso, acabam fazendo isso de forma prejudicial a eles mesmos. É uma arma que não sabem manusear e apontam para si. Não repararam que, quando resolvem não ter envolvimento com a política, são um problema a menos para os que ocupam o poder, mas não deixam de ser impostos a mais. Quando não se revoltam, não se ultrajam nem se movem contra as injustiças que sofrem, não estão externos a elas e sim colaborando para que continuem existindo. Quando não se está contra, se está a favor. Não existe o neutro, nem a posição intermediária. Um indivíduo que opte por não exercer plenamente seus direitos políticos, nem defender seus interesses enquanto cidadão, é mais munição na mão dos poderosos contra o povo. É um traidor de sua própria causa, mas acredita ser superior aos demais por não estar diretamente envolvido com aquilo que lhes atinge. É presa fácil quando se aliena, perde força e consciência. Prato cheio para quem acaba não precisando ao menos comprar briga com aquele que arrasa. Triste, não?

Os apolíticos, sendo da segunda ou da primeira categoria, não são nada além de parasitas que contribuem para que percamos cada vez mais nossa voz enquanto povo e legítimos titulares do poder que rege nosso país. A respeito dos que se utilizam da nomenclatura para melhor colherem os frutos de uma administração pública pouco nobre, é necessário que saibamos reconhecê-los, enxergar os lobos por trás da pele de cordeiro e tirar deles o frágil poder que lhes alimenta: a nossa confiança. Se forem desarmados e combatidos, irá lhes restar somente os direito de opinião e oposição que cabe a todos nós. Então a luta será de igual para igual, e portanto justa. Quanto aos falsos apolíticos da segunda categoria, é necessário que desmascarem a si mesmos, e façam de sua consciência política uma virtude imensamente maior e mais benéfica do que a neutralidade que acreditavam ter.

Leia : "Os inimigos" de Máximo Gorki. Um clássico atemporal que mostra o quão política pode ser uma luta que a princípio acreditava-se ser por interesses individuais.

Assista : "Estado de Sítio" de Costa-Gavras. O diretor grego tem pérolas no estilo de cinema político, mas esse filme em especial fala sobre o envolvimento do povo como um todo na resistência política. Bom para se formar opiniões, seja contra ou a favor do grupo tido como terrorista.

Ouça : Sex pistols. Em um artigo anterior já havia mencionado a importância do punk enquanto instrumento de oposição quando recomendei The Clash...o mesmo vai para estes outros ingleses igualmente brilhantes e pouco conformados.

Faça : Assuma posições sempre...

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