Sobre a soberania
Por Fabiana Madruga
fabianapmadruga@hotmail.com
Nas últimas semanas, o Brasil vive uma desconfortável, polêmica e não exatamente declarada crise diplomática com a Bolívia e seu novo governo. Os interesses financeiros de nosso país (e ou da Petrobrás) encontram-se ameaçados pela política de nacionalização feita pelo presidente boliviano Evo Morales, e, quando se fala em um prejuízo do tamanho do que estamos prestes a tomar, fica extremamente difícil fazer o que é pedido pelo país que ocupa o outro extremo do conflito, e colocar-se no lugar dele. Ao contrário: volta e meia pedimos ao presidente da Bolívia que pense na situação do Brasil. Falamos em números e queremos que ele leve nossas súplicas em consideração, quando ele fala de ideais e justiça social. São dois pólos opostos, dois pontos de vista inconciliáveis sobre uma mesma questão, que geraria discussões intermináveis,por desdobrarem-se ambos paralelamente. O presidente boliviano teme não ser fiel a seus princípios e norte políticos e não cumprir a promessa que fez dele eleito. Ele, ainda que por meios questionáveis, luta contra o tempo para resgatar o que seu país perdeu há muito tempo: a soberania. Nessa ausência, nossos países se assemelham. A diferença entre nós, é que o Brasil acostumou-se tanto a viver sem soberania, que esqueceu o significado e imensa importância dela.
"Alto lá!", clamariam os que esquecerem de pensar por si. Diriam que o Brasil é um Estado soberano, e que isso está na Constituição Federal Brasileira, nossa Carta Magna. Eu seria obrigada a dar-lhes a razão temporariamente. O Brasil é um país teoricamente soberano sim. Até porque, se o fosse, nem país seria, afinal, para ser considerado Estado, é necessário que haja, além de território e povo, a tal soberania. Ponto para a boiada: o Brasil é soberano...no papel!
Agora, se ainda corre sangue em nossas veias tupiniquins, se ainda sentimos amor e orgulho por nosso país, e como no hino nacional, não fugimos à luta e nem tememos a própria morte quando se trata de defender a pátria amada, isso não basta. A soberania que importa é que se vê, a que se sente, e não a que somos instruídos a achar que existe. A soberania brasileira é como a roupa nova do imperador. Desafio quem possa aponta-la, como se é capaz de fazer com algo que seja real e vou além. Grito em alto e bom som que nosso país está nu. Está absolutamente despido daquilo que lhe faria realmente senhor de si.
Provas não faltam. Os mais esclarecidos sabem que a Amazônia por exemplo, já não faz mais parte do território brasileiro para diversos livros de geografia atuais, nos Estados Unidos e em alguns países Europeus. Crianças de diferentes partes do mundo já crescem tendo uma visão tacitamente oficial de que aquilo que pertence ao nosso país, é território universal. De onde saiu essa expressão que só se aplica a esse caso? Evidentemente, da conveniência desses países imperialistas que já não mascaram suas reais intenções como antes, e mostram suas garras cada vez mais, para desencorajar quaisquer tentativas de resistência. Um militar que é grande amigo da família e serviu por muito tempo na região norte do Brasil, nos confidenciou outro dia que há lugares dentro do nosso território que não são de acesso nem de nossas forças armadas. Centros de estudo, pesquisa e exploração internacionais que funcionam na nossa terra e agem como se dela fossem donos. Rimos, disfarçando um resquício de indignação quando vemos estrangeiros patenteando ervas medicinais brasileiras que passarão a ser de domínio de imensos laboratórios multinacionais, Assim como a caipirinha, a rapadura. Turistas de outros países vêem para o Brasil e passam a andar com séqüitos de prostitutas que se humilham e perdem não só a tão falada honra como também a humanidade ao se trocarem por tão pouco. Garotas de 12, 11, 10 anos ou até menos vendem seus corpos ou favores sexuais a estrangeiros por um preço tão camarada, que rende inúmeras recomendações de clientes inteiramente satisfeitos. Somos surpreendidos (ou não) até em plena linha dois do metrô do Rio de Janeiro, quando centenas de trabalhadores que retornam aos seus lares no subúrbio e na baixada fluminense, se espremem, acotovelados como animais, ouvindo a cada parada o seguinte anúncio: "Next stop: X station". Por mais surreal que pareça, ainda há quem explique que é para o bem do turismo, e que isso é revertido para nós. Nós quem, cara pálida? Nós quem?
Com tudo isso e muito mais, que país pode-se dizer soberano? Que país pode ter orgulho de si, ou cobrar respeito? Que país pode compreender a política de Evo Morales ou de qualquer outro líder que se recuse a dar prioridade aos interesses internacionais, e voltar os recursos dos quais dispõe ao próprio povo que os gera, e para o qual deveria administra-los? Que país pode afirmar ser realmente um país?
Antes que isso cause um profundo sentimento de que tudo está perdido e nada mais pode ser feito, vou contar-lhes uma história. Era uma vez um país que, apesar de ser oficialmente independente, mais parecia um playground americano, que por sinal era muito lucrativo. De tanto que parecia propriedade dos Estados Unidos, era até normal ver nesse país a presença das forças armadas americanas. Uma determinada noite, um jovem advogado que tinha imenso apreço por sua terra, viu um marine americano que, tendo voltado um tanto quanto bêbado da orgia rotineira, resolveu urinar sem o menor pudor, não só no meio da rua como, mais precisamente, no monumento do grande herói da Independência daquele país: Jose Martí. Indignado e disposto a ignorar o bom senso pregado por seus amigos em não levar sua revolta adiante, o rapaz foi à embaixada americana cobrar uma atitude diplomática. O embaixador em questão, que nem sabia o nome do herói ofendido por seu compatriota igualmente ignorante, parecia pregar um deixa-disso quase budista para que o evento que lhe parecia tão sem importância, fosse logo esquecido. O destemido advogado em questão, resolveu então ser um pouco mais contundente, e perguntou ao diplomata que no mesmo instante perdeu toda a sua calma, se a reação seria a mesma se ele próprio resolvesse urinar no Álamo. O país onde ocorreu esse caso é Cuba, e o rapaz era ninguém menos que Fidel Castro, o revolucionário que levou a Ilha ao fim da humilhação, e à real independência do domínio Yankee e imperialista.
Na maior parte das vezes, tudo começa com um simples "basta". Que esse seja então dado à nossa submissão, e que seja retomada o quanto antes, a soberania da qual necessitamos para que possamos nos tornar o país em que um dia acreditamos.
Assista : "Soy Cuba". O filme soviético mostra a guinada do país rebaixado pelos americanos que se tornou o primeiro território livre da América Latina.
Leia : Diferentes conceitos sobre Soberania. Inclusive os que saem do lugar comum. Procure definir o seu.
Ouça : A Internacional Comunista, o grande hino de libertação e proclamação dos ideais socialistas. Conseguir uma tradução na internet é bastante fácil. Não é necessário levantar a mesma bandeira para apreciar a beleza dele.
Faça : Procure saber sobre o processo de Independência de todos os países que já foram colônias. Observe como todos partem de um ponto de absoluta e intolerável indignação. Será esse o nosso?
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